segunda-feira, 6 de março de 2017

Do livro inédito Auto da Romaria:

O ex-violinista


As lições desafinadas,
semifusas da memória,
o menino é a nota máxima
na constante palmatória.

Me perdi nas quatro cordas,
tão difíceis semitons,
se o teu dom além transborda,
eu, no entanto, não fui bom;
  
e rompi cravelha e arco,
e rompi estojo e breu,
o que continua intacto
é o som do que se perdeu.

A madeira volta à árvore?
A queixeira inda machuca,
esse vibrato mais árduo
o coração executa.

A mão esquerda teimosa,
a mão direita agradece
uma nota que recorda,
outra que desaparece.

A alma permanece ali,
sustentando as duas tampas:
na de cima – me prendi,
na de baixo – a dor é tanta!

Nessas décadas comigo,
teu silêncio é fiel.
Se te obriguei, desobrigo,
perdoa, amigo, o labéu.

Nas quatro cordas rezei:
mi – a mais aguda, o hinário,
sol – a mais grave, chorei,
em e fui falsário.

As lições desaprendidas,
os dedos estão calados,
o ex-violinista convida
alguns cantos desusados.

Somente os anjos escutam
as músicas do menino – 
melodias que não mudam,
quando mudam os violinos. 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Nos mais altos ramos poisam aves
amantes de luz e da frescura em rasgos
restituídos à unidade original e à menção
da alegria que corre nos pulsos nascidos
donde o gesto mínimo se faz voo e o peito
se oferece como libação às flores e frutos
abertos e tão erguidos como só côncavos
de água sustêm  E os corpos leves e nus
se inclinarão pejados do odor que percorre
o interior da respiração como afago

Maria Albertina Mitelo. O tempo das aves. Porto: Edições Afrontamento, 2015, p.52

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Luz velada que faz íntimo o dia.
Que atento seja o meu recolhimento.
Que a mais leve a mais longínqua
vibração ecoe em mim.
Que eu seja o próprio ar
que integra a pulsação do universo.,
subtilezas da luz, secreta aragem.

Agripina Costa Marques. Diário intermitente. Lisboa: Ed. de Autora, 1996, p.19.
Agarrada a desafios sem freio,
a minha voz arredondou o canto
e removeu devagar o espelho
que reflectia as aves abatidas
na cesura alarmada do olhar.
Na marginalidade do sossego
reacendo o lume para que haja
colunas de fumo a seduzir o vento.
E soletro a oração que transporta
de treva em treva uma esquiva chama.

Graça Pires. Uma claridade que cega. São Paulo: Intermeios, 2015, p.12.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Do livro Auto da Romaria, que, este ano, sairá pela Editora Mondrongo: http://www.mondrongo.com.br/index.php


CANÇÃO DAS MARGENS
Do romeiro Batista


Meu amor por essas margens?
Nem sei onde se alicerça,
mas se eu digo involuntário
a palavra não é esta.
Se eu digo vertigem, fado,
o não dito me atropela.

Vem de longe, vem do alto?
Por si próprio ou chamamento?
Esse amor tem nome claro
no invisível continente;
se algum barco for buscá-lo,
achará todos os ventos.

Continente constelado
de ilhas, naufrágios, idílios,
corsários de uma linhagem
mais velha que os velhos ritos,
cercados do mar alado
– o real é seu exílio.

Rabiscam na praia viva
mensagens lidas nas águas,
ondas sem idade brincam,
levam o que não se apaga,
e desimporta em que língua,
todas as línguas são válidas.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Poemas d'A dimensão necessária traduzidos para o inglês por Tiffany Higgins. Aqui: http://ghosttownlitmag.com/joaofilho 

 TRANSLATED BY TIFFANY HIGGINS


SALVADOR, 1996-2013

Dos acidentes que a modelam
em luz e sal, essas escarpas
são os desenhos que mais pesam,
a vida em queda dos sem mapa.

Ali do alto, que é abrupto,
a cidade é curva contínua,
sinuosidade negativa,
abre-se em praias e ravinas.

Disseram gorda em seu amplexo,
digo salitre, vento Atlântico:
salga e apodrece em paradoxo.
Aqui se canta um velho cântico:

lá no São Bento, anjos mulatos;
em toda cúpula e pilastra
pesam arcanos e Evangelhos,
da vida menos a mais vasta.

No Santo Antônio Além do Carmo
o casario nada ensina;
sim, a não ser o som amargo
do que ruindo contamina.

Tudo externado? Não o âmago,
por isso engana quem a vê
cidade-entrega, as cores gritam
em cada esquina o seu não ter.

A precisão só vem de cima—
luz em ladeiras, luz marinha,
a luz em flor, a que combina
a dor do nu, o mel da vinha. 


SALVADOR, 1996-2013

Of the accidents that sculpt her
in salt and light, these escarpments
are the designs with most heft,
the life that lies in wait for those without a map.

Up there on high, steep,
the city’s continuous curve,
a negative sinuosity,
opens in ravines and shores.

They called her amplitude portly,
I say saltpeter, wind off the Atlantic.
Paradox, it both preserves and rots.
Here is sung the old sea shanty.

In the church of Saint Benedict, mulatto angels,
in each cupola and pilaster
incline archangels and gospels
of a life less or more vast.

In the parish of Saint Anthony Beyond the Carmo
the colonial row houses teach nothing—
well yes, not-being, the bitter sound
of what, collapsing, corrupts.

All’s external? Not the core. Whoever
thinks they see the city, pleasantly delivered,
is deceived. On each corner colors scream
what you won’t have.

Precision descends only from above—
light on the alley slopes, maritime light,
light in flower that combines
the pain of the nude, the honey of the vine. 



CAPELA DO HOSPITAL SANTO ANTÔNIO
         Para Claudio Sousa Pereira

Saiu do século ao entrar
na dimensão do amor mais limpo:
servir. Daquela claridade
que a devoção impõe aos puros.

A vida inteira num só gesto:
servir. Acorde se estendendo
(quem O desfere?) além dos círculos
de nossas noites ordinárias.

E que instrumento te moldaste!,
em que o rumor, reino tão frágil,
de nota em nota condensou-se
em menos fel e mais altura.

Disso se trata: dar ao fardo
secreto e anônimo de muitos
a proporção de outra promessa.
Quando pedir é maravilha,

de porta em porta a mão que planta.
Força de flor—perfuma e sana,
conforme a água do seu vaso,
às vezes barro, às vezes sombra,

espera sempre. Vê: precário
artesanato ao contorná-la.
Aqui estão teus ossos, dulcíssima.
É quando o pó alumbra em dom. 


CHAPEL OF ST. ANTHONY’S HOSPITAL
for Sister Dulce Pontes, the Good Angel of Bahia

You emerged from the century to enter
the dimension of love that is most clean:
to serve. From the clarity
that devotion imposes upon the pure.

The whole of life in a sole gesture:
to serve. You wake up extending yourself
(who sets you going?) beyond the circles
of our ordinary nights.

And what an instrument you molded!
in which discord, precarious king,
note by note condensed
into less gall and more lift.

The matter’s this: to grant the secret
and anonymous burden of many
the proportion of another promise.
When to implore alms is a marvel,

door to door the hand that plants.
Force of flower, it perfumes and cures
conforms to the water of its vase—
at times clay, at times shade—

It always awaits. See how precarious
is the handicraft that lends it contour.
Here are your bones, o sweetest.
When this dust illumines into gift.

Translator’s Note on “Chapel of St. Anthony’s Hospital.” With few resources, and by asking for funds, Sister (Irmã) Dulce Pontes almost single-handedly organized the construction of the hospital, which now daily serves thousands free of charge in Salvador, Bahia. She devoted her life tohelping the poor (1914-1992, beatified 1991).


FROM A FONTE VERTICAL

Rezei, saí. Vou de ônibus. Ponto lotado. Já foi
pior, pensei. Que faço ou que farei me queima.

Conheço aquela mulher, vai cansada: —Ei, olá! Digo: —Oi.
Fico em pé, espremido, mas a voz, sim, teima,

a voz, sem trela (não, não deveria sair do São Bento),
não vai me abandonar, querela que não cessa.

No avança-para do ônibus, luto (abafado e sem vento)
e apanho dos mistérios (câimbra) da promessa,

do já sabido inegável, refeito a suspiro e exaustão,
das vertigens do corpo e os tumultos cardíacos,

esse intervalo tão frágil que exploro sem (troco de mão)
recursos, aferrado no meu tom maníaco.

Depois da curva, o oceano desfralda-se, quero e deliro
nesse rompante em levantar o véu de tudo,

fracasso. Desço na orla, o mar chama-me. Não vou. Respiro
a transparência absoluta e quedo mudo. 



FROM THE VERTICAL SOURCE

I prayed, went out. The bus stop, packed. It was worse before,
I thought. What I’m doing or what I will do is burning me.

I know that woman who says, fatigued: "Hey there!" I reply "Hi."
I stay standing, squeezed in, but the voice, yes, insists

without letup (no, I’m not getting off at Saint Benedict)
it’s not going to let me go, the quarrel without cease.

In the bus’s stop-and-go, stuffed in, craving a breeze, I struggle
and I’m catching mysteries (cramp!) of the promise—

the already known, undeniable, refashioned as sighs
and dizziness, cardiac tumults

this fragile interval I explore (now changing hands)
without stratagems, my persistent tone of the maniac.

After the curve, the ocean unfurls, I desire the delirium
of this outburst that lifts the veil from everything,

I go down to the shore, the sea calling me. I don’t go. Staying
quiet, I breathe the absolute transparency.

  
NITIDEZ SUBMERSA

Nos sapatos confortáveis
um pouco velhos e gastos
a fuligem das cidades
redesenha o seu mapa.

Não me venham com saudades,
sombras, vultos e fantasmas,
o peso e a profundidade
das coisas não nos sufocam.

Dos caminhos caminhados
—avenidas, becos, praças—
multidões tumultuosas
na fuligem dos sapatos.

Pó do mundo respirado
em seu tédio corrosivo,
não escapam os voos altos
das naves mais arrojadas.

Na verdade, nada escapa.
É preciso a cada istmo
contra essa névoa cegante
renovar o gesto limpo,

porém não lave os sapatos,
não porque registre tantos
itinerários, andanças,
mil labirintos urbanos, a

fuligem aí pousada,
cartografia amorosa,
indica veios, filões
dessa nitidez submersa.

Alargue as tuas pupilas:
paciência ao inspecionar
cada trecho dessas nódoas;
nos interstícios, estrias,

nas grafias do diáfano,
se entrevê pela fuligem
a clara sustentação
dos fios frágeis do mundo.
  

SUBMERGED CLARITY

On your comfortable shoes,
a bit old and broken in,
the soot of cities
redesigns its map.

The shoes don’t come to me with nostalgia,
shadows, figures, phantasms.
No, the weight and profundity
of things won’t suffocate us.

From well-trodden paths
—avenues, alleys, plazas—
crowds’ tumults
in shoes’ soot.

Dust of the breathed-in world,
its corrosive tedium.
Yet they can’t escape the higher flights
of more daring ships.

In truth, nothing escapes.
Each isthmus is needed
against this blinding mist
to renew the clean gesture,

So don’t wash those shoes,
not because they register
so many itineraries, wanderings,
a thousand urban labyrinths, this

soot already a dwelling,
amorous cartography,
indicates lines, veins
of this submerged clarity.

Widen your pupils:
have patience to inspect
each segment of these stains,
stretch marks in the interstices,

handwriting of the diaphanous:
delivered through soot,
the clear sustenance
of the world’s fragile threads.


Tiffany Higgins is the author of The Apparition at Fort Bragg (2016), an e-chapbook, winner of the Iron Horse Literary Review e-single contest for a long poem, selected by Camille Dungy. Her book And Aeneas Stares into Her Helmet (Carolina Wren Press, 2009) was selected by Evie Shockley as winner of the Carolina Wren Poetry Prize. Her poems appear in Poetry, Massachusetts Review, and other journals. Her translations of Rio poet Alice Sant’Anna’s poetry, Tail of the Whale, are available as a chapbook from Toad Press (2016).