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segunda-feira, 6 de março de 2017

Do livro inédito Auto da Romaria:

O ex-violinista


As lições desafinadas,
semifusas da memória,
o menino é a nota máxima
na constante palmatória.

Me perdi nas quatro cordas,
tão difíceis semitons,
se o teu dom além transborda,
eu, no entanto, não fui bom;
  
e rompi cravelha e arco,
e rompi estojo e breu,
o que continua intacto
é o som do que se perdeu.

A madeira volta à árvore?
A queixeira inda machuca,
esse vibrato mais árduo
o coração executa.

A mão esquerda teimosa,
a mão direita agradece
uma nota que recorda,
outra que desaparece.

A alma permanece ali,
sustentando as duas tampas:
na de cima – me prendi,
na de baixo – a dor é tanta!

Nessas décadas comigo,
teu silêncio é fiel.
Se te obriguei, desobrigo,
perdoa, amigo, o labéu.

Nas quatro cordas rezei:
mi – a mais aguda, o hinário,
sol – a mais grave, chorei,
– em lá e ré fui falsário.

As lições desaprendidas,
os dedos estão calados,
o ex-violinista convida
alguns cantos desusados.

Somente os anjos escutam
as músicas do menino – 
melodias que não mudam,
quando mudam os violinos. 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Poema do livro inédito Auto da Romaria. 

A PEDRA QUE SOA


Depois do Cruzeiro,
a pedra que soa,
e soa o destino
de qualquer pessoa.

Quem bate, quem bate,
e quem vem bater?
O medo que dá
é não responder.

Mas crendo ou não crendo,
esperam um sim,
se a pedra se cala...
vislumbres do fim.

Subir para ouvir
(na árdua subida
perigos de quedas)
o sino da vida.

Quem escutará
– silêncio da sorte –
a pedra cifrar
sua própria morte?

E sobem e sobem
no tempo, no morro,
todas as idades
procuram socorro. 

E batem e batem
na rocha cansada,
já gasta de anos
foi humanizada.

Sibila de pedra
só diz sim ou não.
Soa dos dois lados
do meu coração.