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domingo, 8 de janeiro de 2017

Poemas d'A dimensão necessária traduzidos para o inglês por Tiffany Higgins. Aqui: http://ghosttownlitmag.com/joaofilho 

 TRANSLATED BY TIFFANY HIGGINS


SALVADOR, 1996-2013

Dos acidentes que a modelam
em luz e sal, essas escarpas
são os desenhos que mais pesam,
a vida em queda dos sem mapa.

Ali do alto, que é abrupto,
a cidade é curva contínua,
sinuosidade negativa,
abre-se em praias e ravinas.

Disseram gorda em seu amplexo,
digo salitre, vento Atlântico:
salga e apodrece em paradoxo.
Aqui se canta um velho cântico:

lá no São Bento, anjos mulatos;
em toda cúpula e pilastra
pesam arcanos e Evangelhos,
da vida menos a mais vasta.

No Santo Antônio Além do Carmo
o casario nada ensina;
sim, a não ser o som amargo
do que ruindo contamina.

Tudo externado? Não o âmago,
por isso engana quem a vê
cidade-entrega, as cores gritam
em cada esquina o seu não ter.

A precisão só vem de cima—
luz em ladeiras, luz marinha,
a luz em flor, a que combina
a dor do nu, o mel da vinha. 


SALVADOR, 1996-2013

Of the accidents that sculpt her
in salt and light, these escarpments
are the designs with most heft,
the life that lies in wait for those without a map.

Up there on high, steep,
the city’s continuous curve,
a negative sinuosity,
opens in ravines and shores.

They called her amplitude portly,
I say saltpeter, wind off the Atlantic.
Paradox, it both preserves and rots.
Here is sung the old sea shanty.

In the church of Saint Benedict, mulatto angels,
in each cupola and pilaster
incline archangels and gospels
of a life less or more vast.

In the parish of Saint Anthony Beyond the Carmo
the colonial row houses teach nothing—
well yes, not-being, the bitter sound
of what, collapsing, corrupts.

All’s external? Not the core. Whoever
thinks they see the city, pleasantly delivered,
is deceived. On each corner colors scream
what you won’t have.

Precision descends only from above—
light on the alley slopes, maritime light,
light in flower that combines
the pain of the nude, the honey of the vine. 



CAPELA DO HOSPITAL SANTO ANTÔNIO
         Para Claudio Sousa Pereira

Saiu do século ao entrar
na dimensão do amor mais limpo:
servir. Daquela claridade
que a devoção impõe aos puros.

A vida inteira num só gesto:
servir. Acorde se estendendo
(quem O desfere?) além dos círculos
de nossas noites ordinárias.

E que instrumento te moldaste!,
em que o rumor, reino tão frágil,
de nota em nota condensou-se
em menos fel e mais altura.

Disso se trata: dar ao fardo
secreto e anônimo de muitos
a proporção de outra promessa.
Quando pedir é maravilha,

de porta em porta a mão que planta.
Força de flor—perfuma e sana,
conforme a água do seu vaso,
às vezes barro, às vezes sombra,

espera sempre. Vê: precário
artesanato ao contorná-la.
Aqui estão teus ossos, dulcíssima.
É quando o pó alumbra em dom. 


CHAPEL OF ST. ANTHONY’S HOSPITAL
for Sister Dulce Pontes, the Good Angel of Bahia

You emerged from the century to enter
the dimension of love that is most clean:
to serve. From the clarity
that devotion imposes upon the pure.

The whole of life in a sole gesture:
to serve. You wake up extending yourself
(who sets you going?) beyond the circles
of our ordinary nights.

And what an instrument you molded!
in which discord, precarious king,
note by note condensed
into less gall and more lift.

The matter’s this: to grant the secret
and anonymous burden of many
the proportion of another promise.
When to implore alms is a marvel,

door to door the hand that plants.
Force of flower, it perfumes and cures
conforms to the water of its vase—
at times clay, at times shade—

It always awaits. See how precarious
is the handicraft that lends it contour.
Here are your bones, o sweetest.
When this dust illumines into gift.

Translator’s Note on “Chapel of St. Anthony’s Hospital.” With few resources, and by asking for funds, Sister (Irmã) Dulce Pontes almost single-handedly organized the construction of the hospital, which now daily serves thousands free of charge in Salvador, Bahia. She devoted her life tohelping the poor (1914-1992, beatified 1991).


FROM A FONTE VERTICAL

Rezei, saí. Vou de ônibus. Ponto lotado. Já foi
pior, pensei. Que faço ou que farei me queima.

Conheço aquela mulher, vai cansada: —Ei, olá! Digo: —Oi.
Fico em pé, espremido, mas a voz, sim, teima,

a voz, sem trela (não, não deveria sair do São Bento),
não vai me abandonar, querela que não cessa.

No avança-para do ônibus, luto (abafado e sem vento)
e apanho dos mistérios (câimbra) da promessa,

do já sabido inegável, refeito a suspiro e exaustão,
das vertigens do corpo e os tumultos cardíacos,

esse intervalo tão frágil que exploro sem (troco de mão)
recursos, aferrado no meu tom maníaco.

Depois da curva, o oceano desfralda-se, quero e deliro
nesse rompante em levantar o véu de tudo,

fracasso. Desço na orla, o mar chama-me. Não vou. Respiro
a transparência absoluta e quedo mudo. 



FROM THE VERTICAL SOURCE

I prayed, went out. The bus stop, packed. It was worse before,
I thought. What I’m doing or what I will do is burning me.

I know that woman who says, fatigued: "Hey there!" I reply "Hi."
I stay standing, squeezed in, but the voice, yes, insists

without letup (no, I’m not getting off at Saint Benedict)
it’s not going to let me go, the quarrel without cease.

In the bus’s stop-and-go, stuffed in, craving a breeze, I struggle
and I’m catching mysteries (cramp!) of the promise—

the already known, undeniable, refashioned as sighs
and dizziness, cardiac tumults

this fragile interval I explore (now changing hands)
without stratagems, my persistent tone of the maniac.

After the curve, the ocean unfurls, I desire the delirium
of this outburst that lifts the veil from everything,

I go down to the shore, the sea calling me. I don’t go. Staying
quiet, I breathe the absolute transparency.

  
NITIDEZ SUBMERSA

Nos sapatos confortáveis
um pouco velhos e gastos
a fuligem das cidades
redesenha o seu mapa.

Não me venham com saudades,
sombras, vultos e fantasmas,
o peso e a profundidade
das coisas não nos sufocam.

Dos caminhos caminhados
—avenidas, becos, praças—
multidões tumultuosas
na fuligem dos sapatos.

Pó do mundo respirado
em seu tédio corrosivo,
não escapam os voos altos
das naves mais arrojadas.

Na verdade, nada escapa.
É preciso a cada istmo
contra essa névoa cegante
renovar o gesto limpo,

porém não lave os sapatos,
não porque registre tantos
itinerários, andanças,
mil labirintos urbanos, a

fuligem aí pousada,
cartografia amorosa,
indica veios, filões
dessa nitidez submersa.

Alargue as tuas pupilas:
paciência ao inspecionar
cada trecho dessas nódoas;
nos interstícios, estrias,

nas grafias do diáfano,
se entrevê pela fuligem
a clara sustentação
dos fios frágeis do mundo.
  

SUBMERGED CLARITY

On your comfortable shoes,
a bit old and broken in,
the soot of cities
redesigns its map.

The shoes don’t come to me with nostalgia,
shadows, figures, phantasms.
No, the weight and profundity
of things won’t suffocate us.

From well-trodden paths
—avenues, alleys, plazas—
crowds’ tumults
in shoes’ soot.

Dust of the breathed-in world,
its corrosive tedium.
Yet they can’t escape the higher flights
of more daring ships.

In truth, nothing escapes.
Each isthmus is needed
against this blinding mist
to renew the clean gesture,

So don’t wash those shoes,
not because they register
so many itineraries, wanderings,
a thousand urban labyrinths, this

soot already a dwelling,
amorous cartography,
indicates lines, veins
of this submerged clarity.

Widen your pupils:
have patience to inspect
each segment of these stains,
stretch marks in the interstices,

handwriting of the diaphanous:
delivered through soot,
the clear sustenance
of the world’s fragile threads.


Tiffany Higgins is the author of The Apparition at Fort Bragg (2016), an e-chapbook, winner of the Iron Horse Literary Review e-single contest for a long poem, selected by Camille Dungy. Her book And Aeneas Stares into Her Helmet (Carolina Wren Press, 2009) was selected by Evie Shockley as winner of the Carolina Wren Poetry Prize. Her poems appear in Poetry, Massachusetts Review, and other journals. Her translations of Rio poet Alice Sant’Anna’s poetry, Tail of the Whale, are available as a chapbook from Toad Press (2016).
  







segunda-feira, 23 de novembro de 2015

PASSEIO SENTIMENTAL

Let us go, then, you and I...
T. S. Eliot
1

Não se apieda de mim meu coração...
Um exórdio exigente. Segue em dúvida:

Com essa bela chaga vim ao mundo;
foi toda minha herança...Depois cala,

abandona os ensaios de lirismo,
e sai a caminhar

como quem dá um adeus definitivo
ao impossível com um ricto póstumo.

2

Caminhemos, meu cão, sim, caminhemos...
(Vozes alheias ainda o acompanham.)

Na verdade, são três os cães que o seguem.
Os cachorros saltitam fratricidamente,

Porém, o Zoilo corre atrás dos quero-queros.
O areal se derrama sem limites

e o momento é propício. Na ribeira reina
a solidão feliz: plantas e pássaros.

É paz fingida o silêncio da hora?
Se o coração nega, o esplendor se adensa.

3

O poente é cegante com seu ouro
e para ele o céu é ócio puro.

A divisa intocada do verão – 
a andorinha o deleita numa imagem:

baixando como um dardo para o espelho
do rio quase imóvel,

bebe a ínfima gota que a sacia
sem deter seu voo, sem machucar a flor d’água. 


Ricardo H. Herrera, poeta, ensaísta, tradutor nasceu em Buenos Aires, em 1949. Seus últimos livros são El espíritu del páramo. Cien poemas 1977-2009 (2011); En la paz de la página (2012); Cuestión de luz. Diecisiete poetas argentinos (2013); A los antiguos lobos de las musas. Ensayos elegidos 1987-2012 (2013); El latido de un día (2015). Desde 1999 dirige a revista-livro semestral Hablar de poesía – http://hablardepoesia.com.ar/  Recebeu o terceiro Premio Nacional de Ensayo Literario (1988), o segundo Premio de Poesía La Nación (1988), o Premio Academia Argentina de Letras de Ensayo (1996), e o prêmio Traduzione Libero Bigiaretti Città di Matelica (1996), e, em 2014, o prêmio Rosa de Cobre, reconhecimento da Biblioteca Nacional pelo conjunto de sua obra. Os excertos do poema aqui traduzidos (ao todo são 21) saíram no número 30 da revista Hablar de poesía. 


PASEO SENTIMENTAL

1 

No se apiada de mí mi corazón...
Un exordio exigente. Duda y sigue:

Con una hermosa herida vine al mundo;
 Después calla,

abandona su ensayo de lirismo
y sale a caminar,

como quien da su adiós definitivo
a lo imposible con un rictus póstumo.

2 

Caminemos mi perro, caminemos...
(Aún lo escoltan las voces de los otros.)

En realidad, son tres los perros que lo siguen.
Los cachorros retozan en luchas fraticidas,

en tanto el Zoilo corre tras los teros.
El arenal desborda los confines

y la hora es propicia. En la ribera reina
la soledad feliz: plantas y pájaros.

¿Finge paz el silencio de la hora?
El corazón lo niega, ahonda el esplendor.

3 

El ocaso lo ciega con su oro
y el cielo es ocio puro para él.

Emblema del día intacto de verano,
la oscura golondrina le regala una imagen:

desciende como un dardo hacia el espejo
del río casi inmóvil,

bebe la ínfima gota que la sacia
sin detener su vuelo, sin dañar el cristal. 



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Mujer música


Yo pretendí prenderla en sólo un gesto 
que fuese inmaterial, también tangible.  
Lo intenté con un libro —el sueño abierto 
y tenso, atento al sol de lo invisible. 

Busqué cosas menores, más modesto: 
una mañana urbana y luz posible.  
Todo fue inútil: mi deseo abierto 
y oscuro y siendo, en cambio, ella tangible, 

el cuerpo albo, desnudo, aquí, en la tarde... 
Ahora me concentro en no fijarla 
en pauta o pensamiento para darle 

el ritmo necesario del que calla.  
La música la envuelve sin alarde 
mientras ella camina por la sala.



Joâo Filho. En A Dimensão Necessária, Ed. Mondrongo, Ilhéus-Bahia, 2014. Versión de 
Enrique García-Máiquez http://egmaiquez.blogspot.com.br/ 


3 — Uma mulher toda música
  

Eu pretendi colhê-la num só gesto,
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.

Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível

o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe

o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala. 

2007

terça-feira, 2 de junho de 2015

NOTA PRELIMINAR

E, aqui, estou de novo, dia a dia,
a xícara bem próxima, hesitando
se era esta mesmo a vida que eu queria.
Digo que sim e que não, mas fumando
a decisão se vai como uma trilha
de fumo azul, sutil, distante,
em minha mão a cinza já demora
(minha vida se iguala à cigarrilha
que se fuma sozinho, interrogante).
O sol, a praça, esse sorriso, fora,
de uma mulher que passa ensimesmada
dizem que sim, talvez, que nada
além de poeira gris e ar azulado... E    
na boca o gosto do café gelado.


Pablo Anadón. El trabajo de las horas (2006).

 NOTA PRELIMINAR

Y aquí estoy, nuevamente, todavía,
frente a un pocillo de café, dudando
si era ésta la vida que quería.
Diga que sí o que no, fumando
la decisión se irá como un hilillo
de humo sutil, azul, distante
y quedará en mi mano la ceniza
(mi vida se parece a un cigarrillo
que se consume solo, interrogante).
Afuera, el sol, la plaza, la sonrisa
de una mujer que pasa ensimismada
dicen que sí, tal vez, que nada
sino polvillo gris y aire azulado...
Y en la lengua el sabor del café helado.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

π

Não, a vida não me negou nada,
não me deixou de dar a minha parte,
de tudo um pouco para eu seguir
meu caminho - luz e calor.

Histórias de que me lembro comovido,
canções da minha terra natal,
velhas festas que os padres oficiam
e festas novas, com música diferente.

Num lugar distante, comovido
pelo milagre universal do dia novo,
velhos invernos embalados pelo canto
do trenó que se afasta bosque adentro.

A primavera súbito irrompendo,
o mar e os rios rugindo à minha porta,
os sapos coaxando lá no pântano,
a resina escorrendo no tronco das árvores.

Tempestades de verão, amoras, cogumelos,
trilhas orvalhadas em meio à relva,
as alegrias e provações do pastor,
lágrimas derramadas pelo livro favorito. 

Dor, amargura, desde cedo,
sonhos de vingança infantis,
dias turbulentos na escola,
correr descalço e em trapos por aí.

Um pouco de tudo - até a pobreza
na escuridão da casa de meu pai...

Não, a vida não me negou nada,
nem nada deixou de dar-me em troco.

Aleksandr Trifônovitch Tvardóvski. (1910-1971). Poesia soviética. Tradução Lauro Machado Coelho. São Paulo: Algol, 2007, p.178-179