quinta-feira, 20 de novembro de 2014
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
[Depois de cantar um canto
irresistível]
Depois de cantar um canto irresistível
aos nautas que há muito não trafegavam
por aqueles mares distantes;
depois de o canto ecoar nos rochedos
de sua ilhota e nos ouvidos das gaivotas
que, impassíveis, se estendiam ao sol,
o último daqueles animais sem destino
atravessou o Mediterrâneo, o Atlântico
e a Baía de Todos os Santos, para emergir
seu corpo perfeito no Porto da Barra,
sob os olhares luminosos dos turistas,
à procura de Odisseu.
Elói Alexandre Dias Martins.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
18. A força que há na luz, não sua ausência,
pode ser a origem mais secreta
do escuro em que afundamos de repente:
por excesso de luz, eis que estou cega,
por excesso de amor, eu não entendo
- o farfalhar macio, a crua seda -
aquilo que nos move, e que ultrapassa
o limite de tudo o que sabemos.
Por excesso de dor eu me humanizo,
eu me faço pequena e tão real,
nos tornamos serenos, silenciosos,
tão reais e inocentes e macios,
que essa luz que não vemos é demais.
Mesmo ser é um excesso em que caímos.
Marly de Oliveira. Obra poética reunida. São Paulo: Massao Ohno editor, 1989, p.105
pode ser a origem mais secreta
do escuro em que afundamos de repente:
por excesso de luz, eis que estou cega,
por excesso de amor, eu não entendo
- o farfalhar macio, a crua seda -
aquilo que nos move, e que ultrapassa
o limite de tudo o que sabemos.
Por excesso de dor eu me humanizo,
eu me faço pequena e tão real,
nos tornamos serenos, silenciosos,
tão reais e inocentes e macios,
que essa luz que não vemos é demais.
Mesmo ser é um excesso em que caímos.
Marly de Oliveira. Obra poética reunida. São Paulo: Massao Ohno editor, 1989, p.105
domingo, 19 de outubro de 2014
INFLUÊNCIA
DAS VOZES
Nunca
fiz um poema limpo
como
o avental de minha mãe:
sempre
os outros e o pó dos Outros
puseram
em mim sua presença.
Como
na infância, há sempre um vulto
emergido
de algum silêncio.
Para
ajudar-me a escrever,
vem
segurar na minha mão.
Mas
rasgo tudo, rasgo o que amo
e
vejo tudo realizado
nas
outras mãos, enquanto fico
desconfiado
de minha força.
Às
vezes mostro a meus amigos
estas
flores, peço-lhes água.
eles
sorriem, são meus amigos,
mas
também estão no deserto.
Já
não preciso ser autêntico:
sobre
uma só realidade
eis-me
na terra como os outros,
sou
os outros, e morro só.
Alberto da Cunha Melo. O cão de olhos amarelos e outros poemas inéditos. São Paulo: A Girafa, 2006, p.254
domingo, 12 de outubro de 2014
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
“Antes de qualquer coisa, há que distinguir entre a arte que
nos incita e excita, e a arte que nos eleva e silencia. E, depois, saber que
uma existe para fugir da outra.”
José Mateos http://josemateos.es/
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
A ETERNA PELEJA: CENAS
Quando Dante entrou na noite
e burilou meus dilemas
havia deuses em cena
treinando a arte do coice.
Andei pelos arredores
e vi nos muros cravadas
as vidas dos camaradas
com seus retratos e horrores.
E vi meus próprios horrores
em mil perfis e fracassos
ornados com farpas, trapos
lembrando Picasso, em cores
que a Existência traduz.
E um deus, como se um cão não fosse,
partiu ao meio com um coice
meu ser em forma de cruz.
A noite ficou mais noite
e então regressei a Dante
e disse-lhe: ó bardo, cante!
E o florentino cantou.
Cantou e seu alto canto
naquele inferno ecoou.
Meu ser partido, no entanto,
partido estava e ficou.
E assim, em tom solene,
pedi-lhe que me escutasse.
Olhou-me, com ar de pena,
mas permitiu que eu cantasse.
Cantei, cantei, cantei tanto
que a noite se dissipou.
E o deus, para meu espanto,
entrou em cena e falou:
"Aqui, tudo me pertence:
a noite, o dia, o abismo.
E quando escoiceio e cismo,
ninguém ou nada me vence.
E aviso: acabou-se o prazo
para que se vão embora.
Não reino aqui por acaso:
da Terra posto pra fora
embaixo de tapa e coice
fundei aqui meu reinado.
E sempre que a morte trouxe
a mim um homem versado
mandei-lhe embora sem mais.
Se move com as próprias pernas,
propala coisas modernas
e me atrapalha demais.
Por isso é que ordeno: fora!
Somente os comuns convêm.
São seres que a qualquer hora
se portam como Ninguém."
Falou o deus, regressamos.
E eu perguntei a Dante:
E agora, pra onde vamos?
E o bardo, naquele instante,
após hesitar, me diz:
"Melhor não voltar à Terra.
Prefiro errar infeliz
neste cenário pós-guerra
que o Limbo nos oferece."
E então seguimos, chorando,
sem rumo, balbuciando
os restos de alguma prece.
Roberval Pereyr. 110 Poemas. Salvador: Quarteto, 2013, pp.150-152
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