terça-feira, 4 de abril de 2017


A SOLIDÃO DO SANTO EM SUA SEDE:
ou A PERSISTÊNCIA VIVA DA MEMÓRIA
EM AUTO DA ROMÁRIA DE JOÃO FILHO


Whoever lights a light,
is the first to benefit from the clarity.
G.K. CHESTERTON

às professoras Ana Carolina Campagnolo e Marla Silva
porque, às vezes, podemos escolher a nossa cruz.

Após ganhar um dos mais importantes prêmios literários do país, o poeta João Filho poderia fazer como mais da metade dos escritores – ou aspirantes a tal – que conheço, passaria a viver de um marketing pessoal defasado, despreocupado com o próprio aprimoramento de sua escrita, legando ao público leitor não mais do que dois livros anuais carregados de lugares-comuns, versos desleixados e uma profusão de imagens toscas e sem nenhum sentido ou nexo com coisa alguma, apenas para ostentar eternamente a alcunha de “poeta premiado”.

No entanto, como grande poeta que é, João Filho não se deixou levar pela vaidade retumbante dos tolos, e, como nas antigas tragédias gregas que até hoje nos ensinam a viver, dedicou-se a um crescimento moral e intelectivo ainda maior, típico dos grandes heróis, ou dos poetas que nos deram esses grandes heróis. O resultado não poderia ser menos do que seu mais novo livro Auto da Romaria, que, ao lado de O Corpo Nulo, de Lorena Miranda Cutlak, e Natal de Herodes, de Wladimir Saldanha – todos lançados pela Editora Mondrongo –, compõem não menos que um verdadeiro milagre literário brasileiro, numa época em que boa parte de nossa literatura se afasta cada vez mais do que é realmente essencial.

Não se deve esperar menos de um livro de poemas, do que transmitir, aos seus leitores (através dos mecanismos mais diversos de que a poesia dispõe), o maior número possível de grandes ideias e temas, que devem ser recebidos pelas mais elevadas faculdades do espírito de quem os leem – ao mesmo tempo em que elevam tais faculdades. E se um poeta assim procede, então temos aí um grande poeta, fazendo uma grande poesia, pois um grande poeta é, segundo John Ruskin, aquele que mais corporificará, no conjunto de sua obra, o maior número de grandes ideias e temas. E ao escolher aquele que é o maior tema poético de todos os tempos, o próprio mito fundador do Ocidente, adequando-o à tradição popular de sua terra, e à memória de seus tempos de menino – só para dizer o básico –, João Filho, em seu Auto da Romaria, não pretende menos que ser um poeta maior a escrever uma obra que não se quer menos que grandiosa.  E, para isso, vale-se não só de um tema grandioso, mas esbanja um domínio técnico que não só o separa da maioria de nossos contemporâneos, bem como o aproxima de uma tradição que, em nossas Letras, remonta desde Gregório de Matos a Suassuna, mas que encontra sua voz maior em Alphonsus de Guimaraens, Jorge de Lima e Bruno Tolentino, com uma força que aumenta à medida que é desprezada por nossos mestres e críticos, e se renova quanto mais atacada e renegada ao canto dos esquecidos.

Um livro como Auto da Romaria não traz em seu tema e em sua forma não menos que um compromisso com a verdade, com aquela verdade que está comedida em toda religião, e vocifera em toda poesia que se preze: a de que não somos cães, nem devemos entrar de cabeça baixa nos cemitérios, como afirmara Petre Ţuţea. Na religião, evitamos o “desespero metafísico” das covas, e numa obra como Auto da Romaria, essa verdade nos é jogada à cara, verso a verso, pois como o próprio poeta afirma em um dos sonetos da série Nosso Senhor dos Passos: “certas coisas só podem ser vividas”, porque “a solidão do santo em sua sede”, como nos diz João Filho, não é muito diferente da “alma sedenta de si mesma”, como dissera Jorge de Lima, que todo poeta traz consigo. A travessia metafísica pela qual passa os santos não se faz maior ou menor do que os romeiros ou o próprio poeta – e vive versa –, muito pelo contrário, ambas são maneiras muito próximas de elevação pessoal e registro memorial, embora, na prática, se façam por meios, muitas vezes, diferentes.

De todos os elementos que moldam o grande arcabouço técnico deste livro, não há um em que João se apoie mais do que a memória, mas como ele mesmo deixa bem claro no prefácio de seu livro, não é apenas a sua própria memória, embora esse tom tão pessoal dê a este livro uma força vital e realista única, porque nenhuma grande arte pode fugir ou surrupiar a realidade, mas uma memória histórica que o próprio Cristianismo insere em todos nós. Por isso mesmo, toda procissão é memória; é a lembrança do sofrimento do Cristo, por exemplo, que é também o nosso sofrimento, pois todo sacrifício é troca, e o Cristo pregado à cruz, seu rosto, seu corpo, sua dimensão, não é senão a transfiguração de nosso próprio rosto, nosso próprio corpo, nossa própria dimensão ali pregados. Relembramos nos passos de Jesus os nossos próprios passos, na dor do Messias a nossa própria dor, e na Glória do Salvador a renovação de uma promessa que sempre se faz nova, porque ela nos dá algo com o qual é impossível vivermos: um sentido. Deus se faz maior quando desce à nossa condição e o livro de João deixa bem claro o quanto que a presença de Deus está em toda parte, não só naquilo que necessariamente se apresenta de natureza religiosa, como as igrejas, as imagens, ou os ex-votos, mas nas pedras, no vento, no calor do sertão da Bahia, nas águas do rio São Francisco; na dor, nas promessas, na fé (pouca ou inabalável); tudo é Deus falando, é Deus presente, é Deus conosco; é memória e é o agora.  

Diferentemente do Severino de João Cabral, que se perde e se anula ao buscar um caminho só seu, uma individualidade, achando-se somente quando se reconhece como mais um, num sofrimento coletivo, os romeiros e demais personagens de Auto da Romaria são diferentes, pois transformam uma dor comum numa busca pessoal, porque a dor de muitos foi suportada por um só, e, como queria Cruz e Souza: na dor, transcendentalizamo-nos. E é aqui, exatamente nesta troca e neste caminho, que reconhecemos uma miséria metafísica denunciada por Voegelin, mas não compreendida por Kant, confundida por Nietzsche e usada por Hegel, Comte, Marx e seus sequazes. Porém, todo o sentido, o mistério e a glória do Cristianismo se resumem aqui, nessa troca, nesse sacrifício, nessa tomada de lugar que cada um deve fazer, nessa cruz que deve ser retomada, devolvida aos ombros merecidos, e assim se completa, como João Filho escreve em Vozes anônimas em romaria, “vão muitas outras dores juntas” e reafirma: “Aquele Um, a fonte e a foz”, onde este “Um” estiver “ali está o Centro”, o sentido de tudo. E há mais sentido na crença do que na descrença, há tanta razão no homem ao conceber algo para fora dela, que pensar ao contrário é que seria uma grande burrice. Por isso mesmo, a força que a memória exerce neste livro, ou na procissão, é a mesma força daquela vida que se renova a cada dia, não por ela mesma, como no poema do Cabral, mas através daquilo que lhe dá não só um sentido, mas que é o próprio sentido em si e que, em Morte e Vida Severina, graças, àquela época, a certa inclinação ideológica de seu autor, Severino, convenientemente, se afasta, não sendo mais que um observador passivo e estúrdio.  Somos mais do que nós mesmos, e temos uma parte de nós para além desta matéria, e desta parte precisamos tanto; e se velamos, é porque há quem vele por nós.

Vejam, por exemplo, como tudo que eu quero dizer aqui se resume ao lermos um poema que não poderia ter melhor título, Romeiros:       

Vão os que sabem das chagas,
vão os que sabem das dores,
e da alegria que escava
a pedra dos pecadores.
Esses nascidos na estrada,
amargando o sol de todos,
mas sabem do que não salva
e do que salva os horrores.

Vão os que sofrem as léguas
das vigílias das distâncias,
a insônia daquela espera
mais aguda em sua andança,
deserto da noite extra
quando o fel no fel decanta,
o sol, a fera das feras,
faz o que quer no que planta.

O sol de dentro pra fora
martelando mundo e povo,
expõe em sua bigorna
o metal d’alma e seus dolos
– qual parte não apavora?
– qual brilho quer ser de novo?
Vão os que sabem das covas,
os romeiros sem retorno.

Lonjura de onde procedem,
o tempo esconde no mapa,
mas são os mortos que regem
os vivos em sua lavra,
uma romaria segue,
horizontes rumo à Lapa,
outra já não mais terrestre
além se eleva calada.

Os mortos seguem na frente,
os vivos vertem as horas.
Mortos? Mentir, não mentem,
os vivos queimam agoras,
os mortos são dissidentes
do tempo já sem manobra,
os vivos num movimento,
nele o cansaço vigora.

Vão os náufragos do pó,
os das ruínas dos céu,
sabem infernos de cor,
sofrem a vida a granel,
cobre-os a pele pior,
e todos eles são réus,
não do século sem dó,
mas do Velado sem véus.

Os estilhaços da fé,
as cisternas sem fundura,
os deuses de um deus qualquer,
a carne feita só fúria,
e sem sentido esmoler,
pois nada disso descuram
 – o real é seu mister –
os passos dessa procura.

Vão estes inumeráveis –
desejos, misérias tantas,
até na quietude ardem,
sabem que o vivido sangra;
sua primeira paragem?
Na Gruta, onde a luz descansa,
seguirão os indomáveis
seu fadário, estrela e canga.

ao mesmo tempo, a razão para tudo isso existir, encontra-se, por exemplo, naquilo que é relembrado nos poemas de Nosso Senhor dos Passos, porquanto, no Cristianismo, a memória nos empurra para o futuro... Vejamos o soneto X:

 “– A refletir o que da argila é sopro”
– diz a Voz. Quem a escuta sem favor?
“– Pois há maior nudez que a do corpo,
e o corpo é da alma um pobre andor,

quer a cada vez um capricho novo,
mas Quem daria um corpo sem amor?
A via é um sudário, lá – o topo,
o fim dos sacrifícios sem valor.

Na túnica inconsútil lançam dados?
As outras vestes rasgam sem pudor?
Quem verdadeiramente desnudado?

A Esperança sangrando se renova...”
– cala-se a Voz. Aguarda a luz transpor
e a morte ser somente a contraprova.

Embora o título deste livro faça alusão direta à linguagem teatral, não consigo concebê-lo para além da musicalidade que lhe é inerente. O Auto da Romaria tem um tom que tanto acentua a sua voz poética quanto a busca de um ritmo que lhe afirme as diversas referências de que faz uso: salmos, cânticos, ladainhas, óperas, cantatas; muita coisa neste livro é demasiadamente concebida como música; não havia de ser diferente, pois já dizia um velho poeta português – falando pela boca de um neoclassicista que ele mesmo inventara – que a poesia é a música que se faz com palavras. No entanto, não descarto, deste Auto da Romaria, a força da oralidade popular que pulsa tão forte quanto à precisão e à cadência rítmica que João Filho dá a seu texto, características muito próprias dos poemas populares daqui do Nordeste, e que é uma herança tão ibérica quanto às diversas manifestações religiosas que servem de inspiração para este livro. Não esperem, porém, que João tome de empréstimo uma entonação cabralina para estes poemas (o que não consistiria em um problema, é claro), embora, em certos momentos, ele até o faça, mas seria uma maneira de ver preguiçosa e reduzida, em meu ver. Por isso mesmo, há uma diversidade tão grande de formas e métricas, sustentando, como disse a pouco, um ritmo muito dinâmico e aprumado, que as redondilhas maiores e menores, de alguns poemas, ou os sonetos e terza-rimas de outros, não são mais do que adequações às ideias preteridas pelo autor – e não mecanismos de criação –, e que trabalham diretamente para a música contida nos versos de Auto da Romaria.

         Quem não conhece a cidade de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, que não por acaso recebe o epíteto de “capital baiana da fé”, não deixa de, para ela, ser transportado. Não tenho nenhuma dúvida de que essa seja uma das principais intenções do autor. A própria história da cidade de Bom Jesus da Lapa se confunde com a história de fé que ela tanto transborda, mas não fica só na história, onde desde o século XVII, com a descoberta da gruta às margens do Rio São Francisco e com as peregrinações iniciadas desde a época de Francisco de Mendonça Mar, Bom Jesus da Lapa tem uma geografia que muito se assemelha, para quem quiser ver e sentir, à Galileia de Cristo: não lhe faltam calor (e que calor), uma aridez quase desértica, plantas semimortas que se arrastam pela aridez da caatinga, um rio, uma gruta; tudo favorável à imitação daquele ambiente onde a maior história já contada pela humanidade aconteceu. João Filho não perde isso, pelo contrário, ele supervaloriza esse ambiente reforçando palavras como “pedra”, “vento”, “gruta”, “rio”, “seca”, “estrada”, “sol”, “claridade”, que se juntam a “andança”, “ardor”, “espera”, “chaga”, “dor”, “milagre”. A poesia se apresenta aqui como um meio de transporte, para que cheguemos mais rápidos através tanto da história quanto da imaginação, porque em todo momento nesse livro há um meio de transporte, lento, arrastado, mas significativo à longa jornada em busca de nós mesmos e de nossa salvação: paus-de-arara, barcos, veleiros, carroças, mulas, e, é claro, nossos próprios pés, que se arrastam, mas persistem, porque sabem de sua recompensa. A história é um meio de transporte, o mundo é um transporte, a imaginação é nossa maior nave... Neste livro tudo segue um curso muito delimitado e preciso: o rio o segue, as brenhas abertas entre os morros o seguem, as procissões os seguem, a fé segue-o inabalável, os leitores desse livro segui-lo-ão independentemente de sua crença, até porque a poesia é também transporte, e, ao fim da jornada, apenas os que souberam realmente o que buscar encontrarão: seja um verso, uma resposta, uma nova dúvida, não é à toa que o poeta, mais adiante nos fala: “Se ao fim de tudo não restar mais nada...”, e às vezes no meio dos caminhos costumamos deixar tudo, o poeta completa: “relembra que a lembrança é também dádiva”, pois mesmo o que nos é negado é também consenso.

         Grandes poetas têm essa capacidade que é evidente em João Filho, a de nos arrebatar para outro estado tanto de consciência quanto de êxtase. Com sua poesia não poderia ser diferente, pois, para mim, sua obra sintetiza a força e a segurança da tradição com a versatilidade e a engenhosidade empolgante das produções mais atuais e atuantes, prestando-se tanto à reflexão temática, bem como à multiplicidade técnica, e, por isso mesmo, se faz digna tanto dos grandes e antigos quanto dos novos mestres. Daí eu ter a certeza de que uma poesia assim só pode ser uma poesia conservadora, mas – permitam-me um imediato esclarecimento – não àquele conservadorismo preso à mimese paupérrima ou à total minimização de ideias e temas outrora grandiosamente trabalhados. A poesia de João Filho – e, como já disse, os poemas de Lorena Miranda Cutlack e Wladimir Saldanha, só para ficar na mais nova lavra – é um dos exemplos mais novos e mais perfeitos de valorização daquela que é a peça mais importante de toda poesia: a palavra.

Entretanto, antes que alguém aqui considere minha declaração uma “pérola” da obviedade, é sempre bom lembrar que, nos últimos quarenta anos da história de nossa poesia, a desvalorização de seu elemento principal foi algo sumariamente propagandeado e seguido com o mais feroz afinco, da mesma maneira que, mesmo criticando os antigos poetas, os quais viam nas artes plásticas um modelo de elaboração a ser seguido pelos donatários da literatura, cobriram-se da mesma desculpa da maioria dos supostos pintores abstratos ao se utilizarem do falacioso argumento da não necessidade da figuração para esconder sua total falta de habilidade, técnica e talento.

A palavra, na poesia de João Filho, entretanto, volta a ganhar aquela profundidade de significados que, desde Cabral e Drummond, e com a exceção de Bruno Tolentino  e Alberto da Cunha Melo, não se ouvia ecoar a algum tempo na maioria de nossos poetas que, com a desculpa de um sintetismo necessário ao mundo veloz e desafiador em que vivemos, precisava falar rapidamente ao tempo que imprimia em seu leitor uma gana de impressões indeléveis em sua mente tão ocupada, todavia, o resultado que se via era um emaranhado de vocábulos dispersos em versos soltos e descompassados que mais confundiam e enojavam do que ensinavam ou traziam alguma impressão no mínimo agradável. Mas João dá vazão a essa ideia e a faz funcionar, não porque é um “moderninho” melhor intencionado e sim porque é um técnico, ao mesmo tempo que se mostra um sensível observador do mundo e das inúmeras oposições às quais esse mundo se presta e, à sua maneira, evidentemente, um conservador. Conservadorismo que amalgama uma série de elementos primordiais que, trazida do passado, tem o papel de alicerçar novas e diversas maneiras de se compreender o mundo a se abrir novíssimo e gigante a cada época, a cada novo dia para qualquer poeta. É aquele conservadorismo que estava tanto em Pessoa quanto em Bandeira, em T.S. Eliot e Carlos Drummond, Auden e João Cabral de Melo Neto, nos sonetos Vinicius e nos versos de Bruno Tolentino e Alberto da Cunha Melo e também se encontra na mais nova e melhor safra de poetas dos últimos anos: Patrice de Moraes, Emmanuel Santiago, Nívia Maria Vasconcellos, Fabricia Miranda, Wladimir Saldanha, Érico Nogueira, Bernardo Souto, Marco Catalão, entre outros... e, claro João Filho. Não e à toa que, ao final de seu Auto da Romaria, o poeta nos conduza a este “eterno retorno” que os grandes temas e a tradição sempre promoverão e estarão dispostos a também nos arrebatar. E que começa assim:

A história foi contada,
mais alma do que chão.
– Termina aqui a estrada?
– Que borda esta manhã?

No horizonte da falta,
a luz que nela é órfã,
única e necessária
é a coisa que a exorta:

o caminho da volta;
regresso, mas sem fuga.
– A cada um seu Gólgota?
– Alma cansada de espumas.

Há uma casa que aguarda.
– Amar sem merecê-la?
– A história foi contada,
basta que reconheças.

E assim termina... ou recomeça:


Nasci antigo.
Bom Jesus da Lapa
                       nasceu comigo
Podia ser pior
                          e não ter nem chegado.
Todo caminho é um mistério.
                  Em que caderno amarelado
                          se perdeu o meu batistério?
                                 Amor de muito,
                                 afável conflito –
      catar palitos para brinquedos
                       no velho mercado,
                       a marmita na bicicleta,
                       a surra da matemática,
                       na imperícia das quedas
meu coração descura
          sua loucura atávica.

Mas Bom Jesus da Lapa
                              só me chamou
                      aos três anos de idade.
Assombro que não cessa,
                       primeiro voo  
ou alma que não sabe onde pousou?
Na porta da rua, na tarde imprecisa,
minha irmã valida
                    (presença sem resposta):
alguém passa, seu gesto se realiza
               na luz imposta –
               assombro que atravessa a minha vida,
               e me transporta. 



Salvador/Candeias, Semana Santa de 2017.


segunda-feira, 6 de março de 2017

Do livro inédito Auto da Romaria:

O ex-violinista


As lições desafinadas,
semifusas da memória,
o menino é a nota máxima
na constante palmatória.

Me perdi nas quatro cordas,
tão difíceis semitons,
se o teu dom além transborda,
eu, no entanto, não fui bom;
  
e rompi cravelha e arco,
e rompi estojo e breu,
o que continua intacto
é o som do que se perdeu.

A madeira volta à árvore?
A queixeira inda machuca,
esse vibrato mais árduo
o coração executa.

A mão esquerda teimosa,
a mão direita agradece
uma nota que recorda,
outra que desaparece.

A alma permanece ali,
sustentando as duas tampas:
na de cima – me prendi,
na de baixo – a dor é tanta!

Nessas décadas comigo,
teu silêncio é fiel.
Se te obriguei, desobrigo,
perdoa, amigo, o labéu.

Nas quatro cordas rezei:
mi – a mais aguda, o hinário,
sol – a mais grave, chorei,
em e fui falsário.

As lições desaprendidas,
os dedos estão calados,
o ex-violinista convida
alguns cantos desusados.

Somente os anjos escutam
as músicas do menino – 
melodias que não mudam,
quando mudam os violinos.