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sábado, 31 de dezembro de 2016

7. 



Dimensionar a vida por aquela estrela,
trilhando o céu primevo que nos antecede.

Discreta irredutível e desconhecê-la
não diminui seu reino altivo que nos mede.

O seu perfil sem mácula acompanha
as desistências, fugas e pilhagens,

ao descrever seu arco nas montanhas
e cintilar no instante das ramagens.

A luz ensanguentada que nos cobre,
escudo e gume da inocência, essa,

que bale entre ruínas e o seu dobre
dolorido assevera na noite a promessa,  

que brilha, lá no céu do tempo, e transverbera
no coração que leva essa ferida oculta.

Dimensionar a vida por aquela estrela e
no seu facho de luz lavar a alma insepulta.

A dimensão necessária, Mondrongo, 2014. 

   

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A Romaria de Bom Jesus da Lapa, interior da Bahia, minha cidade natal, acontece há exatamente 365 anos. O poema abaixo faz parte do livro inédito Auto da Romaria:

6 DE AGOSTO
Para Person Ramos de Araújo

Não repare no caudal
que transborda de outras épocas,
nas multidões que deslizam,
misturando tantas cepas,
que acompanham o andor
em romaria sem pressa.

Não ouça o coro de vozes:
rogo, súplicas, lamentos,
murmúrio só confessado
nesses corações adentro  
– luxúria, orgulho, inveja,
pecados envelhecendo.

Não repare os pés descalços,
penitências, sacrifícios,
o corpo vencido em lágrimas,
o sofrimento castiço,
a devoção sem palavras,
não repare em nada disso.

Mas guarde um quadro completo
do caudal sem calendário,
apesar do mês de agosto
ter o seu dia esperado.
Quem espera sempre alcança,
verá que não mente o adágio.

Mais do que os olhos levante
seu espírito bem alto,
acima desses rumores,
de tudo que for boato,
do que é matéria palpável,
mas está além do tato.

Movido por esse olhar,
acima do andor repare,
enquanto o caudal se escoa
pelas ruas da cidade
– se o tempo fica suspenso,
o espaço também se abre:

agora, tudo é silêncio,
conexão de contrários,
parte do céu se derrama,
da terra sobe uma parte,
pela coluna que ata
nesse momento os cenários.














sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Mujer música


Yo pretendí prenderla en sólo un gesto 
que fuese inmaterial, también tangible.  
Lo intenté con un libro —el sueño abierto 
y tenso, atento al sol de lo invisible. 

Busqué cosas menores, más modesto: 
una mañana urbana y luz posible.  
Todo fue inútil: mi deseo abierto 
y oscuro y siendo, en cambio, ella tangible, 

el cuerpo albo, desnudo, aquí, en la tarde... 
Ahora me concentro en no fijarla 
en pauta o pensamiento para darle 

el ritmo necesario del que calla.  
La música la envuelve sin alarde 
mientras ella camina por la sala.



Joâo Filho. En A Dimensão Necessária, Ed. Mondrongo, Ilhéus-Bahia, 2014. Versión de 
Enrique García-Máiquez http://egmaiquez.blogspot.com.br/ 


3 — Uma mulher toda música
  

Eu pretendi colhê-la num só gesto,
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.

Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível

o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe

o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala. 

2007

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A PALAVRA BRASIL 


A palavra Brasil é a mais difícil,
não há jeito de usá-la sem perder-se,
sua vivência sempre aquém da fala,
sua pronúncia verde nos corrompe.

Já sei como impedir o falso azul,
enraizado no som do seu vernáculo.
Como não suspeitar do movediço
de um nome que nomeia o seu desgaste?

A palavra Brasil nos deixa nus –   
história e continente de um vocábulo,
e para convocarmos o que amamos
no seu étimo falta a outra parte.  

sexta-feira, 5 de junho de 2015


                                   Água e sal


                                   digo que foi o vento:
                                   inundou meus olhos
                                   de sal

                                   (esse vento do mar
                                   você sabe...)

                                   mas é mentira:
                                   não são lágrimas
                                   de sal
                                   é a pungência do azul


             Carlos Machado. Tesoura cega. São Paulo: Dobra Literatura, 2015, p.67 

sábado, 29 de março de 2014