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domingo, 16 de junho de 2013

Cecília Meireles

A última entrevista de Cecília Meireles

A escritora morreu alguns meses depois de ter concedido o depoimento ao jornalista Pedro Bloch, em maio de 1964
“Tenho um vício terrível” — me confessa Cecília Meireles, com ar de quem acumulou setenta pecados capitais. “Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença.” “Em pequena (eu era uma menina secreta, quieta, olhando muito as coisas, sonhando) tive tremenda emoção quando descobri as cores em estado de pureza, sentada num tapete persa. Caminhava por dentro das cores e inventava o meu mundo. Depois, ao olhar o chão, a madeira, analisava os veios e via florestas e lendas. Do mesmo jeito que via cores e florestas, depois olhei gente. Há quem pense que meu isolamento, meu modo de estar só (quem sabe se é porque descendo de gente da Ilha de São Miguel em que até se namora de uma ilha pra outra?), é distância quando, na realidade, é a minha maneira de me deslumbrar com as pessoas, analisar seus veios, suas florestas.”

Cecília é carioca. Nasceu em novembro, dia de S. Florêncio (filha de Matilde e Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil), em Haddock Lobo, na Rua São Luís. Seriam quatro irmãos, mas nunca chegaram a ser dois sequer, porque, mal nascia um, o outro já tinha morrido. Só ficou Cecília. Perdeu a mãe com três anos e meio, tendo sido criada pela avó, Jacinta Garcia Benevides, da Ilha de São Miguel, Açores, descendente de gente que andou do lado do Infante D. Henrique. A ela dedica Cecília:

Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído…
No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,
Modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.

Cecília Meireles: Minha primeira escola foi a Estácio de Sá, que depois passou a Escola Normal, onde me formei. Olhando para trás me sinto uma criança extremamente poética. Em casa de meu padrinho, Louzada, onde brincava, sempre silenciosa e observando-a, via estátuas, pinturas, coleções de pequeninos, objetos e leques em vitrinas, coisas que me levaram a fazer o “Inventário Lírico”.

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Cecília Meireles: Vovó era uma criatura extraordinária. Ex­tremamente religiosa, rezava todos os dias. E eu perguntava: “Por quem você está rezando?” “Por todas as pessoas que sofrem.” Era assim. Rezava mesmo pelos desconhecidos. A dignidade, a elevação espiritual de minha avó influíram muito na minha maneira de sentir os seres e a vida.

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

 Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
 
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles: Uma das coisas que mais me encantavam em minha vida de infância era o eco que vivia em casa de minha avó. Eu vivia procurando o meu eco. Mas tinha vergonha de perguntar. Recolhida, tímida, deslumbrada, me debruçava no mistério das palavras e do mundo. Queria saber, mas tinha imenso pudor de confessar minha ignorância.

Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.

Cecília Meireles: Terminada a Escola Normal, fui lecionar o primário, ainda com um jeito de menina, num sobrado da Avenida Rio Branco. Ali, na mesma sala, havia duas turmas e duas professoras, a metade voltada para cada lado. Pois as crianças, vendo-me quase tão menina quanto elas, viraram quase todas para mim. Sempre gostei muito de ensinar. Trabalhei na Escola Deodoro, ali junto ao relógio da Glória. Fui professora de Literatura da Universidade do Distrito Federal. Criei a primeira biblioteca infantil, ali onde era o Pavilhão Mourisco. Criança que não tivesse onde ficar podia encontrar o livro que lhe faltava, coleção de selos, moedas, jogos de mesa, sonhos, histórias e as explicações de professoras prontas e atentas. Acabou, depois de quatro anos, mas frutificou em São Paulo onde hoje existe até biblioteca infantil para cegos. Também ensinei História do Teatro na Fundação Brasileira. O resto da minha atividade didática está nas conferências em que sempre procuro transmitir algo.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

Cecília Meireles: Você sabe que eu tenho muito medo da literatura que é só literatura e que não tenta comunicar?

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Cecília Meireles: Vivo constantemente com fome de acertar. Sempre quase digo o que quero. Para transmitir, preciso saber. Não posso arrancar tudo de mim mesma sempre. Por isso leio, estudo. Cultura, para mim, é emoção sempre nova. Posso passar anos sem pisar num cinema, mas não posso deixar de ler, deixar de ouvir minha música (prefiro a medieval), deixar de estudar, hindi ou o hebraico, compreende?

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles: Casei com vinte anos. Tenho três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e Maria Fernanda. As três são bibliotecárias mas a minha biblioteca não está fechada. Maria Fernanda você conhece como atriz, não é mesmo? As três têm em comum uma bondade comovente mas são de temperamentos completamente diferentes. Tenho cinco netos. Viúva, casei em 1940 com Heitor Grilo, um homem admirável pela sua extraordinária fé no ser humano, em sua ânsia de tudo elevar. Basta dizer a você que, nesta primeira e única doença que tive e que me segurou cinco meses, ele não arredou pé, um momento de carinho, gesto e palavra prontos, apesar de suas inúmeras responsabilidades e ocupações. Conheci-o quando fui entrevistá-lo certa vez. Depois… nunca mais o entrevistei. Entendemo-nos até calados.

No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.

Cecília Meireles: Estudei canto e violino. Abandonei. Era preciso ganhar a vida e poesia se pode criar até numa viagem de bonde. Mesmo nas reuniões em que muita gente discutia eu era capaz de me ausentar em meu mundo e construir. Aos poucos pude criar a minha Ilha de Nanja, a São Miguel transfigurada pelo sonho. Acho linda a continuidade humana através da poesia. Só viajo com a Bíblia. A Bíblia é uma biblioteca. Tem tudo: história, poesia, religião. Já disse que, se tivesse que escolher o meu livro para uma ilha deserta, levaria a Bíblia. Ou um dicionário.

Minha esperança perdeu seu nome…
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

Cecília Meireles: Mas comigo aconteceu uma coisa deliciosa, deixe-lhe contar. Neste Natal eu estava doente em São Paulo. Pois bem. Ao voltar para esta minha casa (Cecília vive ao lado do bondinho que sobe pro Corcovado) encontrei cartões de gente de todos os cantos do mundo que se lembrou de mim. De todas as raças e religiões. Todos unidos pelo Natal. E o mais curioso é que eu olhava um cartão e outro e dizia comigo mesma: “Fulano talvez não combine com Beltrano, mas eu servi de elo entre os dois. A mim eles escreveram!” Me fez um bem enorme aquele meu Natal atrasado!

Na quermesse da miséria,
fiz tudo o que não devia:
se os outros se riam, ficava séria;
se ficavam sérios, me ria.

Cecília Meireles: Se eu inventei palavras? Não. Isto nunca me preocupou. No inventar há um certa dose de vaidade. “In­ventei. É meu”. O que me fascina é a palavra que descubro, uma palavra antiga abandonada e que já pertenceu a tanta gente que a viveu e sofreu! No “Romanceiro do Rio de Ja­neiro”, que estou preparando para o IV Centenário, procuro usar, em cada capítulo, a linguagem da época.

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

Cecília Meireles: Tenho amigos em toda parte. Mas sou feito o Drummond que é tão amigo quase sem a presença física. Esse meu jeito esquivo é porque eu acho que cada ser humano é sagrado, compreende? Eu sou uma criatura de longe. Não sei se me querem mas eu quero bem a tanta gente! Sou amiga até dos mortos. Amiga de muita gente que nem conheci. Você não imagina quanta gente eu levo ao meu lado. E fico emocionada quando penso como uma criatura só recebe tanto de tantos lados, de tantas pessoas, de tantas gerações!

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Cecília Meireles: Tenho pena de ver uma palavra que morre. Me dá logo vontade de pô-la viva de novo. “Solombra”, meu novo livro, é uma palavra que encontrei por acaso e que é o nome antigo de sombra. Era o título que eu buscava e a palavra viveu de novo.

Que procuras? Tudo. Que desejas? — Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

Cecília Meireles: Cada lugar aonde chego é uma surpresa e uma maneira diferente de ver os homens e coisas. Viajar para mim nunca foi turismo. Jamais tirei fotografia de país exótico. Viagem é alongamento de horizonte humano. Na Índia foi onde me senti mais dentro de meu mundo interior. As canções de Tagora, que tanta gente canta como folclore, tudo na Índia me dá uma sensação de levitar. Note que não visitei ali nem templos nem faquires. O impacto de Israel também foi muito forte. De um lado, aqueles homens construindo, com entusiasmo e vibração, um país em que brotam flores no deserto e cultura nas universidades. Por outro lado, aquela humanidade que vem à tona pelas escavações. Ver sair aqueles jarros, aqueles textos sagrados, o mundo dos profetas. Pisar onde pisou Isaías, andar onde andou Jeremias … Visitar Nazaré, os lugares santos! A Holanda me faz desconfiar de que devo ter parentes antigos flamengos. Em Amsterdã, passei quinze dias sem dormir. Me dava a impressão de que não estava num mundo de gente. Parecia que eu vivia dentro de gravuras. Quanto a Portugal, basta dizer que minha avó falava como Camões. Foi ela quem me chamou a atenção para a Índia, o Oriente: “Cata, cata, que é viagem da Índia”, dizia ela, em linguagem náutica, creio, quando tinha pressa de algo, chá-da-Índia, narrativas, passado, tudo me levava, ao mesmo tempo à Índia e a Portugal.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecília Meireles: A babá Pedrina me contava a história do Palácio de Louça Vermelha. Eu achava que devia ser muito fresco viver num palácio assim e, em menina, já estava pronta a transformar um jarro imenso que havia em casa em palácio, quando, querendo escondê-lo de meus sonhos, de tanto procurarem lugar para ocultá-lo, o partiram em mil pedaços.

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
— vê que nem te peço alegria.

Cecília Meireles: Viagens, folclore e idiomas são uma espécie de constante em minha vida. Comprei livros e discos de hebraico. Estudei hindi, sânscrito. O desejo de ler Goethe no original me obrigou a estudar alemão. Não estudo idiomas para falar, mas para melhor penetrar a alma dos povos.
Cecília conhece uma meia dúzia de línguas mais.

Cecília Meireles: Meus amigos, é curioso, ou vivem longe ou estão distantes. Minha casa já é contramão. Gosto de estudar o que me dá conhecimento melhor das pessoas, do mundo, da unidade. Por meio dos idiomas e do folclore, vejo até que ponto somos todos filhos de Deus. A passagem do mundo mágico para o mundo lógico me encanta.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles: Nunca esperei por momento algum na vida. Vou vivendo todos os momentos da melhor maneira que posso. Quero realizar coisas, não para ser a autora, mas para dar-me, para contribuir em benefício de alguém ou de alguma coisa. Quando adoeci e tinha que repousar uma hora depois do almoço, ficava calculando quanto poema deixava de escrever, quanta coisa linda deixava de ler e conhecer naquelas horas perdidas. Mas aprendi também a renunciar. Não tenho poema predileto. Ainda não o escrevi. A intenção é que é perfeita. Às vezes, um poema viaja comigo muito tempo sem ser escrito. Se não lhe dou muita importância, vai embora. Tenho muita pena dos poemas que não escrevo. E também muita dos que escrevo.

E minha alma, sem luz nem tenda,
passa errante, na noite má,
à procura de quem me entenda
e de quem me consolará…

Cecília Meireles: A juventude de hoje? Acho que são meninos que não têm tempo de crescer. Saltam do apartamento fechado para a calçada de mil solicitações, sem armadura, sem objetivo, sem a necessária religiosidade. A vida passa a ser uma coisa zoológica. Muitos crescem zoologicamente. Inventam modas, mas como não têm essência de verdade, as modas não pegam. As frustrações crescem. Felizmente muitos se realizam apesar de tudo. Cada geração acredita que traz uma nova voz e uma nova mensagem.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

Cecília Meireles: A arte abstrata? Nós, pouco a pouco, vamos caminhando para o subentendido, não é? A arte abstrata é uma alusão. Você constrói dentro de si. Muita gente faz coisas com nomes concretos que geram um mundo abstrato e vice-versa.

Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Cecília Meireles: Tenho, nos lugares mais diferentes, amigos à minha espera. Você já reparou que, entre centenas, em cada país, nós temos sempre aquela pessoa, que, sem mesmo saber, espera por nós e, quando nos encontra, é para sempre? Por isso é que eu gosto tanto de viajar, visitar terras que ainda não vi e conhecer aquele amigo desconhecido que nem sabe que eu existo, mas que é meu irmão antes de o ser.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Cecília Meireles: Educação, para mim; é botar, dentro do indivíduo, além do esqueleto de ossos que já possui, uma estrutura de sentimentos, um esqueleto emocional. O entendimento na base do amor.

Em prosa Cecília dá lições de grandeza. Vejam como descreve o barquinho Elenita: “parece uma nuvenzinha a correr por um espelho”. E o “Anjo da Noite”: “À noite o mundo é bonito, como se não houvesse desacordos, aflições, ameaças. Há muitos sonhos em cada casa. O gato volta apressado, com certo ar de culpa”. “Chuva com Lembranças”: “Começaram a cair uns pingos de chuva. Tão leves e raros que nem as borboletas ainda perceberam”. Outro: “Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa de jardim zoológico”.

Cecília Meireles: Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul onde costumava pousar um pombo branco. Nos dias límpidos o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e me sentia completamente feliz.

Mas houve épocas em que a janela abria para um canal em que oscilava um barco carregado de flores. Outras em que se abria para um terreiro, sobre uma cidade de giz, para um jardim que parecia morto. Outras vezes abre a janela e encontra um jasmineiro em flor, nuvens espessas ou crianças que vão para a escola, pardais que pulam pelo muro, gatos, borboletas, marimbondos, um galo que canta, um avião que passa. E Cecília se sente completamente feliz. E conclui: “Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim”.

Olho para Cecília encolhida em sua poltrona, iluminando a penumbra do canto da sala. Vejo-a tão menina olhando o solo e descobrindo na madeira floresta e lendas, deslumbrada de azul! Uma ilha cercada de pontes por todos os lados. Pontes para a ternura, pontes para a poesia, pontes para a alma de cada um. E olhando-a assim, poesia ela mesma, tão alta e tão pura, percebo porque continua a ser a garotinha à procura do eco, correndo por todos os cantos e por todos os deslumbramentos, sem poder recolher o eco da própria voz: nós somos o seu eco, cantamos o seu canto, sem que ela perceba; somos todos um pouco habitantes de sua Ilha de Nanja “onde as crianças brincam com pedrinhas, areia, formigas”. “Solombra”, a última obra de Cecília, quer dizer só sombra. Cecília, para nós. é só luz.

Entrevista publicada na revista “Manchete”, edição nº 630, em 16 de maio de 1964. E posteriormente no livro “Pedro Bloch Entrevista”, Bloch Editores, em 1989.

Catei aqui: http://www.revistabula.com/496-a-ultima-entrevista-de-cecilia-meireles/
 

sábado, 5 de janeiro de 2013


No http://www.adhominem.com.br/ por Lorena Miranda
 

Dando sequência ao Ad Hominem Entrevista, conversamos com alguns nomes representativos da mais recente poesia brasileira. Eles responderam às seguintes questões: 

Há atualmente duas atitudes extremas em relação à poesia brasileira contemporânea: uma, pessimista e saudosista, considera que a poesia no país perdeu-se à altura dos anos 1960 e desde então vem lutando, sem sucesso, para reencontrar-se; outra, normalmente entusiasta das novas poéticas urbano-pós-modernas, crê que a poesia, como as artes em geral, vai muito bem nesse Brasil do início do século XXI, afinal de contas os saraus universitários vão de vento em popa.

Qual sua percepção sobre o estado presente da poesia brasileira? Como você avalia sua obra dentro do cenário atual? Essa segunda pergunta pretende abranger tanto suas intenções quanto os resultados concretos que já alcançou com sua poesia. 

O objetivo era que o entrevistado respondesse a uma caricatura, cabendo-lhe desenhar um cenário mais realista para a poesia brasileira contemporânea. Felizmente a proposta deu certo e obtivemos excelentes pontos de vista que, cotejados, nos dão uma boa ideia do que se passa no âmbito de nossos fazedores de versos.

Com a palavra, os poetas: 

Emmanuel Santiago – São Lourenço-MG, 1984. Autor de Pavão Bizarro, ainda inédito. 

Com a internet e a proliferação de editoras de menor porte e revistas especializadas, a produção poética foi muito pulverizada. Por um lado, o fenômeno é positivo, pois torna muito mais fácil a divulgação do trabalho, principalmente para poetas estreantes; por outro, torna mais difícil para os bons poetas colocarem a cabeça para fora da boiada, destacando-se. Criou-se, no Brasil, uma situação paradoxal: há uma inflação na oferta de poesia ao mesmo tempo em que houve, de umas décadas para cá, uma retração da cultura literária entre o público, daquele background necessário para a fruição da literatura mais exigente, o que afeta, sobretudo, a recepção da poesia. Como consequência, há pouca ou nenhuma possibilidade de um novo poeta construir seu nome pelo reconhecimento do público, de um público mais amplo e heterogêneo, que atravessa diferentes grupos sociais, com formações culturais diversificadas. Ficamos então cada vez mais dependentes de pequenos grupos que, devido a sua posição no campo literário, são capazes de conceder algum prestígio. O problema é que tais grupos funcionam geralmente segundo a lógica da panelinha, em situação de constante concorrência institucional com os demais, o que significa que um poeta reconhecido em determinado círculo corre o risco de ser excluído dos círculos concorrentes. 

Tendo em vista tal lógica de funcionamento do campo literário atual, devo reconhecer que fiz algumas péssimas escolhas quando resolvi levar a sério a poesia. Em primeiro lugar, cortei uma possibilidade de identificação com um público maior, em meio ao qual vigora uma concepção da poesia como a expressão exclusiva de sentimentos e emoções, de conteúdos de natureza irredutivelmente pessoal — a ideia da poesia como confissão íntima do poeta. Abracei, logo de saída, um construtivismo eivado de reflexões metalinguísticas, de referências intertextuais e demonstrações de virtuosismo técnico, que contrariam a noção de que a poesia deva ser algo espontâneo e natural. Tais características, que integram o repertório das mencionadas “poéticas urbano-pós-modernas”, não são o suficiente, entretanto, para me facultar a entrada no círculo dos poetas antenados, da poesia up-to-date, devido ao meu flerte descarado (meio irônico, meio a sério) com as poéticas do final do século XIX, como o simbolismo e o malfadado parnasianismo, detestado por toda a galerinha que se filia à escola que vai desde nossos primeiros modernistas — sobretudo Oswald e Mário de Andrade —, passando pelo concretismo, até chegar aos tropicalistas e poetas marginais. Tenho uma compreensão artesanal do trabalho poético, que parece estar ultrapassada. Contudo, tampouco posso ser sumamente vinculado a uma poética tradicionalista, pois incorporo muitos procedimentos que tiveram sua origem com a experimentação poética levada a cabo pelos concretistas. Para piorar, minha poesia — que visa, muitas das vezes, o efeito de choque — assume alguns tons que podem desagradar sensibilidades mais suscetíveis, apelando constantemente para o erotismo, a pornografia, o sadismo, o satanismo, a blasfêmia etc. Pelo que pude notar também, o caráter fortemente virtuosístico de minha poesia tem um potencial de desagradar a gregos e troianos. 

Em suma, minha poesia se dirige contra um amplo arco de expectativas de recepção, o que tende a me deixar isolado, de fora das panelinhas, não por uma grande originalidade de minha parte, mas pelo grande número de dissonâncias que procurei deliberadamente incorporar ao meu trabalho. Acho que para tal situação contribuíram tanto um espírito de revolta juvenil quanto uma tendência pessoal ao individualismo, assim como o fato de minha formação cultural e intelectual ter se dado fora dos grandes centros nos quais as linhas dominantes da poesia contemporânea (e aquelas que a elas reagem) se consolidaram. Um misto de idiossincrasias e condições geográficas, portanto, é em grande parte responsável pelo não lugar que minha poesia ocupa frente ao panorama atual. 

*** 

Érico Nogueira – Bragança Paulista-SP, 1979. Autor de O Livro de Scardanelli (2008) e Dois (2010), ambos pela É Realizações. 

Desde logo, dizer que a poesia brasileira vai bem ou vai mal não implica, creio, subscrever as posições ou atitudes extremas, como você as descreve. Há uma pletora de razões possíveis que podem justificar um juízo positivo ou negativo a esse respeito. No que me toca a mim – e seguindo, nisto, o conselho de Pound, que propôs e realizou, em poesia, o que chamou de crítica por comparação –, acho que a poesia brasileira vai bem, obrigado, e isto simplesmente porque leio e vibro com certos poetas contemporâneos em quem noto enorme competência técnica aliada a sensibilidade, bom gosto e profundidade de pensamento e emoção: gente pra quem a poesia, em suma, como bem disse o Drummond, “é toda a minha vida que joguei”. Quem acha que exagero vá ler o Cláudio Neves e o Marco Catalão, por exemplo, compare-os com o Murilo ou o Bandeira dos dois ou três primeiros livros, e tire suas próprias conclusões. Nesse sentido – isto é, partindo da comparação mais ou menos objetiva de grandezas poéticas mensuráveis, tais como a perícia técnica, o escopo teórico e teor emocional de um poema –, não temo dizer que Yacala, de Alberto da Cunha Melo, é o maior poema-livro que já se escreveu por aqui, seguido de perto por A balada do cárcere, de Bruno Tolentino. De modo que, pra mim, o auge da poesia brasileira foi o final dos anos noventa, veja só.  

Quanto à minha poesia, gosto de vê-la na confluência entre João Cabral, Bruno Tolentino e Haroldo de Campos – mistura explosiva, logo se vê. Do primeiro herdei a obsessão pelo rigor formal; do segundo, a tendência a filosofar sobre a forma; – e do terceiro, enfim, a compreensão profunda de que a tradução é uma das atividades mais nobres e úteis a que um poeta pode se dedicar: e é uma verdadeira “singing school”, além disso, como diz o Yeats naquele poema.  

Finalmente, sou um poeta classicista e um classicista poeta, à semelhança dos bibliotecários de Alexandria – coisa que o Pedro Sette-Câmara já disse, aliás, referindo-se a certa atitude mais ou menos comum a vários poetas brasileiros, hoje. Não separo a atividade acadêmica, de investigação de problemas filológicos, da atividade propriamente poética, de tradução de poesia alheia e invenção da própria. O que aprendi com o mestre e amigo João Angelo Oliva Neto, pesquisador de ponta e tradutor de escol – o melhor em atividade, hoje, no Brasil.

*** 

João Filho – Bom Jesus da Lapa-BA, 1975. Autor de Três sibilas (Ed. Dulcinéia Catadora, 2008) e A dimensão necessária e Raízes aéreas, ainda inéditos. 

Apesar de geral, tendo a concordar com essa descrição inicial dos dois extremos. A reinvenção da roda, o vanguardismo a todo custo, é mais insistente na poesia do que na prosa brasileira. O que denota uma perspectiva equivocada com o tempo histórico, que, nesse caso, é amputado, quando muito tratado como objeto e quase nunca como diálogo autêntico, reciprocidade. E falo de cátedra, pois passei por tudo isso. No entanto, atualmente, há um nicho no qual certa linhagem poética prospera; são alguns elementos delineadores dessa linhagem o diálogo consciente com a tradição ocidental, reutilização inteligente das formas fixas e do verso livre, a verticalidade (mas nem sempre) do conteúdo, a condição humana trabalhada em termos metafísicos etc.; esses elementos dialogam com poetas do tipo como Cecília Meireles, Alphonsus de Guimaraens Filho, Dante Milano, Orides Fontela, Alberto da Cunha Melo, Hilda Hilst, Bruno Tolentino, para citar alguns. Penso que o que escrevo se inclui aí. Uma das minhas ambições é o livro-poema, uma unidade perfazendo o conjunto. E a busca incessante de cruzamentos de ritmos, formas, vozes, construções etc. Com isso, a tentativa é abarcar o máximo de possibilidades possíveis, por isso criei heterônimos: o poema-flash assino como Lúcia Delorme; o soneto, como Fabiano Garcia Meireles; o poema ético-narrativo longo, como Dom Filipe; como João Filho assino os poemas com maior tendência metafísica. Confesso, porém, que insatisfação e insegurança soem estar de sentinela. O conteúdo, que para mim é importante, contempla-se no que disse O. Maria Carpeaux citando I. A. Richards, que por sua vez citava o Chung Yung, livro clássico chinês “o isolamento do homem no universo, a pavorosa incompreensibilidade de nascimento e morte, a imensidade do espaço e o lugar do homem no tempo, e a nossa infinita ignorância humana que nos impõe a humildade.”

***

Marco Catalão – Campinas-SP, 1974. Autor de Palimpsestos (2008), O Cânone Acidental (É Realizações, 2010), Sob a face neutra (Funarte, 2012). 

Minha percepção sobre a poesia brasileira contemporânea é lacunar e arbitrária. Depois de ter me interessado sinceramente por dezenas de supostos gênios anunciados pelos cadernos culturais ― e de ter me decepcionado repetidamente com cada um deles ― fui ficando escaldado, e hoje não leio mais do que dois ou três por ano. Mas não sou saudosista a ponto de imaginar que tenha havido uma “época de ouro” da poesia brasileira. Hoje, como sempre, basta um pouco de paciência para encontrar um ou outro bom poema em meio a centenas de poemas medianos e milhares de poemas medíocres. Difícil mesmo, terrivelmente difícil, é descobrir um livro memorável, e mesmo na primeira metade do século XX não encontramos mais do que meia dúzia de livros de poesia realmente memoráveis. Onde estaria o Claro enigma ou o Libertinagem da última década? Ainda não os encontrei, mas isso não significa que eles não existam...

Com relação à segunda pergunta, eu me vejo como uma daquelas tartaruguinhas que acabaram de sair dos seus ovos e se arrastam desajeitadas em direção ao mar. Olho para um lado e vejo o poeta Érico Nogueira se lançando numa direção; olho para o outro e observo que o poeta Ricardo Domeneck segue no sentido oposto; à minha direita, o poeta João Filho tenta um caminho alternativo; à esquerda, o poeta Caio Gagliardi aponta uma quarta via... E esses são só os mais próximos numa multidão de tartaruguinhas. Sei que a maior parte de nós sequer vai conseguir chegar ao mar e vai cozinhar na areia escaldante. Mesmo entre as que escaparem do sol e da areia, a maioria vai ser engolida na água rasa pelos peixes que há muito tempo esperam com a boca aberta. O que eu posso fazer, a não ser me lançar na direção a que o meu instinto e a minha precária razão me impelem? Para mim, escrever poesia é isso: uma aposta cega e absurda, sem qualquer garantia de êxito.
 

*** 

Mariana Ianelli – São Paulo-SP, 1979. Autora de Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005), Almádena (2007), Treva alvorada (2010) e O amor e depois (2012), todos pela Ed. Iluminuras. 

O que vejo é, de um lado, uma poesia mais suspicaz e, de outro, uma poesia que ainda acredita no inefável. Não são incomunicáveis, pelo menos, certas expressões poéticas, quando produzem menos admiração que desconfiança, abrem grandes espaços vazios onde fica visível o desafio de ainda ser capaz de comover, de vincular, de saber ler a realidade na sua dimensão simbólica. Poesia e espírito crítico hoje vêm juntos e inspiração é um termo que acabou degenerado por más interpretações, mas a poesia que me importa dentro desse panorama é a que não se esgota em justificações teóricas ou literárias por mais consciencioso que seja o trabalho do poeta, uma poesia que inclui mistério, sutileza, comoção, que se coloca no lugar da paciência e do silêncio, não competindo com uma época que promove seu contrário, uma poesia, portanto, otimista num sentido menos aparente e nada imediato. 

*** 

Paulo Henriques Britto – Rio de Janeiro-RJ, 1951. Autor de Liturgia da matéria (Civilização Brasileira, 1982), Mínima lírica (Livraria Duas Cidades, 1989), Trovar claro (Companhia das Letras, 1997) e Macau (Companhia das Letras, 2003). 

O negativismo em relação à poesia atual normalmente tem uma de duas causas. 

Uma, comum em todas as épocas, é o que podemos chamar de falha de perspectiva. O crítico olha para trás, e vê no passado Bandeira, Drummond, Jorge de Lima, Murilo Mendes, João Cabral; aí olha a sua volta, não vê nada comparável e diz: estamos na decadência. Quando a gente lê sobre a história de uma arte, seja a poesia ou a música ou qualquer outra, volta e meia encontra esse sentimento. Não tenho dúvida que mais de um contemporâneo de Leonardo e Michelangelo, contemplando a arte da Grécia, exprimiu sentimentos semelhantes, sem imaginar que as gerações seguintes viriam aquele momento que ele próprio estava vivendo como um dos maiores na história da arte ocidental. A falha de perspectiva tem dois aspectos: (a) Contrastar “o passado” com “o presente” é injusto, porque “o passado” é, por definição, muito mais extenso que “o presente”. Bandeira, Drummond e Cabral pertencem a três gerações diferentes; o período em que Bandeira estava no auge não é o mesmo em que Cabral publicava suas obras definitivas. Sem dúvida, há períodos em que há mais grandes artistas atuando do que em outros, mas (b) é sempre mais difícil julgar o presente do que julgar o passado; o que está próximo demais não pode ser visto com nitidez. É só do ponto de vista de agora que podemos avaliar, por exemplo, a década de 1950 como um período de extraordinária criatividade para a poesia brasileira. Para quem estava vivo e acompanhando a poesia na época, o quadro ainda não estava tão claro; muitas vezes só se faz justiça à grandeza de uma obra com um certo distanciamento no tempo. É só daqui a vinte anos que vamos poder ter uma visão distanciada do momento atual.

A outra causa do negativismo é um problema especificamente brasileiro — ou, talvez, de nações que, como o Brasil, acabam de sair de um longo período de construção nacional. Podemos dizer que mais ou menos entre o romantismo e a tropicália, um período de pouco mais de um século, a questão do que significava ser brasileiro era a que mais preocupava os artistas e intelectuais. Era importante afirmar-se brasileiro — num primeiro momento, em oposição a Portugal; depois, em oposição à França; e por fim, já chegando ao meu próprio período de formação (anos 60), em oposição aos Estados Unidos. A tropicália foi, sobre esse aspecto, a última das vanguardas e uma antivanguarda; ao contrário das vanguardas propriamente ditas, que se definiam por negatividade — os naturalistas negando os românticos, os modernistas de 22 negando o parnasianismo, o concretismo negando a geração de 45, o poema-práxis atacando os concretos — a tropicália se definiu justamente pela inclusividade: João Gilberto e Roberto Carlos, baião e rock, Batman e macumba. Os tropicalistas, em última análise, estavam afirmando: o Brasil, enquanto nação, está construído, e é um construto sólido o bastante para não precisar mais temer o estrangeiro; também a arte sofisticada não precisa amaldiçoar a arte de consumo, porém pode utilizá-la como matéria prima. Mas alguns críticos, da minha geração ou um pouco mais velhos, até hoje continuam mentalmente no período pré-tropicalista. Para eles, a poesia tem que ser, como dizia Mário de Andrade, uma arte “interessada”, contribuindo para a construção do Brasil, criticando o capitalismo, afirmando valores genuinamente nacionais etc. — ou então, ainda dentro da lógica da vanguarda, realizando experiências formais radicais, dando mais “um passo à frente” em relação aos últimos movimentos e afirmando a posição do Brasil como nação “moderna”. Para esses críticos, tanto os da vertente engajada quando os da vanguardista, uma poesia que não esteja interessada na questão nacional, ou que não seja o dernier cri em matéria de experimentação, não tem nenhum valor. Eles não conseguem entender por que motivo os poetas do século XXI não são mais como os poetas da primeira metade do século XX, porque jamais conseguiram sair da primeira metade do século XX.

A meu ver, a poesia [brasileira] vai bem. Há muitos poetas em atividade, o que me parece algo positivo: quanto mais praticantes de uma arte, maior a possibilidade de que ao menos uns poucos entre eles venham a se tornar grandes artistas. Dos poetas de agora, uns me parecem melhores, outros mais fracos; como todo mundo, tenho minhas preferências, meus critérios de avaliação; mas o fato de eu estar imerso no presente me nega aquele distanciamento que me parece fundamental para uma avaliação mais certeira. Creio que daqui a uma ou duas décadas grande parte da poesia produzida agora vai se revelar efêmera, e uma outra parte — necessariamente menor — vai perdurar. Não posso ter certeza de que os poetas que me parecem os mais fortes agora sejam os que vão ficar; é bem possível que algum poeta que eu nem conheça, que tenha publicado um ou dois livros mal distribuídos, ou que ainda nem tenha saído em livro, venha no futuro a ser reconhecido como o principal nome do nosso tempo. Quem viver verá. 

Se já é difícil avaliar a poesia dos contemporâneos, avaliar a poesia que se produz, então, é dificílimo. Deixo essa avaliação para os outros. Não sou um vanguardista; não escrevo com intenções de atingir tais e tais resultados concretos. Escrevo os poemas que consigo escrever.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Esta entrevista vai na íntegra, retirei daqui: http://www.tirodeletra.com.br/index.htm

Otto Maria Carpeaux 1

Entrevista conduzida por Homero Senna e publicada na Revista do Globo, nº 483, de 28/05/1949 e republicada em seu livro Republica das letras. 3ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996. 


Apresentação:

O aparecimento, há alguns anos, de Otto Maria Carpeaux no jornalismo carioca despertou viva curiosidade. Apresentado em grande estilo, por Álvaro Lins, num rodapé do Correio da  Manhã, como um scholar que muita coisa nos poderia ensinar e que, apesar de sua recente mudança para o Brasil, já estava quase em condições de escrever seus artigos diretamente em português, todo mundo quis ler e conhecer o ensaísta austríaco que escolhera o Brasil para exilar-se, depois dos tristes acontecimentos que se desenrolam em sua pátria.
E - como quase sempre acontece - não demorou que, a propósito do novo crítico, que a anexação da Áustria à Alemanha fez emigrar para o Brasil, se formassem correntes distintas. Seus artigos passaram a ser lidos então com maior  interesse ainda, tanto pelos fãs como pelos que estavam ansiosos de jogar alguma água naquela fervura de citações, de idéias e nomes novos.
Depois vieram os livros, veio o processo de naturalização, e Carpeaux - que conhece hoje, melhor do que muitos, a literatura brasileira - passou a ser um elemento dessa literatura, encontradiço nas rodas literárias do Rio e – com impressionante assiduidade - nas páginas dos Suplementos.
Seus artigos, escritos de início em francês, logo passaram a ser redigidos diretamente em português, língua conforme nos confessou - já consegue pensar. E é inegável que, do ponto de vista da correção da linguagem, escreve  melhor do que muita gente nossa. Nisso teve grande seu amigo Aurélio Buarque de Holanda, que o tirou de várias entaladelas e aos poucos lhe foi apontando os escolhos que era preciso evitar, nas águas nem sempre límpidas desta chamada  "última flor do Lácio".
Do fundo, da substância de seus artigos, às vezes excessivamente densos, uns continuam gostando, outros não, o que, aliás, é natural. Mas como o seu nome, graças à imprensa, se foi  divulgando por todo o Brasil, há uma enorme curiosidade, principalmente na província, em tomo do "homem" Carpeaux, cujo nome muitos supõem pseudônimo e cuja figura conhecem apenas através de uma hirsuta caricatura de Augusto Rodrigues. Por isso concordei logo com Maurício Rosenblatt quando este lembrou que Carpeaux não deveria estar ausente desta série de reportagens. De fato, o autor de Origens e Fins - que em oito anos de residência no Brasil não concedeu jamais uma única entrevista - poderia, por certo, trazer a estes depoimentos uma nota original e preciosa - as reações de um europeu diante do meio social e literário brasileiro, a experiência de vida em terras deste hemisfério, a luta áspera e obstinada com o idioma.
Além disso, a entrevista iria ao encontro do interesse de inúmeros leitores, curiosos de saber como é, no trato de todo-o-dia, o cidadão de cultura tudesca que assina nos jornais aqueles compactos rodapés.
Carpeaux, entretanto, não sabe improvisar. Por isso tive de organizar-lhe um questionário, a que ele respondeu por escrito. Se a entrevista perde, com isto, algo de espontaneidade, ganha muito em precisão e autenticidade.  

- Onde e de que modo se processou sua formação intelectual?

Estudei em Viena e em outras universidades européias. Poucos sabem que, antes de estudar Letras, estudei (até o fim) Matemática, Física e Química. Nunca me aproveitei praticamente desses estudos. Mas aí aprendi algo de método e precisão de pensar, o que é vantajoso no mundo sempre um pouco vago das letras.

- Quais as principais influências recebidas na mocidade?

Sou vienense, mas "Viena" não significa "valsas e psicanálise". Sou produto de um ambiente multinacional, cosmopolita. As influências mais poderosas para a vida inteira: a Antigüidade clássica (oito horas semanais de latim durante oito anos de estudo secundário); o espírito do catolicismo barroco que enche a atmosfera austríaca, e sobretudo o sistema de ensino universitário alemão (como foi antigamente), com as liberdades conjuntas de ensinar e estudar; daí também a relação dos estudos literários com os de Filosofia, História, Sociologia; depois, Guerra, Inflação e profundas transformações sociais ensinaram-me algo do sentido da História: lições de Hegel, Marx e Croce transformando-se em experiências vividas.

- Como era a vida na Áustria e nos outros países por onde andou?

O cosmopolitismo meio germânico, meio latino, meio eslavo da Áustria antiga transformou-se em imposição depois de 1918: a Áustria ficou como país pequeno; os austríacos, cosmopolitas por necessidade. Conheço a Europa inteira, sobretudo a Alemanha, França e Itália; considero-me como "bom europeu". Minha profissão foi sempre a Literatura: vários e inúmeros artigos de revista publicados. Houve episódios diferentes: por exemplo, dois anos de trabalho no cinema mudo, em Berlim, entre 1927 e 1929, redigindo scripts. O jornalismo, de que vivi durante aqueles anos todos, só foi meio de vida, embora às vezes sobrepondo-se às outras atividades. Segundo toda a probabilidade, eu seria hoje o articulista de fundo da Neue Freie Presse em Viena, então o maior jornal da Europa Central. As negociações a respeito estavam concluídas em março de 1938, quando ... quando aconteceu "aquilo".

- É verdade que o chanceler Dollfuss tinha grande apreço pelo seu livro A Missão Européia da Áustria?

A Missão Européia da Áustria é um pequeno livro em que a tese política daqueles dias - a necessidade européia da independência austríaca, força de equilíbrio da Europa - se defendeu, não como slogan, mas com argumentos históricos, sociológicos, culturais. A necessidade da independência austríaca, então desprezada pelos "realistas" que não deram importância a país tão pequeno, revelou-se logo depois: a anexação da Áustria pela Alemanha, em março de 1938, fechou o círculo em torno da Tcheco-Eslováquia, o que produziu Munique, o que separou do Ocidente a Polônia, o que isolou no continente a França etc., etc. A luta pela independência austríaca, de 1934 a 1938, retardou durante quatro anos a agressão geral à Europa. Os outros não souberam aproveitar esse tempo. Mas nós, cumprindo nosso dever, lutávamos. Lutávamos sob as ordens de Dollfuss, que era bem mais do que "meio fascista". Mas nem todos teriam falado tão alto como eu, lá na Áustria e aqui no Brasil. Quando Álvaro Lins me apresentou ao público brasileiro, disse uma verdade ao assinalar: "Sobre esta base da independência da Áustria é que o chanceler Dollfuss e o escritor Oto Maria Carpeaux sempre se entenderam; quanto aos problemas sociais, ao contrário, nunca puderam se entender"(1). E sabe você o que significava então inspirar esta frase e as alusões antialemãs do artigo? Isto em 1941, quando eu estava aqui como exilado, sem papéis, o DIP vigilante e o embaixador da Alemanha todo poderoso? Falei assim na Áustria, até minha fuga precipitada e perigosa, no dia 15 de março de 1938, depois de ter estado escondido durante quatro dias. Falei assim na Bélgica, como redator de um jornal de Antuérpia, em 1938/1939, enquanto os agentes da Gestapo me perseguiam e a Europa muniquizada nada queria ouvir daqueles "problemas sociais". Falei assim aqui no Rio, desde 1941, escrevendo contra o fascismo alemão, o italiano e o espanhol (e meu primeiro artigo na Revista do Brasil foi contra Vichy).

Faz uma pausa, para logo prosseguir:

A oportunidade é boa para fazer profissão de fé política. Apesar de ter exercido aquela atividade antifascista durante tantos anos, acho que antifascismo é uma atitude, não uma profissão. Os acontecimentos de outubro de 1945 criaram aqui o desemprego de vários antifascistas profissionais; são estes que, conforme a moda do dia, "simpatizam" com o comunismo, para renegá-lo no dia seguinte, fazendo profissão de fé "democrática". Eu não sou comunista, nem anticomunista, nem sou "democrata" à maneira daqueles. Acredito na inevitabilidade do advento do socialismo; mas é preciso lutar para que sob o domínio desse socialismo não desapareçam os valores culturais tradicionais e os valores da li berdade individual. Afigura-se-me necessária essa luta porque não acredito bestamente no "Progresso" com maiúscula, quer dizer, no progresso sempre para o melhor. Segundo os princípios do Progresso, já não devia existir há muito essa coisa chamada Destino; e no entanto ... Destino foi que escapei, daquela maneira, de Viena. Destino foi que desembarquei certo dia no Brasil, ficando primeiro um ano e meio em São Paulo.

- Como foram seus começos de vida no Brasil?

Quando perguntaram a Sieyes, em 1795, o que teria feito durante os anos do Terror, ele respondeu: "Sobrevivi." Em São Paulo vendi meus últimos livros.

- Então trouxe consigo sua biblioteca?

Fugi de Viena com uma pequena mala de mão e sem um tostão. Perdi pátria, casa, móveis e vários milhares de livros. Ao contrário do que se supõe, os nazistas não queimaram as bibliotecas (só houve queimas simbólicas); distribuíram os livros apreendidos entre pessoas interessadas. Esteve em Viena, nesse tempo, um professor universitário americano, amigo meu; este foi à Gestapo, declarando que me havia emprestado vários livros; e tão grande era ainda o prestígio de "cidadão americano" que lhe permitiram, sem provas, escolher uns duzentos volumes que ele me mandou para a Bélgica, e que eu vendi depois em São Paulo, por necessidade. Hoje tenho mais ou menos uns dois mil e quinhentos volumes, pequena biblioteca de trabalho, penosamente reconstruída; não é nada, mas é questão de to make the best of it.

- É verdade que dispõe de um excelente fichário?

É lenda. Não possuo fichário algum.

E virando-se para mim e mostrando o seu escritório:

Onde está ele? Algumas notas que chegaram incluídas naqueles volumes revelaram-se pouco utilizáveis. De nada me adiantaria um fichário velho. Não é erudito o escritor que tem muitas fichas, assim como não é bom general quem tem muitos soldados e nada mais. Acredita na "lenda do fichário" quem ignora como é (ou foi) firme a formação universitária européia. "Cultura é aquilo que fica quando uma pessoa já esqueceu tudo o que aprendera."

- Quando regressou ao Rio?

Em princípios de 1941. E minha verdadeira vida no Brasil teve início em março desse ano, graças à intervenção de meu amigo Álvaro Lins.

- E que tem feito desde então?

Está tudo assinado...

- Por que motivo escreve sob pseudônimo?

"Carpeaux" não é pseudônimo. É o meu nome de família, traduzido para o francês para ficar mais pronunciável. De pseudônimo só se pode falar quando o público desconhece a identidade do autor. Mas no meu caso nunca houve dúvidas a respeito, assim como ninguém até hoje duvidou da identidade do Sr. Dias da Cruz com o meu querido amigo Marques Rebelo ...

- Foi apresentado por Álvaro Lins ao público brasileiro como escritor católico. Ainda o é?

Pertenço à Igreja Católica; tudo o mais é questão de foro íntimo. Estou estranhando o "ainda", embora compreenda os motivos da pergunta. Mas por mais que se abuse da Igreja para fins diversos, ela é e fica a Igreja, fundamento e vaso das tradições cristãs, cuja indispensabilidade no mundo presente e futuro se me afigura tão certa como a citada inevitabilidade do socialismo... mas não me compete defini-la. Não escrevo sobre teologia. Sou leigo, e os leigos gozam de liberdade maior do que pensa a gente extra muros. Não se conhece bastante, aqui, a liberdade dos católicos da França e da Alemanha ocidental. No resto, você me permita citar Chamfort: "Prefiro a companhia dos ateus à dos crentes. Na presença de um ateu ocorrem-me todos os argumentos filosóficos em favor da existência de Deus; na presença de crentes ocorrem-me os contra-argumentos”.

- Quantos artigos escreve por semana?

Dois, para os jornais em que colaboro; e mais um ou outro por mês para revistas. Como são artigos longos, que exigem documentação, consultas e leituras prévias, dão muito trabalho, trabalho noturno porque preciso exercer outra atividade, a de bibliotecário. (2)

- Gosta de escrever ou preferiria outra profissão?

Não gosto; é um pesadelo. Mas, ainda mesmo que escolhesse outra atividade, reincidiria. Há tanta coisa que me interessa e entusiasma: História, Filosofia, Poesia, Artes, Música, e de que preciso dar conta a mim mesmo. Ora, minha vida tem sido tormento e desespero, mas são aquelas coisas que me reconciliam com a vida e "desejo, enfim, devolver a Deus uma alma encantada e grata". São palavras de Gide, palavras de poeta; e Poesia, os amigos vão dizer, não é realidade; sim, mas tampouco é ficção.

- Que assuntos lê de preferência?

Há muito não chego mais a ler aquilo que queria; só o que preciso ler para documentar-me.

- Em que língua prefere fazer suas leituras?

Leio todas as línguas européias, quase sem sentir diferença.

- De que modo divide o seu dia?

Não divido o meu dia; ele é que me divide ... Levanto-me em geral às oito da manhã, deito-me à uma, duas, três da madrugada, conforme, sem fazer pausas. Um amigo meu, morto há muito, costumava dizer (e as palavras vêm a propósito do meu caso): "Estou trabalhando dia e noite; de noite, pergunto ao quadro na parede se meu trabalho lhe agrada, e ao relógio se está cansado; de madrugada, pergunto à noite se dormiu bem."

- É apreciador de cinema?

Fui; do cinema mudo que estava para virar arte quando a técnica estragou tudo. O cinema sonoro é um dos símbolos do american way of life: aperfeiçoado, estúpido e barulhento. A Técnica, em geral, lembra criada que arruma nas dependências com tanto barulho que na sala não se pode fazer música. Porque observe que a lei profunda do cinema é o movimento. E o diálogo falado retarda o movimento. O quadro deve ficar fixo até que o sujeito diga uma frase inteira. Além disso, o diálogo deve ser acessível às multidões, enquanto o assunto visível pode ser interpretado de modo diverso pelo culto e pelo inculto, pelo letrado e pelo analfabeto.

- Considera-se, em música, diletante ou entendido?

Nasci e vivi com música. Mas considero-me diletante, embora tenha adquirido, de entendido, o hábito de apreciar, na música, menos o efeito sentimental do que a estrutura temática e harmônica. Preferências: música eclesiástica dos séculos XVII e XVIII; as sonatas e as músicas de câmara de Beethoven; as óperas de Mozart; os lieder de Schubert; enfim, de Bach tudo. (3)

- De que modo aprendeu o português?

Nunca estudei propriamente a língua; nunca tive aulas de português. Aprendi a língua exclusivamente lendo, lendo muito, em São Paulo; no Rio, depois de poucos meses comecei a escrever diretamente em português, língua em que hoje já consigo pensar. Devo isso em grande parte à minha forte base de latim e aos conselhos de Aurélio Buarque de Holanda. Considero o fato de haver aprendido, mais ou menos, a língua portuguesa como o ordálio mais tremendo a que a vida me submeteu.

- Qual o primeiro livro brasileiro que leu?

As Páginas Recolhidas, de Machado de Assis; o capítulo "O Velho Senado" ainda me parece a maior página que li em prosa portuguesa.

- Quais os vultos da nossa literatura que mais o impressionam?

Você se refere à literatura do passado? Machado de Assis; e, apesar dos defeitos evidentes, Lima Barreto e Augusto dos Anjos, porque são os mais brasileiros, os que me dizem coisas que ignorava na Europa.

- E os que mais lhe desagradam?

Tendo conhecido a literatura brasileira já aos quarenta anos de idade, fiquei livre de impressões e preconceitos de escola e ambiente. Faço para mim, e só para mim, a "revisão de valores" que em literaturas velhas se faz periodicamente, sem irritar suscetibilidades. A pintura francesa do século XIX, para dar um exemplo, é tão rica que suportou a eliminação posterior da "pintura histórica", de péssimo gosto, mas cujos imitadores ainda são considerados "glórias nacionais", tabus, em países de menos idade artística. Será aqui considerado iconoclasta quem detestar a poesia pseudo­romântica e pseudoparnasiana. Não nego o valor histórico; e Gonçalves Dias foi homem admirável. Mas os chamados gênios que morreram com vinte anos teriam acabado como Luís Delfino, contemporâneo deles, acabou aos setenta. A verdadeira poesia nacional começou com Cruz e Souza e Alphonsus, para continuar com Bandeira, Drummond, Murilo, Schmidt. Não sinto simpatias passadistas. Mas também ao pseudomoder­nismo, imitação pseudonacional do futurismo italiano, dedico os sentimentos da minha mais íntima antipatia e da mais elevada desconsideração. (4)

 - Por que quase nunca escreve sobre autores brasileiros?

Já falei dos poetas. Escrevi sobre Graciliano e José Lins. Admiro Otávio de Faria, Gilberto Freire. Augusto Meyer, vários outros. Mas não sou crítico profissional, antes livre atirador, sem obrigação alguma de escrever sobre tudo. Em geral, não escrevo sobre o que admiro, mas sempre sobre o que me parece exigir análise e interpretação. Quanto ao Brasil, sou estudioso apaixonado das coisas nacionais: Literatura, História, Sociologia, estudando-as para meu proveito. Considero essa atitude como dever de intelectual que se estabeleceu em país novo para ele.

- Há algum livro essencial da nossa literatura que ainda desconheça?

Desejaria desconhecer alguns que já li ...

- Pode a nossa literatura aspirar a uma importância universal?

Que vem a ser isso? Camões e Fernando Pessoa têm importância universal; mas a literatura portuguesa toda não tem. Strindberg tem; mas a literatura sueca não tem. A literatura norte-americana de 1850 era tão provinciana como a brasileira de então; e hoje é a mais viva do mundo.

- Que projetos tem para o futuro?

Quando o danado trabalho cotidiano me deixar uma folga, vou redigir o livro sobre a literatura russa que prometi a José Olímpio; a documentação está pronta. Gostaria também de escrever o Livro da Vida, que eminente estadista brasileiro declarou há pouco ser sua única leitura.

- Dos livros de sua autoria, qual o que prefere?

O que escrevi e não publiquei: a História da Literatura Ocidental, trabalho tremendo de umas quatro mil páginas datilografadas, concluído em novembro de 1945. Sim. 1945. E até hoje... (5)

- Espera voltar à Europa, ou já se sente definitivamente enraizado no Brasil?

Voltar para passear, sim, para rever ... Mas só para isso. Não considero o ato de minha naturalização simples formalidade jurídica. Conheço e respeito os limites do "enraizamento". No resto, considero-me brasileiro. J'y suis, j'y reste.

- Já se pode viver entre nós da profissão de escritor?

A não ser uns felizardos autores de best sellers, ninguém vive, em parte alguma do mundo, da profissão de escritor. É um erro pensar que isso é comum, por exemplo, na Europa. Não fossem Gide e Roger Martin du Gard homens de grande fortuna pessoal, e nem Les Faux Monnayeurs nem Les Thibault dariam para eles viverem. Outro que teria morrido de fome se fosse depender dos direitos autorais foi Valéry, por mais de vinte e cinco anos diretor da Agência Havas. E ainda são de ontem e muito desconhecidas as aperturas financeiras do grande Bernanos, que no entanto era um escritor universalmente conhecido, com livros traduzidos para vários idiomas. É verdade que um escritor como Somerset Maugham consegue, ao que parece, viver - e viver à larga - com o produto dos seus livros. É preciso não nos esquecermos, porém, de que é também autor de teatro, e o teatro, sim, sempre foi muito mais lucrativo do que qualquer outro gênero literário. O que importa é uma relativa independência, de modo que o rendimento do trabalho literário vire parte cada vez maior do rendimento total. Nos últimos cinco anos, a situação melhorou muito no Brasil. No meu caso particular, aquela parte subiu de 20% para 60%. No entanto, esse negócio de duas ocupações é o diabo...

- Pode dar-me, ainda, alguns dados pessoais?

Nasci em Viena, em 1900. Casado, não tenho filhos - conforme dizia Brás Cubas: "Não tive filhos; não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria..."
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Notas:
(1) "Um novo companheiro", artigo publicado no Correio da Manhã de 19/04/1941, depois enfeixado em Jornal de Crítica (2." série), Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio, 1943, pp. 294-302.
(2) Na época (1949), exercia Carpeaux o cargo de bibliotecário da Fundação Getúlio Vargas.
(3) Embora se tenha declarado um diletante em matéria musical, Zahar Editores lançaram em 1958, de sua autoria, Uma Nova História da Música, o livro que teve, dentre os seus, maior sucesso de venda, e do qual saiu, em 1967, pela Livraria José Olímpio, 2ª edição.
(4) OMC procedeu a uma rigorosa revisão da nossa produção literária na sua Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira (Rio de Janeiro, Editora Letras & Artes, 1964,3ª edição.
(5) Publicado, afinal, pelas Edições O Cruzeiro, em oito volumes, aparecidos de 1959 a 1966.