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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Do livro Auto da Romaria, que, este ano, sairá pela Editora Mondrongo: http://www.mondrongo.com.br/index.php


CANÇÃO DAS MARGENS
Do romeiro Batista


Meu amor por essas margens?
Nem sei onde se alicerça,
mas se eu digo involuntário
a palavra não é esta.
Se eu digo vertigem, fado,
o não dito me atropela.

Vem de longe, vem do alto?
Por si próprio ou chamamento?
Esse amor tem nome claro
no invisível continente;
se algum barco for buscá-lo,
achará todos os ventos.

Continente constelado
de ilhas, naufrágios, idílios,
corsários de uma linhagem
mais velha que os velhos ritos,
cercados do mar alado
– o real é seu exílio.

Rabiscam na praia viva
mensagens lidas nas águas,
ondas sem idade brincam,
levam o que não se apaga,
e desimporta em que língua,
todas as línguas são válidas.

sexta-feira, 25 de abril de 2014


A VIDA INTEIRA ESTA EMPREITADA 

 

Se desejou alguma vez
ruflar na calma dos meus braços,
foi fogo branco de uma fênix —
queimou, fugiu no descompasso

entre a sonhada captura
e esse vazio ou quase nada,
que faz sorrir certos amigos,
olho do ser — vida acordada. 

Voo invisível que norteia
meu coração e seus velames,
insufla luz dentro das veias
a circular num autoexame. 

Mas, o convívio agora: espreita,
com o seu pássaro sem sombra,
perturba e dana com rasantes —
o corpo cai, da mente zomba. 

Por mal olharem vão dizer
(desconhecido ou inimigo)
que são efeitos deste lápis
sobre o papel, modesto abrigo, 

para a grandeza que só posso
forçosamente contemplar;
também revolto, vil blasfemo
como quem deve e quer cobrar.
 
A dimensão necessária. Ilhéus: Mondrongo, 2014, p.21,22.