sábado, 31 de dezembro de 2016

7. 



Dimensionar a vida por aquela estrela,
trilhando o céu primevo que nos antecede.

Discreta irredutível e desconhecê-la
não diminui seu reino altivo que nos mede.

O seu perfil sem mácula acompanha
as desistências, fugas e pilhagens,

ao descrever seu arco nas montanhas
e cintilar no instante das ramagens.

A luz ensanguentada que nos cobre,
escudo e gume da inocência, essa,

que bale entre ruínas e o seu dobre
dolorido assevera na noite a promessa,  

que brilha, lá no céu do tempo, e transverbera
no coração que leva essa ferida oculta.

Dimensionar a vida por aquela estrela e
no seu facho de luz lavar a alma insepulta.

A dimensão necessária, Mondrongo, 2014. 

   

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Do livro inédito Auto da Romaria:

ORAÇÃO A MEIO CAMINHO
Do romeiro José


Onde pude errar, errei
– foi tanto que já nem sei.

Nessa bifurcação dos
meus caminhos maiores, que
agora me desencontro,
soletro esta reza amarga,
Deus meu!, tão mal balbuciada,
num genuflexo tonto,
que acabo dobrando a carga.

Neste dia, que amanhece
nublado, e se autoengana,
a luz que mais se entristece
é dolorosamente humana.

A grave alegria de ser,
que Tu nos deste, Senhor, é
o secreto sussurro do
vento, no Largo da Sé.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A memória é a irmã menor da alma.

Se lembrança fosse água, a memória de um único homem provocaria outro dilúvio. 


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Um poema de Baldomero Fernández Moreno. Mais poemas do grande argentino, aqui: http://amediavoz.com/fernandez.htm e aqui: http://www.poesi.as/Baldomero_Fernandez_Moreno.htm 
Quem desejar conhecer um pouco da vida e obra do poeta, não deixe de ver o blog de Pablo Anadónhttp://eltrabajodelashoras.blogspot.com.br/search?q=Baldomero+Fern%C3%A1ndez+Moreno 



O PROTELADO
       Friedt fala

De repente, feito breve chicotada,
meu nome, Friedt, estalou na aula.
Eu me pus de pé, e um pouco trêmulo
avancei pra mesa, entre as carteiras.
Era o último exame do curso,
e o que eu tinha mais medo: a gramática.
Fiz girar, decidido, o tal globo,
as dezesseis bolinhas do programa
nele ressoaram mortalmente
e um eco levantou-se em minha alma.
Extraí dois: advérbio e substantivo.

Deram-me pra escolher uma das duas
e escolhi a segunda. – O que é o nome? –
disse-me um tal e me olhou na cara.
Senti logo um suor por todo o corpo,
a boca ficou seca, bem amarga,
e compreendi, com um terror crescente,
que do nome eu não sabia nada.
Remexi a memória, mas em vão,
fiquei, em absoluto, sem palavras.

E comecei a ver a casa em que morávamos:
o caminho de areia, certa planta,
meu irmão pequeno, meu cãozinho,
o chá com leite, o doce de laranja,
que alegria brincar naquelas horas!
E sorria enquanto recordava.
– Senhor, senhor! – rugiu a voz terrível,
– o nome substantivo é batata!
Voltei à realidade: sobre a mesa
os dedos de um senhor tamborilavam,
tranquilamente cochilava um outro,
o terceiro bebia de uma chávena.

Estava muito quente. Eu tenho uma
cara redonda, ingênua, avermelhada,
olhos tristes, os lábios carnudos,
cabelos loiros, franca a risada.
Eu queria brincar, não fazer uma prova,
e fazê-la outro dia, até de madrugada.

Escureceu-me a vista de repente,
os professores já me desdenhavam,
o globo adquiriu proporções
gigantescas, fantásticas,
ouvi como entre sonhos: ó, senhor,
pode sentar-se... – E chorei mil lágrimas. 


UN APLAZADO
        Habla Friedt


De pronto, como un breve latigazo,
mi nombre, Friedt, estalló en el aula.
Yo me puse de pie, y un poco trémulo
avancé hacia la mesa, entre las bancas.
Era el examen último del curso
y al que tenía más miedo: la gramática.
Hice girar resuelto el bolillero
Las dieciséis bolillas del programa
resonaron en él lúgubremente
y un eco levantaron en mi alma.
Extraje dos: adverbio y sustantivo.

Me dieron a elegir una de ambas
y elegí la segunda. —¿Y qué es el nombre?
díjome uno y me asestó las gafas.
Sentí luego un sudor por todo el cuerpo,
se me puso la boca seca, amarga,
y comprendí, con un terror creciente
que yo del nombre no sabía nada.
Revolvía allá adentro, pero en vano,
me quedé en absoluto sin palabras.

Y empecé a ver la quinta en qué vivíamos:
el camino de arena, cierta planta,
el hermano pequeño, mi perrito,
el té con leche, el dulce de naranja,
¡qué alegría jugar a aquellas horas!
Y sonreía mientras recordaba.
—¡Pero señor —rugió una voz terrible—,
el nombre sustantivo, una pavada!—
Tiré a la realidad: sobre la mesa
los dedos de un señor tamborileaban,
cabeceaba blandamente el otro,
el tercero bebía de una taza.

Hacía gran calor. Yo tengo una
cara redonda, simple, colorada,
los ojos grises y los labios gruesos,
el pelo rubio, la sonrisa clara.
Yo quería jugar, no dar examen
darlo otro día, sí, por la mañana...

Se me nubló la vista de repente,
los profesores se me borroneaban,
adquirió el bolillero proporciones
gigantescas, fantásticas,
oí como entre sueños: Señor mío,
puede sentarse... —Y me llené de lágrimas.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Do livro inédito Auto da Romaria, que vem aí:


NOS CAMPOS DO SÃO FRANCISCO
Para Naylor Miranda


I

A sua feiura seca
(nos campos do São Francisco,
onde o branco é morte inteira e
resplende por entre avisos),
esse território estranho
que não desejo e cultivo.

A sua plástica e letra
(dureza do compromisso,
a verdade verdadeira)
não respiram sem motivo.
Nessa carência, qual ganho?
Perder pra se manter vivo.

Tranço e destranço clarezas,
nos campos do São Francisco;
clarezas de sede e areia,
areia ao menor suspiro.
O que não tenho e barganho
– a sua luz mais difícil.




quarta-feira, 21 de setembro de 2016

EPITALÂMIO
                                                     Para Márcia e Luís Hamilton


Musas latinas, musas gregas, musas
do velho Olimpo e do moderno mundo,
com alto sopro bafejai-me a lira
e dai-lhe o sentimento mais profundo.

Tenho a cumprir nobre missão de bardo,
devo cantar o amor naquele instante
miraculoso, antigo e sempre novo,
de transpassar em luz o peito amante.

Hoje Márcia gentil, neta de Horácio
(poeta ele também, por seus cabelos
de argêntea messe, e ardente coração),
une-se a Luís Hamilton. Só de vê-los,

sinto surdir de oculta fonte o som
de música celeste, que às esferas
sublimes reconduz o ser humano,
e impregna de doçura as próprias feras;

o som da força cósmica, movente
do sol e das estrelas, conhecida,
que o florentino pôs em nobre verso,
e no meu tosco verso eis refletida:

o som do amor, o som do ameno grito
melodioso e santo e grave e jovial,
dramático, dolente, sobre-humano,
trazendo à vida uma razão geral.

Vai, Márcia, sê feliz, e teu esposo
contigo de mãos dadas, tempo afora,
um só sejam os dois, de tal maneira
que pouse a eternidade em cada hora.

Vosso himeneu, dos astros protegido,
seja lição de bem amar, oferta
a quantos, imaturos, desnorteados,
em vão tentam seguir a rota certa.

O sonho em vós se cristaliza e assume
o contorno sensível da existência.
Cada palavra e beijo que trocardes,
dos deuses conterá a pura essência.

Aqui vos deixo. Aqui vossos amigos,
os da alegria ritos celebrando,
despedem-se de vós. Eia, a caminho.
Tende por certo: amar se aprende amando.

Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,1988, pp.1048-1049

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Do livro Dicionário amoroso de Salvador, Casarão do Verbo, 2014.

Ba-Vi

                Rivalidade que se perde na noite dos tempos. Qualquer dado, estatística que você for verificar, cuidado. O torcedor é sempre um fanático, e, mais do que óbvio, tenderá para o time dele, isto é, puxará a brasa para sua sardinha.
Algum gaiato espalhou que se macumba ganhasse jogo o Ba-Vi sairia sempre empatado. Eis aí uma grande inverdade. Os orixás também torcem e muito santo faz sua fezinha. Os dois times, Bahia e Vitória, podem estar caindo pela tabela no campeonato brasileiro, e quando conseguem se manter ou chegam lá no susto, mas aí... o Ba-Vi entra em campo. A torcida do time vencedor transformará o domingo à noite num..., num... Calma, estou procurando um termo apropriado, uma palavra que defina a zoeira, a arruaça, a baderna, e o ego superinflado do torcedor. Quem vencer se considerará um time insuperável. Numa situação dessas, escutei um taxista tricolor dizer que “pode vir a seleção que vier, a gente quebra”. É por aí.
O Ba-Vi é sempre superlativo, isto é, ba-víssimo! O ego dos torcedores é maior, bem maior, do que a Fonte Nova, reconstruída, aliás. Dizem que o torcedor do Ba-Vi durante o jogo não se entrega, aguenta o suspense, as falhas ou acertos do juiz? Que nada! Ele enfarta, sai na peixeira e mata a mãe! Os torcedores de um Ba-Vi são como água e óleo. Não há uniformidade possível. Em hipótese alguma um deixará de sacanear o outro, nem em enterro. Pior para o morto.
O ápice desse excesso é um final de campeonato. Não importa qual. Você verá homens duros — que perderiam um braço sem dar um pio — chorarem feito menino buchudo que lhe roubaram o doce. Depois do último apito, a cidade se transforma num grito só.
É homérico e minimalista ao mesmo tempo. Distingo. Durante o jogo é batalha campal. Após a partida, mal a manhã pôs o nariz pra fora da noite, escuto daqui da varanda, os porteiros e moradores detalharem lance a lance em detrimento do perdedor da vez. Se revidar a coisa se agrava, mas nem adianta.  É Já-ia de um lado, Vice-tória do outro, infinitamente. E isso é só o começo. A inventividade para sacanear o perdedor da vez é sem tamanho. Desse modo, é preciso exemplificar os primórdios da rivalidade. O baba.         
                Um baba decide masculinidades e, nos tempos que correm, feminilidades. Evidencia, na aparente descontração, uma guerra íntima de egos, de jogadores de fim de tarde ou finais de semana. Se o Ba-Vi é um épico, o baba é o drama em miniatura. Se num baba você tomou aquele drible vergonhoso, é provável que herde traumas que nem Dr. Freud resolverá. O esportista amador, é claro, não tem o tempo e a dedicação de um profissional, mas mentalmente é um Pelé. Faz lançamentos em profundidade como um Zico. Possui a classe de um Bobô. O melhor, no entanto, é o pós-baba. O cenário? É óbvio: um boteco, com a narração hiperbólica de feitos incomuns. Um gol de canela se transforma em precisão milimétrica; chutão na zaga em barreira intransponível. As metamorfoses são impagáveis, e a assistência nem faz que acredita, pois só escuta a si mesma enquanto se afoga em cerveja e utiliza o tira-gosto como tábua de salvação.
Acima de qualquer suspeita ou pedantismo, o Ba-Vi é uma questão metafísica. Está além de explicações racionais. É feito a vida — radical! Ou é ou é. Não há meio termo. Não há registros de alguém que nasceu Bahia e virou a casaca para o Vitória, ou vice-versa. Não há porque é uma ofensa pessoal, se fizer isso, morre.  


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Do livro inédito Auto da Romaria:

PRIMEIRO ARCO 


Podia ser pior
            e não ter nem nascido.
E desde já eu agradeço
                essa beleza pobre,
o requinte rústico, o calor infernal,
e a ausência de bibliotecas.
                     Se bem pesado,
adquiri um realismo inútil,
bicho que disfarça seus caninos
                                para menos ferir.
                         E de que me serviu o São Francisco?
Imagem num postal,
                           metáfora de rio,
e a fome perigosa dos mergulhos.
Mais de trezentas romarias e esta fé que titubeia
(aí, a culpa é minha).
               E esse menino contínuo, não cede
e, às vezes, extrapola
com ruas poeirentas, caieiras, olarias, campinhos.
Seu excesso de luz que transforma
                                               ou cega,
                                         a depender.
E nem posso tirar daí minhas vergonhas,
alguns amores, que vitórias?, vícios –    
como varrer do coração o coração?



domingo, 28 de agosto de 2016

CARTA A CARPEAUX NUM BICO DE TUIM



Otto, vai por mim: 
pena aqui não paga
se não for de tuim.
Certo é que era o Braga

em Copa, ou na vaga
de Itapemirim...
Pena aqui não paga:
não és benjamim.

Aqui, só a inveja,
só ela é sistemática.
Certo é que era o Braga,
Otto: ai de ti!

Vão de lauda em lauda,
vão tintim por tintim:
a cinza enfim purgada
em pira de pasquim.

Pena aqui não paga:
não és – é Benjamin!
Faz-se um ora-veja:
Otto plagiava!

Plagiava? Sim,
vá lá que seja...
Mas, o que mais peja
é tanto bem-haja.


sábado, 27 de agosto de 2016

Do livro inédito Auto da Romaria:

CANÇÃO DAS COISAS ACONTECIDAS
No Bar Canoas


Saber que não se desfaz,
machuca do mesmo jeito,
a dor de saber não vai
curar a dor de ter feito.

Fotografias sem nome, a
moça nos olha de lado,
como quem diz que o seu onde
é um presente parado.

Mas embriagada de luz,
a moça não desconfia
que a vida à vida seduz,
além das fotografias.

As coisas acontecidas
não desacontecerão,
pois sabe a moça que a vida
é vida mesmo que não. 

domingo, 21 de agosto de 2016

AFFONSO MANTA FALA A
ALBERTO LUIZ BARAÚNA
Para a professora Ligia Teles
  

Caminhando seremos. Ser é caminhar
– em viagens imóveis, cordilheiras,
todas as vidas são vidas inteiras,
que escapam sem regresso pelo ar.

Porque nasceram para isso: retornar.
Sigamos. Cada passo é um passo à beira
do que nos funda e finda de primeira
– as praias desvendadas pelo mar.

Esperando seremos. Ser é esperar:
nos vagões que nos restam de terceira,
no fluxo dessas noites passageiras,
insones e cansadas de passar.


quinta-feira, 18 de agosto de 2016



ANTOLOGIA
  

Poucos poemas nos ajudam a viver,
são claros como o rosto que amamos.
Não pedem nada, só esperam ser achados.
Em silêncio, o pequeno sol de suas mãos
vem nos amparar feito uma pessoa.
Talvez nem mereçamos o seu lume
na rigidez sem fé de nossos dias.
Estão, ali, na página como no ser.
Menos que um salmo e mais do que qualquer poética,
esses poemas nos ajudam a morrer.


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Poema do livro inédito Auto da Romaria

A PEDRA QUE SOA


Depois do Cruzeiro,
a pedra que soa,
e soa o destino
de qualquer pessoa.

Quem bate, quem bate,
e quem vem bater?
O medo que dá
é não responder.

Mas crendo ou não crendo,
esperam um sim,
se a pedra se cala...
vislumbres do fim.

Subir para ouvir
(na árdua subida
perigos de quedas)
o sino da vida.

Quem escutará
– silêncio da sorte –
a pedra cifrar
sua própria morte?

E sobem e sobem
no tempo, no morro,
todas as idades
procuram socorro. 

E batem e batem
na rocha cansada,
já gasta de anos
foi humanizada.

Sibila de pedra
só diz sim ou não.
Soa dos dois lados
do meu coração.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A Romaria de Bom Jesus da Lapa, interior da Bahia, minha cidade natal, acontece há exatamente 365 anos. O poema abaixo faz parte do livro inédito Auto da Romaria:

6 DE AGOSTO
Para Person Ramos de Araújo

Não repare no caudal
que transborda de outras épocas,
nas multidões que deslizam,
misturando tantas cepas,
que acompanham o andor
em romaria sem pressa.

Não ouça o coro de vozes:
rogo, súplicas, lamentos,
murmúrio só confessado
nesses corações adentro  
– luxúria, orgulho, inveja,
pecados envelhecendo.

Não repare os pés descalços,
penitências, sacrifícios,
o corpo vencido em lágrimas,
o sofrimento castiço,
a devoção sem palavras,
não repare em nada disso.

Mas guarde um quadro completo
do caudal sem calendário,
apesar do mês de agosto
ter o seu dia esperado.
Quem espera sempre alcança,
verá que não mente o adágio.

Mais do que os olhos levante
seu espírito bem alto,
acima desses rumores,
de tudo que for boato,
do que é matéria palpável,
mas está além do tato.

Movido por esse olhar,
acima do andor repare,
enquanto o caudal se escoa
pelas ruas da cidade
– se o tempo fica suspenso,
o espaço também se abre:

agora, tudo é silêncio,
conexão de contrários,
parte do céu se derrama,
da terra sobe uma parte,
pela coluna que ata
nesse momento os cenários.














domingo, 31 de julho de 2016

AGOSTO, É SEMPRE AGOSTO



Agosto, é sempre agosto quando morro,
e doer é um sol que não tem sombra,
clareza negativa sobre as ondas,
que não cabem nas dobras do meu corpo.

Deitado nas areias do que sofro,
o que não digo soa como afronta – 
num dos lados do ser o ser é contra,
e as praias afogadas sem socorro.

Na margem, do outro lado, escuto rogos,
já não sabem Quem é que lhes responda,
e o abismo das vozes se prolonga.
Agosto, é sempre agosto quando morro.