Dois poemas inéditos de Claudio Sousa Pereira. Da série Poemas gregos.
I. DE ISMENE A ANTÍGONA
Minh'alma não tem a plena justeza
de encarar a cruzada
de mergulhar na ferida
de lutar por justiça.
Minh'alma tem apenas a total certeza
de soluçar pela perda
de contemplar o fogo
do coração em tua lida.
III. CREONTE, EM SI
Vale mais cumprir os desígnios da ordem
ou ver o risco oculto revelar-se?
O que adianta agora cumprir a palavra
se o imponderável mostra a tua chama?
O que adianta agora o rigor do poder
se vejo sangue e ausência
pela desgraça duplicada?
A velhice em mim não ensinou
a prudência.
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
SUSTENTÁCULOS
Há
muitas belezas escondidas no mundo.
Sutis
como os desenhos de areia e espuma na praia,
modestas
– os reflexos da noite na avenida molhada.
O
clichê dos contrastes: bem-te-vi no semáforo.
A
monumentalidade efêmera
de
nuvem sobre nuvem,
no céu da Barra.
Qualquer
árvore.
Belezas
tristes –
um
velho atravessando um parque.
O
silêncio inquieto quando a multidão se dispersa.
A
solidão desses lugares.
Um
cheiro
abrindo
suas três infâncias
num
ato –
perfumes
de luz que só você sabe.
Há
muitas belezas escondidas no mundo:
elas,
os santos, alguns anjos
evitam
que o mundo desabe.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
- VI -
O CORCOVADO
Para Vavá Menezes
És uma lâmpada que adormece na noite úmida
De dia chamas por meu nome e não te escuto
Nave de luto, ombro de urso, por quem respondes?
Formas bizarras ondas mutáveis de tua sombra
Ora és floresta, cerradas matas que escondem luas
São cordilheiras verdes que avisto de minha rua
Ora um penhasco ergue-se agudo na crina espessa
Ou a clausura inatingível das abadessas
São paredões, mastros abruptos que ensinam ilhas
Ou formam asas de aves mouras, raras novilhas
Não te decifro se estás absorta entre a neblina
Ou te distingo clave soturna sobre a colina
És tantos signos de personagens que trocam nomes
Por vezes vestes uma corcunda de Notre Dame
Mas me pareces o altar de um atlas de olhos místicos
Enigmática, guardas a porta do novo Cristo.
Denise Emmer. Assombros & perdidos. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011, p.24
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
Solilóquio sem fim e rio revolto --
mas em voz alta, e sempre os lábios duros
ruminando as palavras, e escutando
o que é consciência, lógica ou absurdo.
A memória em vigília alcança o solto
perpassar de episódios, uns futuros
e outros passados, vagos, ondulando
num implacável estribilho surdo.
E tudo num refrão atormentado:
memória, raciocínio, descalabro...
Há também a janela da amplidão;
e depois da janela esse esperado
postigo, esse último portão que eu abro
para a fuga completa da razão.
Jorge de Lima. In_Livro de sonetos. Poemas negros. Rio de Janeiro: Record, 2007, p.163
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
terça-feira, 4 de agosto de 2015
A NOITE FRIA
A Malu Grabowski
I
Eu fiz de tudo um capitel de escombros.
Dediquei-me a arruaças repentinas,
amontoei no ar minhas ruínas,
joguei tudo no chão e dei de ombros.
Sacrifiquei assim crenças e assombros
à doce inconclusão das cavatinas:
via-os ruir e ao ritmo de seus tombos
ia compondo estrofes assassinas!
Não tem perdão meu perdulário ofício
de tordo de deserto -- que onde eu pouso
o cacto em flor da arte, este meu vício,
é tudo insolação; que um fabuloso
sol carnívoro e frio põe um gozo
mavioso onde eu ponho um precipício.
Bruno Tolentino. O mundo como Idéia. São Paulo: Globo, 2002, p.366
Assinar:
Postagens (Atom)
