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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/joao-filho-o-talento-coragem-e-transcendencia-do-mundo-113989/


João Filho: o talento, a coragem e a transcendência do mundo

– O que dizer do poeta João (Fernandez) Filho e deste seu “Auto da romaria”? Bem, tenhamos como pressuposto: João Filho é poeta que deve marcar seu nome na história da poesia brasileira do século XXI. Seu lugar não está reservado apenas entre os poetas católicos, mas, com certeza entre os grandes da poesia de nossa época. E o que me leva a fazer tal aposta?
Poeta João Filho, autor de “Auto da romaria”, timbre único na poesia católica do Brasil
Ele escreve poesia com a laboriosa carga poética que a região Nordeste do Brasil legou à poesia brasileira; ele o faz com um enorme talento e com o devido respeito à Tradição, que vai de Jorge de Lima, a João Cabral de Melo Neto; parece ao cronista que os poetas do Nordeste, João Filho e Wladimir Saldanha por excelência, recitam seus poemas no falar da gente das ruas, antes de os levar ao ritmo da harpa acadêmica que exige fôrma e formas adequadas aos padrões do Cânone. E, finalmente, sob a forma de indagação: estariam, assim, esses poetas novíssimos inventando um novo cânone, em tudo respeitando o que foi, mas inovando no que respeita ao pensar único, confrontando a massa de versos repetitivos dos acadêmicos do sul-sudeste do país?
Os estudos críticos subsequentes que, certamente serão feitos pelos acadêmicos, deverão comprovar isto. Os menestréis que vêm do Nordeste parecem-se àqueles homens que vindo das regiões como o País de Gales, os poetas irlandeses por extensão, que valorizam a tensão emocional, tal como o fizera o menestrel dramático do Portugal medieval – o sr. Gil Vicente, bardo que é a influência primeira de João Fernandez Filho.
Este livro que tenho sobre a mesa e que pretendo apresentar ao leitor de “Destarte”, a professora Luciane Amato bem o resumiu, mas não com a completude que ele merece. Ela diz: “Lugar de nascimento é destino – nos diz o poeta João Filho, e livros têm o seu destino como disse um outro poeta, e este destino, dentre tantos outros, consiste em nos dar uma perspectiva que permita “ressignificar” as nossas histórias e as histórias tanto dos nossos entes queridos quanto dos não tão queridos, como faz esse livro. […] desde a perspectiva desse mundo recriado por João Filho, percebemos aquele pequeno povo de Bom Jesus da Lapa e dos romeiros que lá foram dar, envoltos e interpretados na Paixão de Nosso Senhor e, com essa percepção, recuperamos o sentido aqui, atenuamos alguns ressentimentos ali, descobrimos o que estava oculto em alguns corações acolá.”
De um livro assim, que levou dezessete anos para ser concluído, podemos inferir que há algo maior, fruto que deve ser colhido como fruto raro – afinal, “viver sempre foi esse exercício/ – do último, do último minuto”. O livro do João se inscreve como marco do “fazer no absoluto”, não como um livro a mais, senão que o mais importante na vida do leitor de poesia brasileira, seja este católico ou infiel, pois dele exala a mais fina tradição da poesia católica brasileira, mesclada à vida do século. Terá o leitor facilidade em ver que há neste “Auto da romaria” um poeta consciente de seu ofício, mesmo que aqui e ali salte a presença forte da tradição regionalista nordestina; entretanto, ele poderá ir mais além se pensar que em João nada é inconsciente.
Capa de “Auto da romaria”, de João Fernandez Filho,
Edit. Mondrongo, Itabuna (BA), 2010.
A este “Auto da romaria” poderíamos sem dificuldade aplicar aquela reflexão de Vicente Ferreira da Silva que, citando o pensamento hegeliano, para quem “tudo quanto o homem pensou de si mesmo e do mundo, a sua auto representação dependeriam de sua representação de  Deus”. E mais: o passo seguinte à esta afirmação de Hegel, a de Schelling e de Bachofen “de que o mito conforma e possibilita a História”; ou seja: estou apto a pensar que João Filho, ao criar a sua visão de sua aldeia e de nos apresentar os passos do Nosso Senhor dos Passos – de sua cidadezinha do interior do Nordeste; e de toda a mitologia que envolve a pequena Bom Jesus da Lapa, na Bahia, está ele no fundo nos colocando no centro da História do personagem mais histórico, elevando sua aldeia ao patamar de centro do mundo.
Afinal, “a imaginação mítica, poética, artística e religiosa assume um papel cada vez mais saliente na condução da História, na determinação do pensamento” – recorda-nos Ferreira da Silva.
Ao livro do poeta João Filho aplica-se o mesmo que de Gil Vicente disseram os historiadores da Cultura António José Saraiva e Óscar Lopes: “O fôlego poético, a complexidade e variedade da estrutura dramática desenvolvem-se ao longo desta fecunda carreira de 34 anos, em que se pode escalar uma série de inovações…” Tal é o caso para a carreira de pouco mais 14 anos do poeta João; ele, que estreou no gênero Conto, obtendo êxito e participando de algumas antologias, dentre elas, uma na Alemanha (2013) e outra traduzida no México (2014); depois, navegou “Encarniçado” (2004), editora Baleia. De 2008, são as “Três sibilas” (poesia e as antologias: “Os Cem Menores Contos”, Ateliê Editorial, “Contos Sobre Tela”, Edições Pinakotheke, “Terriblemente felices: Nueva narrativa brasileña”, da Emecé Editores, “35 segredos para chegar a lugar nenhum”, pela Bertrand Brasil, “Travessias singulares – Pais e filhos”, Casarão do Verbo; chegando ao magistral “Auto da romaria” com perfeito domínio da técnica e da emoção do poeta jovem, mas maduro.
Como sempre, devo ao meu interlocutor imaginário uma explicação, devida ao que me vem cochichar: – “Mas não é muito cedo para dizer de um poeta que em 2018 fará 43 anos o que se aplicaria a alguém na casa dos cinquent’anos?
– Pois bem, esta crônica serve ao propósito de convencer-me (por primeiro) e convencer o dileto Leitor, de que estamos diante de um grande poeta. João, que começou no conto, angariando alguns troféus – prêmios, como se sabe, são a forma mais explícita de uma elite dizer ao novo entrante: estás aceito!
– E por que o senhor fala de coragem no título desta crônica? dispara o interlocutor oculto.
Pois bem, primeiro, as primeiras coisas; as epígrafes – de Cecília Meireles, do Santo Padre José de Anchieta (poeta do Brasil) e de um “bendito popular”, todas convergindo para a forma de Auto que se vai ler a seguir – está dado o “Norte” (quase o cronista diz o Nordeste, vento que soprará por todo o livro denso e belo!): “Eis a estrada, eis a ponte, eis a montanha/sobre a qual se recorta a igreja branca” (Cecília); “Cordeirinha santa/de Iesu querida,/vossa santa vinda/lhe dá lume novo (Anchieta); e o bendito popular – que, secretamente, ordena o caldo cultural do poeta-cantador João Filho:
“Senhor Bom Jesus da Lapa,
aceitai a romaria,
que sou romeiro de longe,
não posso vir todo dia.”
Bem, aí está o lugar de nascimento e a origem de todas as vozes do que “sonha acordado”, o poeta: “Para o bem ou para o mal [não se vê mal nenhum!] – diz João nas “Palavras da fonte”, em modo de apresentação do livro: “…lugar de nascimento é destino. Desse modo, acredito que tudo isso não teria sido possível se eu não tivesse nascido, num fevereiro que já se distancia [1975], em Bom Jesus da Lapa.”
A coragem é definida alhures. Santo Agostinho já a definia como virtude, sabe-se.
– “A coragem da alma, como virtude, é assim chamada por semelhança com a coragem do corpo. Mas não contraria à Ideia de virtude quem, por natural temperamento, tiver natural inclinação para a virtude, como se disse.” – afirma Santo Tomás de Aquino, repetindo Agostinho.
Virtude geral ou especial, deixemos aos teólogos que a definam. – Pois, diz a Escritura: A sabedoria ensina a temperança e a prudência, a justiça e a fortaleza, significando nesse lugar, virtude, a coragem. Ora, sendo a denominação de virtude comum a todas as virtudes, parece que a coragem é uma virtude geral.
João é um poeta corajoso, pois em meio à quase afasia da voz cristã em nossas letras, ele se impõe com um livro que é todo ele um canto elaborado e deslumbrante sobre a Paixão de Cristo. Melhor seria, até, que o cronista deixasse para a quadra da Quaresma uma leitura tão imprescindível, mas se o faz agora é porque está preso ao alumbramento que João provoca no leitor.
Quando o Santo Anônimo se anuncia, no Auto da poética de João Filho, quedamo-nos extasiados:
“Molda meu coração, barro insubmisso.
Por mais que se ofereça é sempre fúria,
pois há sombrios poços que diviso,
à beira de mim mesmo, nas funduras.
Molda meu coração, ex-pedregulho,
que percorreu parábolas insanas,
atirando-se contra os próprios urros,
abrindo abismos dentro da garganta.
[…]
João, assim, vai construindo seu caminho do Calvário, descendo a esses “abismos da garganta”, mas não se dá por vencido em nenhuma estação do suplício do Cristo. Ele, um fiel, resgata o que há de precioso nesta “argila impura” que somos e se queda diante do Cristo, em meio a um mundo exangue e que cede todo dia, toda hora à mais abjeta forma de expressão descrente. João aprendeu, como Gustavo Corção, as “lições de Abismo”:
“Molda meu coração, argila impura,
com Tuas mãos de luz, em vaso d´água,
e aprendo a servir feito quem desfruta
um sopro de esperança que se alarga.”
Que espécie de poeta é este? O que, em lugar de uma “Deusa branca” – a musa que Robert Graves diz ser o centro da poética que move a Tradição, move-se em direção à Cruz? Que espécie de poeta é este, inconcebível quase, o que parece não ter lugar num mundo ateu?
É o que encontra Jesus com sua mãe: “A dimensão do Cristo na parede,/da casa pobre que é o coração”. É João, o joão entre os muitos joões que se expressam na “Canção do João”:
“Lá vem joão-de-joão,
lá vai joão-sem-fim,
compõe seu brasão
paládio e capim.”
Diante de um livro assim, de um João que se supera supernaturalmente, a partir de sua aldeia – “situada à margem direita do médio São Francisco, oeste da Bahia”, o que sai da gruta do Senhor Bom Jesus da Lapa” para refazer, romeiro da renovação que reescreve a história da poesia católica do Brasil.
Este livro, pois, conectado a dois mil anos da história do personagem mais histórico – o Jesus crucificado, o Jesus que não é revolucionário ou revoltado contra Herodes, mas o eleito, Deus Encarnado que João Filho recoloca no centro da Poesia, de onde Ele nunca saiu – o centro da História do Ocidente.
Ora, sabemos, pela advertência do próprio autor que “para o bem ou para o mal, e em que pese uma dose de determinismo e outra de livre-arbítrio” que “lugar de nascimento é destino” e João fez de sua Bom Jesus da Lapa (Bahia) o lugar em que uma estrela aponta não a morte de Jesus, mas sua ressurreição sob a forma da mais elevada poesia.
Por tudo isso, dileto leitor, é que entusiasticamente recomendo que leia, que descubra por si mesmo, o encanto que representa a poesia de João Filho, neste “Auto da romaria”, encanto que ele, humildemente, resgata das palhas da sua infância, certo de que como seu (dele) mestre Olavo de Carvalho: “O menino é o juiz do homem, porque aquilo que vem depois é a realização, ou o fracasso, das expectativas e sonhos de antes.”
Jorge de Lima, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt, Tasso da Silveira e Cecília Meireles – a mesma da epígrafe primeira do livro, todos, exultantes devem de seu panteão, saudar como este velho cronista saúda o João poeta, o João, “balconista” que deixou “os lajedos” para inscrever seu nome no lugar mais alto (entanto, o mais humilde) dos poetas de Deus no Brasil do incrédulo século mau numerado XXI.
“Presença perene,
minh´alma menina,
coração infrene
a descoberta infinda.
Ele que escreve “O aéreo testamento” (dedicado ao amigo Wladimir Saldanha), como prova anti-Proustiana e cabal do resgate de uma infância que se viu livre, libérrima do “curral dos adultos” (cf. Alberto da Costa e Silva):
“Como pode ser tão densa,
e girar seu giro dentro,
essa luz da luz imensa
descendo assim do sem tempo?
Forço o menino imanente,
preso eterno do seu eixo?
Não termina o que vai sendo,
nesse espanto, então, o deixo?
Ele escapa do desenho,
que o deseja permanente, e
me lê enquanto vou lendo
seu aéreo testamento.”
Por tudo isso, faz absoluto sentido que tenha dito ao abrir seu “Auto…” o poeta João, repetindo Cecília Meireles:
“Eis a estrada, eis a ponte, eis a montanha
sobre a qual se recorta a igreja branca.”
E muito mais há de se descobrir nesta romaria, o leitor atento a fôrma e forma, se à sensibilidade e à razão poética quedar-se nesta imersão. Saberá que vem do mais fundo do coração do poeta esse “bendito popular” aposto à portada da estrada: “Senhor Bom Jesus da Lapa/aceitai a romaria, /que sou romeiro de longe, /não posso vir todo dia”. O talento mais destacado de João Filho é, na verdade, proveniente das menores coisas, como em Hölderlin, “o divino é não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo!” E da pequena Bom Jesus da Lapa, vem a voz do João nos lembrar que “alguém passa, seu gesto se realiza/ na luz imposta – /assombro que atravessa a minha vida, / e me transporta.” Boa leitura, e que o embevecimento o conduza, Leitor!
(*) Adalberto de Queiroz, 62, é jornalista e poeta. Autor de “Frágil armação”, 2a. ed., Goiânia, Caminhos, 2017. Email para betoq@yahoo.com
_______
Fontes desta crônica: “Auto da romaria”, 1a. ed., Itabuna (BA), Ed. Mondrongo, 2016; SARAIVA, António José (e Óscar Lopes). “História da literatura portuguesa”, 6a. ed. corrigida e atualizada, Porto Editora, Porto (Portugal), s/data.; DA SILVA, Vicente Ferreira. “Transcendência do mundo”, São Paulo, É Real., 2010.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Regionalismo alegórico em “Auto da Romaria”,
de João Filho
Por Emmanuel Santiago

João Filho supera as limitações do regionalismo literário por meio de uma visada alegórica sobre o universo regional.

Com Auto da romaria, João Filho se consolida como uma das mais consistentes vozes líricas da literatura brasileira contemporânea. No livro, a trajetória pessoal do eu lírico principal, rememorada, cruza-se com o percurso histórico e geográfico da romaria que ocorre anualmente em Bom Jesus da Lapa, cidade natal do autor no interior baiano. Contudo, a própria romaria adquire um significado outro, alegórico, apontando para o caminho da transcendência. Nisso consiste seu regionalismo alegórico, em que se fundem a vertente regionalista de nossa literatura e a tradição literária ibérica.

Antonio Candido observa que, nos países centrais — cultural e economicamente falando —, o regionalismo nunca passou de fenômeno episódico, ao passo que, apenas nos países atrasados ou de desenvolvimento tardio, estabeleceu-se como tendência e produziu obras relevantes. A importância da temática regionalista esteve na elaboração dos elementos da realidade local, funcionando como contrapeso à adesão a modelos literários estrangeiros de maior prestígio cultural. Entretanto, com a modernização dos países periféricos, o regionalismo teria perdido vigor criativo e se tornado obsoleto. A revitalização dessa temática, então, ficara a cargo de autores que, por meio de uma forma inovadora, mesclavam a matéria regional a questões existenciais que ultrapassavam as circunstâncias histórico-sociais imediatas do universo representado. É a isso que o crítico chama de super-regionalismo e cujo principal representante na literatura brasileira seria Guimarães Rosa[1]. Para as finalidades deste ensaio, é preciso considerar que, embora as reflexões de Candido restrinjam-se à prosa, tivemos, no Brasil, uma poesia marcada pela tematização das circunstâncias regionais. É o que vemos na obra de Jorge de lima em sua fase mais tipicamente modernista, assim como em Joaquim Cardoso e João Cabral de Melo Neto.

João Filho é um desses autores que conseguem superar as limitações da temática regionalista, mas por meios diversos do que se verifica em Guimarães Rosa. Para Candido e outros intérpretes, na ficção rosiana, a superação da natureza documentária do regionalismo se dá, entre outros fatores, pela incorporação de procedimentos vanguardistas, sejam eles linguísticos, sejam narrativos. À primeira vista, a poesia de João Filho vai em sentido oposto: o da retomada das formas fixas. Em Auto da romaria, há a hegemonia do verso metrificado, além da presença de formas como a coroa de sonetos, a sextina, a terza rima, o romance ibérico etc. Mas não nos deixemos enganar por esse tradicionalismo, pois o poeta maneja o verso de maneira maleável e versátil, rompendo estrofes como unidades semânticas (atravessando o discurso de uma estrofe para outra) e tirando grande proveito das rimas toantes. Além disso, as imagens poéticas, criando associações inusitadas, denunciam uma sensibilidade moderna.

Até mesmo a definição do livro como “auto” expressa a ambivalência entre o moderno e o tradicional. O auto é uma forma do gênero dramático, de origem medieval e ibérica, intimamente ligada à cosmovisão e à moralidade cristãs, mesmo quando seu assunto é profano. No entanto, Auto da romaria não é, de fato, um auto. Trata-se de uma obra lírica, mas que, configurando vozes diversas, rompe com o monologismo do gênero lírico e aponta para a estrutura dialógica do drama. O eu lírico, que, na maioria das vezes, simula uma perspectiva autoral, assume diferentes personas vinculadas à romaria. Como se sabe, a dissolução das fronteiras entre os gêneros é um dos principais índices da modernidade na literatura.

Tampouco há um enredo que unifique os poemas e as diferentes partes do livro, como seria de se esperar de uma peça de teatro. Contudo, o próprio auto não costuma seguir as regras de unidade de ação do teatro clássico, sendo composto por cenas que são independentes entre si, embora girem em torno de um mesmo ensinamento moral (pois trata-se de uma forma que possui uma dimensão didática). O princípio da variedade construída com base numa unidade conceitual também preside a composição do livro de João Filho, ainda que tal variedade seja potencializada pela fragmentação própria ao impulso lírico. Como eixo do conjunto, servindo-lhe de elemento de coesão, está a romaria e o universo ao mesmo tempo íntimo e social que a circunda.
Em Auto da romaria, o particularismo da temática regionalista é suplantado por duas vias: a primeira delas é a maneira como a ambientação regional se mistura às recordações do eu lírico principal, cruzando a história da romaria com o universo familiar do autor. Destaca-se, como metáfora do trabalho da memória, a imagem do “menino contínuo”, procurando atar, conforme dizia certo narrador casmurro, as duas pontas soltas da vida: a maturidade e a juventude. Em “O aéreo testamento” (terceira seção do poema “Em torno da venda”), o legado imaterial deixado pelo menino nada mais é do que a pessoa que o eu lírico se tornou — “o menino é o pai do homem”, recorrendo a mais uma referência machadiana.

A segunda via por meio da qual João Filho suplanta o particularismo regionalista relaciona-se ao modo como, no livro, os índices da realidade podem ser lidos por uma chave transcendental, o que eleva a vivência imanente ao plano da experiência religiosa. É o que se vê no poema “A Gruta e o Morro”, em que a “áspera beleza da ardente paisagem” simboliza o árduo caminho da salvação por meio da ascese (essa “estreita senda”); a luz escaldante do sol, por sua vez, é a emanação da Verdade, ensinando sua “drástica doutrina”, enquanto o Morro representa a ideia de ascensão espiritual (assim, a Gruta, santuário e destino da romaria, é um correspondente terrestre do Paraíso):
Caminho de pedras
que o sol incandesce;
fantástico perfil
— o morro aparece,
e a vista se eleva,
na quentura de agosto.
Caminho de pedras,
paixão não é queda.


O “fantástico perfil” do Morro remete a duas imagens conhecidas da tradição literária. A primeira delas se encontra no primeiro canto d’A divina comédia, quando Dante, após vagar pela selva escura do pecado, vislumbra o monte do Purgatório, que conduz ao Paraíso:


Mas quando ao pé de um monte eu já chegava,
tendo o fim desse vale à minha frente,
que o coração de medo me cerrava,

olhei pra o alto e via a sua vertente
vestida já dos raios do planeta
que certo guia por toda estrada a gente.

Tornou-se a minha angústia então mais quieta
que no lago do coração guardara
toda essa noite de pavor repleta.


A outra imagem refere-se às “furnas montanhosas” da cena final da segunda parte do Fausto, de Johann W. Goethe, através das quais a alma do protagonista ascende às esferas celestes. Tanto A divina comédia quanto o Fausto estão repletos de imagens alegóricas, e o livro de João Filho parece filiar-se a essa tradição. Em “O monge e o monsenhor”, confirmando tal tendência, o Morro é recoberto de inúmeras conotações: “O Morro é a pedra que sonha,/ calcário onírico e ar”; “O Morro é a pedra que pensa,/ o seu calcário real, o azul e branco da crença/ é sua fé mineral”, e por aí vai.

No poema “6 de agosto”, a procissão anual do Bom Jesus da Lapa torna-se um correspondente (ou alegoria) da busca da alma pela Graça divina. Por isso, ela transborda além do tempo e do espaço, isto é, além das circunstâncias particulares do universo regional:
Não repare no caudal
que transborda de outras épocas,
nas multidões que deslizam,
misturando tantas cepas,
que acompanham o andor
em romaria sem pressa.

(…)

Mas guarde um quadro completo
do caudal sem calendário,
apesar do mês de agosto
ter o seu dia esperado.
Quem espera sempre alcança,
verá que não mente o adágio. (grifos meus)


A procissão ocorre num tempo fora do tempo, onde se cruzam as reminiscências da perspectiva autoral (experiência individual), a tradição da romaria (experiência social) e, sob uma perspectiva cristã, o anseio de toda alma pela salvação (experiência universal). De modo semelhante, o rio São Francisco, objeto de um poema em duas seções, também extrapola sua existência imanente, figurando como espelho da eternidade:
Eis o rio soturno que medita
sob a luz do Cruzeiro do Sul; vai
pela planície dupla — a eterna e a finita —

e constela as imagens que contrai.
Aqui e lá em cima, as quatro margens
sustentadas por linhas que não caem:

naquelas tem-se a plenitude da viagem
e, nessas duas, seu espelho: São Francisco.
(…)


A planície dupla sobre a qual o rio corre é constituída por seu leito (a terra) e pelo céu (aqui assumido em sua conotação metafísica). “Naquelas margens”, as de cima, vislumbra-se “a plenitude da viagem”, que é a eternidade; cá embaixo, temos o rio mesmo, que serve àquela de reflexo, de representação sensível. O poema, então, assume a forma dialógica, com o barqueiro José relatando ao eu lírico a história de sua conversão religiosa após uma vida de desvirtuamento. O barqueiro, sugerindo a figura de Caronte, é aquele que trafega entre as duas margens da existência: a vida e o Além, a imanência e a transcendência. Em seu relato, temos o que pode ser considerado uma atualização da Máquina do Mundo, objeto fabuloso presente no décimo canto d’Os lusíadas, de Luís Vaz de Camões:

(…)
entrei na dimensão da lucidez;
algo se deu, e numa peça toda inteira
— eu subia de barco na contrafluidez… —

meus caminhos se ataram na algibeira
do coração, quedei no centro da certeza;
algo se dá — a gota verdadeira,

não posso descrever com tal justeza,
se é que outros fulgores consegui,
o verbo vem da graça e da beleza

e foi o Amor sem véus que disse: aqui!
O coração do tempo revelado,
a clareza total descrita em si,
(…)
Apesar da matriz camoniana da passagem, parece haver uma relação intertextual mais estreita — por oposição — com o poema de Carlos Drummond de Andrade, intitulado justamente “A máquina do mundo”, do livro de 1951, Claro enigma. Neste poema, o eu lírico drummondiano, confrontado com a Máquina do Mundo numa estrada de Minas, prefere dar as costas aos mistérios que lhe foram gratuitamente revelados, numa explícita recusa ao metafísico:

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, (…)

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Tanto no poema de João Filho quanto no de Drummond, verifica-se o predomínio do decassílabo heroico (o segundo utiliza-se eventualmente do sáfico); outro elemento que os aproxima é a disposição dos versos em tercetos, embora o poeta mineiro prefira o verso branco, enquanto o baiano, lançando mão da terza rima, aproxima-se da estrutura d’A divina comédia, obra com a qual guarda semelhanças pelo teor metafísico e pela natureza alegórica. Se o eu lírico de “A máquina do mundo” dispensa a revelação, o barqueiro José (nome cheio de ressonâncias drummondianas) mergulha de cabeça no mistério.

A divergência entre os dois poemas resgata a polêmica de um artigo escrito por Bruno Tolentino para a revista Bravo! no ano de 2000. No artigo “Janelas sobre o caos”, Tolentino queixa-se do ambiente cultural acabrunhante do Brasil de sua época, atribuindo a culpa desse estado de coisas a Carlos Drummond de Andrade, que, na condição de nosso poeta maior, teria causado um estreitamento de nosso horizonte poético ao desprezar a temática metafísica: “Os impulsos de transcendência, a inquirição metafísica, a busca de uma dimensão sacro-mítica, o mesmo intuito religioso que a poderiam erguer acima do ‘mundinho poetizado’, ainda que poderosamente, pelo grande vate, ao fim e ao cabo satisfazem-se e esgotam-se com a luta política inflada em meta suprema da existência”[2]. Que o autor de Auto da romaria tenha escrito o que aparenta ser uma resposta à grande profissão de fé antimetafísica da obra de Drummond demonstra, descontadas a leitura enviesada e a injusta avaliação sobre a poética drummondiana, a grande importância de Tolentino para certa vertente da poesia brasileira contemporânea, na qual se inclui João Filho como um dos nomes mais proeminentes.

Podemos definir o regionalismo alegórico de João Filho da seguinte maneira: em Auto da romaria, os elementos do universo regional podem ser decodificados como índices de uma cosmovisão cristã, figurando como vestígios de uma ordem superior (na segunda seção de “São Francisco”: “Em Bom Jesus da Lapa, a luz fomenta/ os fios fundadores do mistério”). Grosso modo, a alegoria é um recurso retórico por meio do qual, pela representação de seres concretos, exprime-se um conteúdo abstrato, como ideias, preceitos, sentimentos, virtudes etc. Walter Benjamin, ao tratar do uso da alegoria na literatura barroca, observa como tal recurso expressa uma consciência da precariedade da existência terrena diante de uma ordem superior. O alegorista buscaria exprimir, de maneira incompleta e aproximativa, uma verdade que escapa à razão e à linguagem humanas, pois situada fora do plano terreno, destituído de significado intrínseco. Por isso a imagem alegórica é sempre um fragmento, a ruína de uma totalidade semântica inexprimível. Vem daí, também, a natureza arbitrária das alegorias, que buscam capturar o inefável numa imagem sensível[3].

A visão alegórica do homem barroco, embora carregada de elementos medievais, está na raiz de uma compreensão moderna do mundo. O barroco, em muitos sentidos, manifesta uma consciência angustiada do colapso da ordem tradicional com o advento da modernidade, correspondendo à antítese do otimismo racionalista do Renascimento. Sob a ordem tradicional, o mundo parecia uma unidade inteligível, plena de significado e passível de ser compreendida em seus fundamentos básicos. De repente, não apenas o saber tradicional mostrava-se inútil diante da nova realidade social que emergia, como também caía por terra a possibilidade de unificar as pessoas sob um único sistema de pensamento, ancorado institucionalmente na Igreja Católica. O real, em seus diversos aspectos, transformava-se numa rede inextricável de fenômenos e relações, diante da qual o indivíduo não conseguia obter mais do que uma visão confusa e fragmentária. A alegoria barroca exprime esse estado mental e, ao mesmo tempo, a nostalgia por uma perspectiva mais sólida e totalizante, por uma ordem capaz de redimir o aparente caos da existência.
Essa visão dilacerada da realidade só se faria agravar com a erupção do capitalismo industrial e seus desdobramentos. Octavio Paz, em “Analogia e ironia” (d’Os filhos do barro), mostra como o romantismo, no início do século XVIII, funda uma visão do mundo baseada na analogia, que, criando relações de identidade entre seres díspares, estabelece uma teia de correspondências na qual a aparente incongruência do universo seria redimida[4]. Contudo, a analogia nunca supera de fato a alteridade; ela apenas a transfigura numa imagem conciliada. Mais do que isso, a visão analógica e seu desejo de projetar uma versão pacificada do mundo trai a consciência da irredutível heterogeneidade das coisas: “A poética da analogia só podia nascer numa sociedade fundada — e roída — pela crítica. Ao mundo moderno e linear e suas infinitas divisões, ao tempo da mudança e da história, a analogia contrapõe não a impossível unidade, mas a mediação de uma metáfora. A analogia é o recurso da poesia para fazer frente à alteridade”[5].

No expediente alegórico da poesia de João Filho, observa-se a cosmovisão analógica descrita por Paz. Em Auto da romaria, subsiste o desejo de dissolver as contradições do mundo no absoluto, chegando-se ao momento em que

agora, tudo é silêncio,
conexão dos contrários,
parte dos céus se derrama,
da terra sobe uma parte,
pela coluna que ata
nesse momento os cenários. (grifo meu)


Ao final do percurso da romaria, no poema “6 de agosto”, os céus baixam à terra e a terra se eleva às alturas, unificando todos os espaços. Aqui, a região perde seus traços distintivos, integrando-se a uma unidade transcendental, e toda forma de alteridade é superada por uma síntese maior.
Contudo, a alegoria, como expediente analógico, não deixa de ser um meio pelo qual se manifesta a consciência da impossibilidade de, no plano terreno, operar-se a síntese almejada pela perspectiva autoral. Segundo Walter Benjamin, a alegoria procura, por meio de um acúmulo vertiginoso de significantes, cacos de imanência, transmitir um significado que está além dos recursos expressivos e intelectuais humanos. Se a alegoria existe, é porque o transcendente não se faz sensível (porque daí teríamos o símbolo). Além disso, o discurso alegórico, buscando reconstituir uma unidade perdida, expressa em suas tramas o caráter compósito e fragmentário do real.
O poema no qual as contradições do procedimento alegórico são mais visíveis é a nona seção de “Em torno da venda” — “A venda por dentro”. Nessa série de poemas, a alegoria não se volta ao espiritual, mas ao passado, numa tentativa de se resgatar, por meio do trabalho da memória, a integridade semântica daquilo que chamamos “vida”. O eu lírico procura encontrar, na criança que ele foi e no adulto que ele se tornou, no passado rememorado e no presente vivido, um princípio de unidade que constitua sua identidade. Para tanto, é preciso recolher estilhaços de lembranças que, assim como as mercadorias na venda de uma cidadezinha do interior, não formam um conjunto coerente:
Serengas, peixeiras,
vianas e naifas,
facões, lambedeiras
— as lâminas várias;

pregos, parafusos,
quinas, estreitezas
— o roxo mais puro,
a dor mais espessa;

Perceba-se como, na segunda estrofe, uma nota subjetiva (“a dor mais espessa”) começa a infiltrar-se na enumeração dos produtos postos à venda, deslocando o discurso do âmbito da pura objetividade para o da memória afetiva. No meio desse “caos que açula”, tropeçamos na figura de João Galego, o pai do eu lírico; em seguida, a enumeração continua:
espátulas, tornos,
formões, discos, cintas,
cincerros, gangolôs
— falta coisa ainda:
(…)
coloratos, bombas,
nitroglicerina,
dinamite assombra
— falta coisa ainda:

O “falta coisa ainda”, quase um estribilho, expressa as limitações da memória e da linguagem em sua tentativa de reconstituir o real em sua integridade de significado. Na verdade, o que não se reconstitui é o passado como experiência do sujeito lírico, uma experiência agora dispersa e, em alguma medida, inacessível. O fato de o poema terminar justamente com o “falta coisa ainda” concede palavra final à insuficiência do discurso diante daquilo que se pretende exprimir:
balança, ouro a fio,
o metro que finda,
serrotes, barril
— falta coisa ainda.


“A venda por dentro” mostra que a venda, como totalidade, é mais do que a soma das mercadorias vendidas, ou seja: a mera enumeração dos múltiplos elementos que compõem aquele espaço não é suficiente para dar uma ideia do que ele significa para o eu lírico. Desse modo, podemos considerar a venda como uma alegoria de um mundo incongruente e multíplice, que não se apresenta como síntese, ainda que a linguagem procure, em vão, oferecer dele uma imagem conciliada. Já as mercadorias, além de representar os fragmentos de imanência que compõem o mundo empírico, são alegorias da própria ideia de alegoria — meta-alegorias, portanto —, na medida em que, por um processo cumulativo, tentam reconstruir uma totalidade impossível de ser reconstruída.
Assim, se por um lado, em Auto da romaria, encontramos a fé numa ordem superior capaz de dotar a realidade de significado, por outro, esbarramos às vezes na consciência da precariedade dessa tentativa de dar significação às coisas. As imagens que expressam tal precariedade são várias: “crença precária” (“A Gruta e o Morro”), “na terra e alma/ velha secura” (“Lamentação das almas”), “sonho pobre” (“Promessa de cera”), “estilhaços da fé” (“Romeiros”) etc. É como se o poeta se voltasse à aridez da terra e à pobreza da população como uma tentativa de se aproximar do essencial, dispensando o que há de excessivo e redundante na imanência (em “A venda por dentro”, sugestivamente representado por mercadorias). No entanto, junto ao essencial, ele encontra a carência, o insuficiente, a precariedade, o sofrimento, que nem sempre admitem a transfiguração metafísica. Num poema como “Romeiros”, em que a romaria dos vivos se encontra com a dos mortos, a tônica está dada não na dor como caminho da salvação, mas na dor como condição inegociável do humano, irredutível, o que encontra na miséria dos habitantes da região uma de suas faces mais cruéis.

João Filho supera as limitações do regionalismo literário por meio de uma visada alegórica sobre o universo regional. Porém, a retomada da alegoria repõe os conflitos do homem moderno com uma realidade que se apresenta como manancial de contradições. Aparentemente, há uma dupla fuga da modernidade: da cidade cosmopolita para o espaço regional e da poesia de origem vanguardista (os diversos modernismos) para as formas tradicionais. Entretanto, estamos diante de uma poesia essencialmente moderna, assim como a cosmovisão que a funda, uma vez que não se trata mais de expressar uma ordem que, supõe-se, já esteja evidente, cabendo à linguagem apenas manifestá-la; em Auto da romaria, cabe ao poeta reconstituir precariamente tal ordem dos escombros da tradição, sobre os quais se erigiu a modernidade.

Dante, embora num diferente grau de entendimento, compartilhava com seus leitores contemporâneos uma cosmovisão sólida, com base na qual era possível construir suas alegorias. No caso do escritor moderno, especificamente de João Filho, é preciso criar uma imagem ordenada do mundo a partir de uma transfiguração poética da realidade empírica. O fato de sua poesia demonstrar as contradições e dificuldades desse empreendimento só a torna ainda mais complexa e intrigante, expandindo as possibilidades de leitura da obra para além da temática metafísica. Portanto, Auto da romaria não se limita ao universo regional que lhe serve de matéria, nem à visão religiosa do autor. Como toda obra de arte digna do nome, o livro formaliza esteticamente a experiência humana, expressando dilemas existenciais interessantes por si mesmos, independentemente das soluções propostas pelo artista.
______
NOTAS
[1] CANDIDO, Antonio. “Literatura e subdesenvolvimento”. In: A educação pela noite. 6ª ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011, pp. 190-6.
[2] TOLENTINO, Bruno. “Janelas sobre o caos”. Bravo!, nº 29, fevereiro/2000, pp. 21-2.
[3] BENJAMIN, Walter. Origem do drama trágico alemão. Tradução João Barreto. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013, pp. 189-201.
[4] PAZ, Octavio. Os filhos do barro. Tradução Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac Naify, 2013, pp. 69-74.
[5] Idem, ibidem, p. 80.

Doutor em Literatura Brasileira pela USP. Autor de Pavão bizarro (poesia) e A narração dificultosa (crítica).


terça-feira, 4 de abril de 2017


A SOLIDÃO DO SANTO EM SUA SEDE:
ou A PERSISTÊNCIA VIVA DA MEMÓRIA
EM AUTO DA ROMÁRIA DE JOÃO FILHO


Whoever lights a light,
is the first to benefit from the clarity.
G.K. CHESTERTON

às professoras Ana Carolina Campagnolo e Marla Silva
porque, às vezes, podemos escolher a nossa cruz.

Após ganhar um dos mais importantes prêmios literários do país, o poeta João Filho poderia fazer como mais da metade dos escritores – ou aspirantes a tal – que conheço, passaria a viver de um marketing pessoal defasado, despreocupado com o próprio aprimoramento de sua escrita, legando ao público leitor não mais do que dois livros anuais carregados de lugares-comuns, versos desleixados e uma profusão de imagens toscas e sem nenhum sentido ou nexo com coisa alguma, apenas para ostentar eternamente a alcunha de “poeta premiado”.

No entanto, como grande poeta que é, João Filho não se deixou levar pela vaidade retumbante dos tolos, e, como nas antigas tragédias gregas que até hoje nos ensinam a viver, dedicou-se a um crescimento moral e intelectivo ainda maior, típico dos grandes heróis, ou dos poetas que nos deram esses grandes heróis. O resultado não poderia ser menos do que seu mais novo livro Auto da Romaria, que, ao lado de O Corpo Nulo, de Lorena Miranda Cutlak, e Natal de Herodes, de Wladimir Saldanha – todos lançados pela Editora Mondrongo –, compõem não menos que um verdadeiro milagre literário brasileiro, numa época em que boa parte de nossa literatura se afasta cada vez mais do que é realmente essencial.

Não se deve esperar menos de um livro de poemas, do que transmitir, aos seus leitores (através dos mecanismos mais diversos de que a poesia dispõe), o maior número possível de grandes ideias e temas, que devem ser recebidos pelas mais elevadas faculdades do espírito de quem os leem – ao mesmo tempo em que elevam tais faculdades. E se um poeta assim procede, então temos aí um grande poeta, fazendo uma grande poesia, pois um grande poeta é, segundo John Ruskin, aquele que mais corporificará, no conjunto de sua obra, o maior número de grandes ideias e temas. E ao escolher aquele que é o maior tema poético de todos os tempos, o próprio mito fundador do Ocidente, adequando-o à tradição popular de sua terra, e à memória de seus tempos de menino – só para dizer o básico –, João Filho, em seu Auto da Romaria, não pretende menos que ser um poeta maior a escrever uma obra que não se quer menos que grandiosa.  E, para isso, vale-se não só de um tema grandioso, mas esbanja um domínio técnico que não só o separa da maioria de nossos contemporâneos, bem como o aproxima de uma tradição que, em nossas Letras, remonta desde Gregório de Matos a Suassuna, mas que encontra sua voz maior em Alphonsus de Guimaraens, Jorge de Lima e Bruno Tolentino, com uma força que aumenta à medida que é desprezada por nossos mestres e críticos, e se renova quanto mais atacada e renegada ao canto dos esquecidos.

Um livro como Auto da Romaria não traz em seu tema e em sua forma não menos que um compromisso com a verdade, com aquela verdade que está comedida em toda religião, e vocifera em toda poesia que se preze: a de que não somos cães, nem devemos entrar de cabeça baixa nos cemitérios, como afirmara Petre Ţuţea. Na religião, evitamos o “desespero metafísico” das covas, e numa obra como Auto da Romaria, essa verdade nos é jogada à cara, verso a verso, pois como o próprio poeta afirma em um dos sonetos da série Nosso Senhor dos Passos: “certas coisas só podem ser vividas”, porque “a solidão do santo em sua sede”, como nos diz João Filho, não é muito diferente da “alma sedenta de si mesma”, como dissera Jorge de Lima, que todo poeta traz consigo. A travessia metafísica pela qual passa os santos não se faz maior ou menor do que os romeiros ou o próprio poeta – e vive versa –, muito pelo contrário, ambas são maneiras muito próximas de elevação pessoal e registro memorial, embora, na prática, se façam por meios, muitas vezes, diferentes.

De todos os elementos que moldam o grande arcabouço técnico deste livro, não há um em que João se apoie mais do que a memória, mas como ele mesmo deixa bem claro no prefácio de seu livro, não é apenas a sua própria memória, embora esse tom tão pessoal dê a este livro uma força vital e realista única, porque nenhuma grande arte pode fugir ou surrupiar a realidade, mas uma memória histórica que o próprio Cristianismo insere em todos nós. Por isso mesmo, toda procissão é memória; é a lembrança do sofrimento do Cristo, por exemplo, que é também o nosso sofrimento, pois todo sacrifício é troca, e o Cristo pregado à cruz, seu rosto, seu corpo, sua dimensão, não é senão a transfiguração de nosso próprio rosto, nosso próprio corpo, nossa própria dimensão ali pregados. Relembramos nos passos de Jesus os nossos próprios passos, na dor do Messias a nossa própria dor, e na Glória do Salvador a renovação de uma promessa que sempre se faz nova, porque ela nos dá algo com o qual é impossível vivermos: um sentido. Deus se faz maior quando desce à nossa condição e o livro de João deixa bem claro o quanto que a presença de Deus está em toda parte, não só naquilo que necessariamente se apresenta de natureza religiosa, como as igrejas, as imagens, ou os ex-votos, mas nas pedras, no vento, no calor do sertão da Bahia, nas águas do rio São Francisco; na dor, nas promessas, na fé (pouca ou inabalável); tudo é Deus falando, é Deus presente, é Deus conosco; é memória e é o agora.  

Diferentemente do Severino de João Cabral, que se perde e se anula ao buscar um caminho só seu, uma individualidade, achando-se somente quando se reconhece como mais um, num sofrimento coletivo, os romeiros e demais personagens de Auto da Romaria são diferentes, pois transformam uma dor comum numa busca pessoal, porque a dor de muitos foi suportada por um só, e, como queria Cruz e Souza: na dor, transcendentalizamo-nos. E é aqui, exatamente nesta troca e neste caminho, que reconhecemos uma miséria metafísica denunciada por Voegelin, mas não compreendida por Kant, confundida por Nietzsche e usada por Hegel, Comte, Marx e seus sequazes. Porém, todo o sentido, o mistério e a glória do Cristianismo se resumem aqui, nessa troca, nesse sacrifício, nessa tomada de lugar que cada um deve fazer, nessa cruz que deve ser retomada, devolvida aos ombros merecidos, e assim se completa, como João Filho escreve em Vozes anônimas em romaria, “vão muitas outras dores juntas” e reafirma: “Aquele Um, a fonte e a foz”, onde este “Um” estiver “ali está o Centro”, o sentido de tudo. E há mais sentido na crença do que na descrença, há tanta razão no homem ao conceber algo para fora dela, que pensar ao contrário é que seria uma grande burrice. Por isso mesmo, a força que a memória exerce neste livro, ou na procissão, é a mesma força daquela vida que se renova a cada dia, não por ela mesma, como no poema do Cabral, mas através daquilo que lhe dá não só um sentido, mas que é o próprio sentido em si e que, em Morte e Vida Severina, graças, àquela época, a certa inclinação ideológica de seu autor, Severino, convenientemente, se afasta, não sendo mais que um observador passivo e estúrdio.  Somos mais do que nós mesmos, e temos uma parte de nós para além desta matéria, e desta parte precisamos tanto; e se velamos, é porque há quem vele por nós.

Vejam, por exemplo, como tudo que eu quero dizer aqui se resume ao lermos um poema que não poderia ter melhor título, Romeiros:       

Vão os que sabem das chagas,
vão os que sabem das dores,
e da alegria que escava
a pedra dos pecadores.
Esses nascidos na estrada,
amargando o sol de todos,
mas sabem do que não salva
e do que salva os horrores.

Vão os que sofrem as léguas
das vigílias das distâncias,
a insônia daquela espera
mais aguda em sua andança,
deserto da noite extra
quando o fel no fel decanta,
o sol, a fera das feras,
faz o que quer no que planta.

O sol de dentro pra fora
martelando mundo e povo,
expõe em sua bigorna
o metal d’alma e seus dolos
– qual parte não apavora?
– qual brilho quer ser de novo?
Vão os que sabem das covas,
os romeiros sem retorno.

Lonjura de onde procedem,
o tempo esconde no mapa,
mas são os mortos que regem
os vivos em sua lavra,
uma romaria segue,
horizontes rumo à Lapa,
outra já não mais terrestre
além se eleva calada.

Os mortos seguem na frente,
os vivos vertem as horas.
Mortos? Mentir, não mentem,
os vivos queimam agoras,
os mortos são dissidentes
do tempo já sem manobra,
os vivos num movimento,
nele o cansaço vigora.

Vão os náufragos do pó,
os das ruínas dos céu,
sabem infernos de cor,
sofrem a vida a granel,
cobre-os a pele pior,
e todos eles são réus,
não do século sem dó,
mas do Velado sem véus.

Os estilhaços da fé,
as cisternas sem fundura,
os deuses de um deus qualquer,
a carne feita só fúria,
e sem sentido esmoler,
pois nada disso descuram
 – o real é seu mister –
os passos dessa procura.

Vão estes inumeráveis –
desejos, misérias tantas,
até na quietude ardem,
sabem que o vivido sangra;
sua primeira paragem?
Na Gruta, onde a luz descansa,
seguirão os indomáveis
seu fadário, estrela e canga.

ao mesmo tempo, a razão para tudo isso existir, encontra-se, por exemplo, naquilo que é relembrado nos poemas de Nosso Senhor dos Passos, porquanto, no Cristianismo, a memória nos empurra para o futuro... Vejamos o soneto X:

 “– A refletir o que da argila é sopro”
– diz a Voz. Quem a escuta sem favor?
“– Pois há maior nudez que a do corpo,
e o corpo é da alma um pobre andor,

quer a cada vez um capricho novo,
mas Quem daria um corpo sem amor?
A via é um sudário, lá – o topo,
o fim dos sacrifícios sem valor.

Na túnica inconsútil lançam dados?
As outras vestes rasgam sem pudor?
Quem verdadeiramente desnudado?

A Esperança sangrando se renova...”
– cala-se a Voz. Aguarda a luz transpor
e a morte ser somente a contraprova.

Embora o título deste livro faça alusão direta à linguagem teatral, não consigo concebê-lo para além da musicalidade que lhe é inerente. O Auto da Romaria tem um tom que tanto acentua a sua voz poética quanto a busca de um ritmo que lhe afirme as diversas referências de que faz uso: salmos, cânticos, ladainhas, óperas, cantatas; muita coisa neste livro é demasiadamente concebida como música; não havia de ser diferente, pois já dizia um velho poeta português – falando pela boca de um neoclassicista que ele mesmo inventara – que a poesia é a música que se faz com palavras. No entanto, não descarto, deste Auto da Romaria, a força da oralidade popular que pulsa tão forte quanto à precisão e à cadência rítmica que João Filho dá a seu texto, características muito próprias dos poemas populares daqui do Nordeste, e que é uma herança tão ibérica quanto às diversas manifestações religiosas que servem de inspiração para este livro. Não esperem, porém, que João tome de empréstimo uma entonação cabralina para estes poemas (o que não consistiria em um problema, é claro), embora, em certos momentos, ele até o faça, mas seria uma maneira de ver preguiçosa e reduzida, em meu ver. Por isso mesmo, há uma diversidade tão grande de formas e métricas, sustentando, como disse a pouco, um ritmo muito dinâmico e aprumado, que as redondilhas maiores e menores, de alguns poemas, ou os sonetos e terza-rimas de outros, não são mais do que adequações às ideias preteridas pelo autor – e não mecanismos de criação –, e que trabalham diretamente para a música contida nos versos de Auto da Romaria.

         Quem não conhece a cidade de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, que não por acaso recebe o epíteto de “capital baiana da fé”, não deixa de, para ela, ser transportado. Não tenho nenhuma dúvida de que essa seja uma das principais intenções do autor. A própria história da cidade de Bom Jesus da Lapa se confunde com a história de fé que ela tanto transborda, mas não fica só na história, onde desde o século XVII, com a descoberta da gruta às margens do Rio São Francisco e com as peregrinações iniciadas desde a época de Francisco de Mendonça Mar, Bom Jesus da Lapa tem uma geografia que muito se assemelha, para quem quiser ver e sentir, à Galileia de Cristo: não lhe faltam calor (e que calor), uma aridez quase desértica, plantas semimortas que se arrastam pela aridez da caatinga, um rio, uma gruta; tudo favorável à imitação daquele ambiente onde a maior história já contada pela humanidade aconteceu. João Filho não perde isso, pelo contrário, ele supervaloriza esse ambiente reforçando palavras como “pedra”, “vento”, “gruta”, “rio”, “seca”, “estrada”, “sol”, “claridade”, que se juntam a “andança”, “ardor”, “espera”, “chaga”, “dor”, “milagre”. A poesia se apresenta aqui como um meio de transporte, para que cheguemos mais rápidos através tanto da história quanto da imaginação, porque em todo momento nesse livro há um meio de transporte, lento, arrastado, mas significativo à longa jornada em busca de nós mesmos e de nossa salvação: paus-de-arara, barcos, veleiros, carroças, mulas, e, é claro, nossos próprios pés, que se arrastam, mas persistem, porque sabem de sua recompensa. A história é um meio de transporte, o mundo é um transporte, a imaginação é nossa maior nave... Neste livro tudo segue um curso muito delimitado e preciso: o rio o segue, as brenhas abertas entre os morros o seguem, as procissões os seguem, a fé segue-o inabalável, os leitores desse livro segui-lo-ão independentemente de sua crença, até porque a poesia é também transporte, e, ao fim da jornada, apenas os que souberam realmente o que buscar encontrarão: seja um verso, uma resposta, uma nova dúvida, não é à toa que o poeta, mais adiante nos fala: “Se ao fim de tudo não restar mais nada...”, e às vezes no meio dos caminhos costumamos deixar tudo, o poeta completa: “relembra que a lembrança é também dádiva”, pois mesmo o que nos é negado é também consenso.

         Grandes poetas têm essa capacidade que é evidente em João Filho, a de nos arrebatar para outro estado tanto de consciência quanto de êxtase. Com sua poesia não poderia ser diferente, pois, para mim, sua obra sintetiza a força e a segurança da tradição com a versatilidade e a engenhosidade empolgante das produções mais atuais e atuantes, prestando-se tanto à reflexão temática, bem como à multiplicidade técnica, e, por isso mesmo, se faz digna tanto dos grandes e antigos quanto dos novos mestres. Daí eu ter a certeza de que uma poesia assim só pode ser uma poesia conservadora, mas – permitam-me um imediato esclarecimento – não àquele conservadorismo preso à mimese paupérrima ou à total minimização de ideias e temas outrora grandiosamente trabalhados. A poesia de João Filho – e, como já disse, os poemas de Lorena Miranda Cutlack e Wladimir Saldanha, só para ficar na mais nova lavra – é um dos exemplos mais novos e mais perfeitos de valorização daquela que é a peça mais importante de toda poesia: a palavra.

Entretanto, antes que alguém aqui considere minha declaração uma “pérola” da obviedade, é sempre bom lembrar que, nos últimos quarenta anos da história de nossa poesia, a desvalorização de seu elemento principal foi algo sumariamente propagandeado e seguido com o mais feroz afinco, da mesma maneira que, mesmo criticando os antigos poetas, os quais viam nas artes plásticas um modelo de elaboração a ser seguido pelos donatários da literatura, cobriram-se da mesma desculpa da maioria dos supostos pintores abstratos ao se utilizarem do falacioso argumento da não necessidade da figuração para esconder sua total falta de habilidade, técnica e talento.

A palavra, na poesia de João Filho, entretanto, volta a ganhar aquela profundidade de significados que, desde Cabral e Drummond, e com a exceção de Bruno Tolentino  e Alberto da Cunha Melo, não se ouvia ecoar a algum tempo na maioria de nossos poetas que, com a desculpa de um sintetismo necessário ao mundo veloz e desafiador em que vivemos, precisava falar rapidamente ao tempo que imprimia em seu leitor uma gana de impressões indeléveis em sua mente tão ocupada, todavia, o resultado que se via era um emaranhado de vocábulos dispersos em versos soltos e descompassados que mais confundiam e enojavam do que ensinavam ou traziam alguma impressão no mínimo agradável. Mas João dá vazão a essa ideia e a faz funcionar, não porque é um “moderninho” melhor intencionado e sim porque é um técnico, ao mesmo tempo que se mostra um sensível observador do mundo e das inúmeras oposições às quais esse mundo se presta e, à sua maneira, evidentemente, um conservador. Conservadorismo que amalgama uma série de elementos primordiais que, trazida do passado, tem o papel de alicerçar novas e diversas maneiras de se compreender o mundo a se abrir novíssimo e gigante a cada época, a cada novo dia para qualquer poeta. É aquele conservadorismo que estava tanto em Pessoa quanto em Bandeira, em T.S. Eliot e Carlos Drummond, Auden e João Cabral de Melo Neto, nos sonetos Vinicius e nos versos de Bruno Tolentino e Alberto da Cunha Melo e também se encontra na mais nova e melhor safra de poetas dos últimos anos: Patrice de Moraes, Emmanuel Santiago, Nívia Maria Vasconcellos, Fabricia Miranda, Wladimir Saldanha, Érico Nogueira, Bernardo Souto, Marco Catalão, entre outros... e, claro João Filho. Não e à toa que, ao final de seu Auto da Romaria, o poeta nos conduza a este “eterno retorno” que os grandes temas e a tradição sempre promoverão e estarão dispostos a também nos arrebatar. E que começa assim:

A história foi contada,
mais alma do que chão.
– Termina aqui a estrada?
– Que borda esta manhã?

No horizonte da falta,
a luz que nela é órfã,
única e necessária
é a coisa que a exorta:

o caminho da volta;
regresso, mas sem fuga.
– A cada um seu Gólgota?
– Alma cansada de espumas.

Há uma casa que aguarda.
– Amar sem merecê-la?
– A história foi contada,
basta que reconheças.

E assim termina... ou recomeça:


Nasci antigo.
Bom Jesus da Lapa
                       nasceu comigo
Podia ser pior
                          e não ter nem chegado.
Todo caminho é um mistério.
                  Em que caderno amarelado
                          se perdeu o meu batistério?
                                 Amor de muito,
                                 afável conflito –
      catar palitos para brinquedos
                       no velho mercado,
                       a marmita na bicicleta,
                       a surra da matemática,
                       na imperícia das quedas
meu coração descura
          sua loucura atávica.

Mas Bom Jesus da Lapa
                              só me chamou
                      aos três anos de idade.
Assombro que não cessa,
                       primeiro voo  
ou alma que não sabe onde pousou?
Na porta da rua, na tarde imprecisa,
minha irmã valida
                    (presença sem resposta):
alguém passa, seu gesto se realiza
               na luz imposta –
               assombro que atravessa a minha vida,
               e me transporta. 



Salvador/Candeias, Semana Santa de 2017.