quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A VOZ E A BÚSSOLA
A Jaci Bezerra

Falo de um ser longínquo
de que só me chegam partes
-- a chuva, a claridade, os ventos:
o mesmo que faz que as pedras
se reúnam em tabuleiros
e permaneçam no solo
sob um teto de andorinhas.
A ele procuro, às vezes,
abrindo caixas, gavetas
ou derramando o vazio
que escorre do bolso avesso:
nalgum papel anotado
aponta quais os desejos,
o que pretende por troca,
sendo moeda meu corpo.

A ele talvez eu chegue
pela soma
de quanto prendo nas órbitas,
do curso comum das águas:
devolvendo o ar ao ar,
o voo e o nado inclusos
às aves que me procuram
e aos peixes (quantos reclamam):
para chegar até ele,
diariamente exercito
a ponta final das retas:
o alto da minha vértebra
retém ao chão a galáxia
de meu giro já sem curvas.

Falo de um ser longínquo
em órbita sobre si mesmo
-- o que acende e apaga,
em seu curso, meu semblante.

Audálio Alves. Canto da matéria viva. Rio de Janeiro: Editora Cátedra, 1970, p.54-55

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.

Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece-me que estava assi ordenado.

Contentei-me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.

Mas minha estrela, que eu já 'agora entendo,
a Morte cega e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo.

Luís de Camões, Lírica completa II. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1980, p.159.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

IN MEMORIAM
Locvizza, 30 de setembro de 1916

Chamava-se
Moammed Sceab

Descendente
de emires de nômades
suicida
porque não tinha mais
Pátria

Amou a França
e mudou de nome

Foi Marcel
mas não era francês
e já não sabia
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Alcorão
saboreando um café

E não sabia
desatar
o canto
do seu abandono

Acompanhei-o
junto com a dona da pensão
onde vivíamos
em Paris
do número 5 da rue des Carmes
esquálido beco em declive

Descansa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre
em dia
de
decomposta feira

E talvez apenas eu
saiba ainda
que viveu

Giuseppe Ungaretti. A alegria. Trad. Geraldo Holanda Cavalcanti. Record: Rio de Janeiro, 2003, p.41

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

APRENDIZADO


Gritava a alma como grita o porco:
a grande noite não a socorria
e o último eco nascia morto.

Bebia a água e bebia o porto:
navios que atracavam na garganta
e algas recompondo hortos.

Havia a vida e havia o dorso
deitado no silêncio desse dia
e havia ainda o olhar absorto.

Ah!... Havia o corpo...
Havia o corpo, que aprendia
a manejar a vontade e enfim sorria.

Wladimir Saldanha. Culpe o vento. Rio de Janeiro: 7Letras, 2014, p.70



quinta-feira, 20 de novembro de 2014



Cerne claro, cousa
aberta;
na paz da tarde ateia, bran-
co,
o seu incêndio.

Ferreira Gullar. A luta corporal. Rio de Janeiro: José Olympio, 1994, p.53

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

[Depois de cantar um canto irresistível]

  
Depois de cantar um canto irresistível
aos nautas que há muito não trafegavam
por aqueles mares distantes;
depois de o canto ecoar nos rochedos
de sua ilhota e nos ouvidos das gaivotas
que, impassíveis, se estendiam ao sol,
o último daqueles animais sem destino
atravessou o Mediterrâneo, o Atlântico
e a Baía de Todos os Santos, para emergir
seu corpo perfeito no Porto da Barra,
sob os olhares luminosos dos turistas,
à procura de Odisseu.

Elói Alexandre Dias Martins. 


terça-feira, 4 de novembro de 2014

18. A força que há na luz, não sua ausência,
     pode ser a origem mais secreta
     do escuro em que afundamos de repente:
     por excesso de luz, eis que estou cega,
     por excesso de amor, eu não entendo
     - o farfalhar macio, a crua seda -
     aquilo que nos move, e que ultrapassa
     o limite de tudo o que sabemos.
     Por excesso de dor eu me humanizo,
     eu me faço pequena e tão real,
     nos tornamos serenos, silenciosos,
     tão reais e inocentes e macios,
     que essa luz que não vemos é demais.
     Mesmo ser é um excesso em que caímos.

Marly de Oliveira. Obra poética reunida. São Paulo: Massao Ohno editor, 1989, p.105