Mostrando postagens com marcador poema.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poema.. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de agosto de 2016

AFFONSO MANTA FALA A
ALBERTO LUIZ BARAÚNA
Para a professora Ligia Teles
  

Caminhando seremos. Ser é caminhar
– em viagens imóveis, cordilheiras,
todas as vidas são vidas inteiras,
que escapam sem regresso pelo ar.

Porque nasceram para isso: retornar.
Sigamos. Cada passo é um passo à beira
do que nos funda e finda de primeira
– as praias desvendadas pelo mar.

Esperando seremos. Ser é esperar:
nos vagões que nos restam de terceira,
no fluxo dessas noites passageiras,
insones e cansadas de passar.


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

ANTOLOGIA
  

Poucos poemas nos ajudam a viver,
são claros como o rosto que amamos.
Não pedem nada, só esperam ser achados.
Em silêncio, o pequeno sol de suas mãos
vem nos amparar feito uma pessoa.
Talvez nem mereçamos o seu lume
na rigidez sem fé de nossos dias.
Estão, ali, na página como no ser.
Menos que um salmo e mais do que qualquer poética,
esses poemas nos ajudam a morrer.


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

LÚCIA DELORME LENDO DOM FILIPE 



“Meu amor por essas margens?
Nem sei onde se alicerça,
mas se eu digo involuntário
a palavra não é essa.
Se eu digo vertigem, fado,
o não dito me atropela.

Vem de longe, vem do alto?
Por si próprio ou chamamento?
Esse amor tem nome claro
no invisível continente,
se algum barco for buscá-lo,
achará todos os ventos.

Continente constelado
de ilhas, naufrágios, idílios,
corsários de uma linhagem
mais velha que os velhos ritos,
cercados do mar alado
– o real é seu exílio.

Rabiscam na praia viva
mensagens lidas nas águas,
ondas sem idade brincam,
levam o que não se apaga,
e desimporta em que língua,
todas as línguas são válidas.” 

sábado, 19 de setembro de 2015

No aniversário dela, um pequeno presente para Luciane Amato, desentranhado de sua correspondência.  

12 –


Agora, Luciane,
o luto é profundo,
e desses enxames
que alegram o mundo,

agora, podemos
fruir juntamente.
Milagre do tempo
– aquele presente

ganhamos agora.
Aquele perdão
aceito sem hora;
é que a gratidão

não envelhece.
Podemos amar
o que tão cegos
não amamos lá.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

SUSTENTÁCULOS 


Há muitas belezas escondidas no mundo.
Sutis como os desenhos de areia e espuma na praia,
modestas – os reflexos da noite na avenida molhada.
O clichê dos contrastes: bem-te-vi no semáforo.
A monumentalidade efêmera
de nuvem sobre nuvem,
                              no céu da Barra.
Qualquer árvore.
Belezas tristes –
um velho atravessando um parque.
O silêncio inquieto quando a multidão se dispersa.
A solidão desses lugares.
Um cheiro
abrindo suas três infâncias
num ato – 
perfumes de luz que só você sabe.

Há muitas belezas escondidas no mundo:
elas, os santos, alguns anjos
evitam que o mundo desabe. 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

O EX-REAL & A ANTIPESSOA 


Desse lado da ponte, o ex-real
à beira da corrente, pende em surto;
a antipessoa, em espera igual,
é o espantalho do seu próprio fruto.

Tomaram a cidade num caudal,
erguendo e desabando viadutos;
abrir corações vivos é plural,
o deslimite é um projeto mútuo. 

Nas retinas da treva, o velho caos
instilam esse dois em duo-amputo;
ossadas da matéria e do verbal
espalham como pétalas e engulho.

O inferno aberto pelos dois é tal
que desse entulho rompe mais entulho
– e a vida, reduzida ao infernal,  
é o seu próprio cadáver insepulto.





quinta-feira, 30 de janeiro de 2014