segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

SONETO ANTIGO

Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma, que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.

Cecília Meireles,
Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1993.  

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Lançamento do número 3 da revista de poesia
Modo de Usar & Co. +
o livro Cigarros na cama, de Ricardo Domeneck.
Dia 11/11/11, sexta-feira próxima, a partir das 18h00
no Bar Sabiá: R. Purpurina, 370, Vila Madalena. Tel. 6850-2805.
 
Nesta edição:
 
Angélica Freitas
Cecília Pavón
Charles Pannequin
Charles Reznikoff
Christian Prigent
Dirceu Villa
Emmanuel Hocquard
Érica Zíngano
Érico Nogueira
Fabiana Faleiros
Fabiano Calixto
Fabrício Corsaletti
Gertrude Stein
Helmut Heissenbüttel
Inês Cardoso
John Ashbery
Júlia Hansen
Kenneth Koch
Leandro Rafael Perez
Leonardo Gandolfi
Liv Nicolsky
Marcelo Sahea
Marco Catalão
Marília Garcia
Mario Sagayama
Nathalie Quintane
Paula Glenadel
Renan Nuernberger
Reuben da Cunha Rocha
Ricardo Domeneck
Roberto Bolaño
Rodolfo Caesar
Rodrigo Álvarez
Rodrigo Damasceno
Rosmarie Waldrop
Rui Camargo
Tiago Pinheiro
Vicente Huidobro
Victor Heringer
Violeta Parra
Walter Gam

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

41. A humildade de Borges. Quando o vi
pela primeira vez e lhe mostrei
o coração repleto de admiração,
me respondeu: “Si algun día te dás cuenta
de que no soy lo que tú te imaginas,
no digas que no te avisé.”
Esta frase impregnou minha vida.

Marly de Oliveira — Obra poética reunida, Massao Ohno Editor, 1989.

domingo, 9 de outubro de 2011

Mais uma foto de Edmundo Brandão http://edfotos.fotosblogue.com/ , amigo e conterrâneo de Bom Jesus da Lapa, Bahia. Postarei mais fotos de Ed, que possui um arquivo de fotos notável.  


sábado, 1 de outubro de 2011

O texto abaixo é de Caius Marcellus http://clausclars.blogspot.com/ , sobre uma "paisagem" de Anderson http://andersonpinturas.blogspot.com/ Dois luminares baianos da pintura brasileira.
A tela é pequena; tomá-la por uma miniatura não seria descabido . Comparo-a a um Vermeer, se o velho holandês houvesse ousado pintar nus assim . Compará-la a um Vermeer pode surpreender a princípio. Seria mais previsível uma comparação com Lucien Freud, de cuja imagerie Anderson se nutriu em seus exórdios e na qual ainda deve, sem dúvida, encontrar fecundidade. Lucien Freud é mais brutal do que o holandês, e a delicadeza este último talvez pareça inteiramente estranha ao universo de Anderson. Mas não é.

a comparação com Vermeer não se restringe às dimensões dessa obra ou à óbvia riqueza da paleta de Anderson, trabalhada com delicadezas surpreendentes. Essa pintura é também tributária da fotografia, serve-se dos mesmos expedientes fotográficos que outrora serviram ao mestre de Delft quando este empregava a camara oscura. Os enquadramentos, ângulos, a saturação da cor, o meticuloso tratamento dado aos volumes, as coagulações da luz: tudo é fotográfico. Mas essa transposição de imagens em pintura ultrapassa e refaz a imagem capturada por um aparelho em linguagem absolutamente pictórica. O fazer artístico que falta à fotografia s' opera na manipulação da imagem e sua reconstrução como coisa pintada. O material é reelaborado em seus mínimos detalhes, duma curva a uma mancha, das texturas às graduações luminosas, e, no fim das contas, a fotografia é superada - suplantada - por uma alta factura pictórica. Anderson não é, pois, menos delicado em suas manipulações do que o teriam sido Ruysdel ou Fabritius.

que Anderson haja nomeado seus nus femininos "paisagens" apenas reforça a analogia com a pintura dos Países Baixos do século XVII à qual me refiro comparando-o a Vermeer . Essas "paisagens" poderiam chamar-se igualmente "naturezas-mortas", pois paisagem e natureza-morta s' equivalem naquelas escolas. Há na pintura de Anderson uma redução da mulher à matéria que constitui seu corpo e à repercussão de sua imagem na retina, uma objetificação da mulher que subtrai sua individualidade: aí reconhecemos eventualmente um rosto, mas não uma pessoa. Interessam as variações cromáticas da epiderme, as dobras da pele, a flacidez da carne, o brilho de elementos da anatomia que se separam cirurgicamente do resto do corpo, mas nada de sentimento ou psicologia . Assim como uma natureza-morta feita de objetos diversos arranjados sobre um móvel qualquer, as carnes e ossos são dispostos sobre colchões e pisos para resultar num arranjo sabiamente composto; do mesmo modo que numa paisagem, aí vistas s' apresentam em planos superpostos.

a telinha em questão é uma composição preciosamente trabalhada . É possível abstrair a figura representada para aí não se ver mais do que um ângulo da perna contrapondo-se à horizontal do braço estendido à esquerda do observador. Feixes de dobras de tecido podem ser redirigidos ao ombro que, centro do quadro, provê um eixo perpendicular à superfície. A articulação de linhas e ângulos em torno desse eixo revela a máquina a que se reduz esse corpo feminino na mecânica do conjunto. O rosto não diz nada, mal o entrevemos. As carnes s' esfriam, apesar de seus rosas e rubros luminosos, como s' estivessem expostas num açougue. Pode-se assinalar aí uma vinculação do autor ao rigor construtivo dum Cézanne, que, disso bem sabemos lh' impregnara a produção de forma indireta, através de suas releituras de Picasso nos anos 1990. A pesquisa formal de Anderson se desenvolve com foco em estruturas anatômicas, é certo, mas esquemas geométricos dos mais rigorosos subjazem aos amálgamas de tecidos orgânicos representados na superfície policrômica, abarcando também o fundo.

inútil procurar outros sentidos nessa obra além da crueza dessa realidade devassada: o corpo é coisa, é objeto, é matéria. Não há significações ocultas ou deixas para a verborragia de letrados ávidos por exibirem sua retórica. Há, pelo contrário, uma total recusa em pôr a imagem a serviço da palavra. A imagem é implacavelmente atirada contra a retina, um "cale a boca e engula”. O que mais deve fazer uma obra-de-arte?
...

Anderson é um artesão, um perito, repõe as habilidades especiais, de dificílima aquisição, no centro da arte: a visão treinada em primeiro lugar; em seguida, a mão que tudo registra.

também aqui o nexo com a fotografia é estreito: a mão é um instrumento de registro preciso tanto quanto a fotografia. Mas a mão intervém na construção e manipulação da imagem, fazendo-a. uma nota elitista s' introduz por trás desse fazer, onde a autoria s' imprime despoticamente . O autor é um autocrata, cuja vontade arbitra na constituição do visível. O retorno ao objeto artístico, de fatura laboriosa e irreprodutível, assume um caráter de resistência nesse artista.


[etc.]

[uma reprodução fotográfica dessa obra não oferece senão uma idéia muito grosseira das qualidades cromáticas dessa pintura, que é uma obra-prima . melhor vê-la no atelier, quando uma simples variação na luz que sobre ela incida revela, aos que disponham de fina percepção, nuanças sutilíssimas . melhor vale, pois, uma visita ao atelier do pintor.]



caius marcellus araújo
texto publicado originalmente no www.clausclars.blogspot.com

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Um texto de Ronald Robson (guardem este nome) http://fantasiaexata.wordpress.com/  sobre o livro Dois de Érico Nogueira http://ericonogueira.blogspot.com/  Pretendo publicar outros textos dele por aqui.

Nota sobre “Dois”, de Érico Nogueira
por Ronald Robson

Dois (2010, É Realizações), mais recente livro do poeta paulista Érico Nogueira, que rápido alcança paridade aos grandes da literatura nacional, é ponto de torção do arco de uma lira que, posta em circulação com O livro de Scardanelli (2008, É Realizações), o faz partícipe das duas linhas mestras de nossas letras: a dos grandes arquitetos do verso, de Manuel Botelho de Oliveira a Bruno Tolentino, e a dos saltadores de abismos rumo a Deus, de Cruz e Sousa a Ângelo Monteiro.
O que se encontra em Dois são registros de uma “paidéia” muito pessoal, por dizer respeito à pedagogia que o homem Érico se impôs: buscar “Roma” (a salvação, a luz divina, a veracidade da existência), ainda que ela seja “este poço / de secreções e beijos de granito”. Pois “viver o que nos mata todos vivem, / saber vivê-lo, sim, é ave rara”. No livro anterior, como Scardanelli (pseudônimo da loucura de Hölderlin), Érico dramatizara a idéia de que, em poesia, a experiência mais particular só pode ser expressa por meio do artificialismo congênito à verdadeira arte – e o realismo, a ele como a Auerbach, é o que de mais alto se constrói sobre uma pira em que queimam o real e o imaginado.
Tal tema ainda se apresenta em Dois, todavia como parte de uma busca: a apropriação de si mesmo, que é apropriação dos grandes temas da poesia ocidental por meio de experimento sutil, atualíssimo, da potencialidade dos metros clássicos. Veja-se que na seção “Deu Branco”, que narra em nove poemas uma viagem a Roma, o poeta dá ao alexandrino ritmo que nunca assumiu em língua portuguesa: “Roma, enfim – chego bem, só que tarde demais; / estátua e praça e tudo não como o esperado / (o mundo é tão certinho na fotografia); / ouço ‘Deus mora ali, bem ali, logo além’, / mas, olhando o tamanho da fila, meu Deus, / é bom ficar de fora; um giro na cidade”.
O preceito de Goethe de que o artista só alcança maestria por demonstrar destreza nas limitações naturais à sua arte é norte ético a Érico Nogueira. Por isso importa-lhe a “cópula impossível” entre pensamento e realidade, “o tônus e o tino”, instinto e intelecto, sexo e Deus, ritmo e sentido. “Porque o contentamento / não há de ser luxúria ou celibato”, Érico Nogueira tem olhos para a unidade que fundamenta todas as dualidades da existência, por saber que “a ocasião se colhe como a uva / que a chuva não encharca, e o sol não tosta”.
Espanta o domínio que Érico, conhecedor do hexâmetro grego (ele traduz Teócrito em seu doutorado) aos ritmos ibéricos, estabelece sobre todos os metros em senhorio cabal, com a presença, às vezes, de um riso indisfarçável, remate da autoconsciência de quem cria. Sua rima toante tem a sutileza do silêncio (“unir” / “aqui”; “par” / “Há”; “jogo” / “corpo”; “gosto” / “vôo”). Talvez porque sua busca por si, por Roma e pela perícia em poesia só possa, afinal, ser apreendida em sotto voce: “Quando o dia se apaga, dentro e fora, / e a luz se adensa em nódoas pelo breu, / alguém intui que algo se demora / cujo nome, se houve, se perdeu”.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Texto do meu caro amigo Caius Marcellus, artífice refinadíssimo. Seu blog: ht/tp://clausclars.blogspot.com/   

Andrea Mantegna

faz tempo qu' eu não revisitava Mantegna com tanta atenção . e Mantegna foi um daqueles soberbos desenhadores do Quattrocento que me formaram . seu traço incisivo, seu modelado escultórico nunca saíram de minha cabeça . aliás, confesso que nunca resolvi [se fosse preciso resolver...] o conflito entre uma tendência a um desenho conclusivo, formalmente perfeito [do latim perfectus, i.e., acabado, consumado] e um desenho "impressionista", como o desenho Muromachi, com sua notação tão minimalista quanto sugestiva . mas parece que o equilíbrio pode se dar numa alternância dos dois modos, quando levo a cabo uma sua transposição em termos pictóricos, como alternâncias no foco duma câmera fotográfica, sem contudo indicar instantes diferentes.

Mantegna, il principe dei pittori, está na origem do classicismo ideológico, sua faceta menos atraente a meus olhos . é dele que promana aquele esforço por figurar, com precisão arqueológica, arquiteturas, objetos e costumes da Antiguidade, uma tendência que se desdobra tanto no classicismo francês, com suas tipologias rigidamente fixadas, quanto nos filmes hollywoodianos sobre o mundo greco-romano, profusamente povoados de referências antigas cujo espírito parece ter abandonado aqueles cenários pouco antes do início das filmagens.

mas é dele igualmente aquele amor pela plástica que torna suas pinturas, mais do que uma festa para o olho, uma festa para o tato . Mantegna desenhava esculpindo, e sua pintura está tão próxima de altos e baixos relevos [que o pintor não deixou de figurar como citações cultas em obras maiores] quanto de grupos escultóricos dispostos num espaço cuidadosamente construído para acolhê-los, depois de apropriadamente policromados [a "Cucifixão" do políptico de San Zeno ou o "São Sebastião" de Viena o demonstram à saciedade].

para mim, contudo, a mais notável qualidade de Mantegna é essa: sua pintura não esconde a técnica . pelo contrário, essa pintura ostenta sua técnica e, com ela, o disegno que lhe serve de ossatura, as operações mentais que a formaram . tudo em Mantegna tem sua perfeita circunscrição, seus limites espaciais, sua medida naquele espaço inventado, e nisso seu modus operandi se manifesta mesmo na obra acabada . aliás, essa mise-en-valeur da artisticidade é uma qualidade dos artistas de seu tempo de um modo geral, mas que no mestre mantuano torna-se um princípio seminal.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Dois sonetos de Antonio Machado traduzidos. 

CLXV

I

Teve meu coração encruzilhada
de cem caminhos, todos passageiros,
estrangeiro sem data nem pousada
como estação ruidosa de viageiros;

que fez aos quatro ventos a jornada,
disperso coração por cem sendeiros
de terra plana ou pedra aborrascada,
largada sorte em mar de mil veleiros.

Enxame que hoje retorna a colmeia
quando o bando de corvos enrouquece
buscando sua penha denegrida,

volta meu coração a sua faina
com néctares do campo que floresce
no luto dessa tarde desabrida.


IV

Esta luz de Sevilha... É o palácio
onde eu nasci, com seu rumor de fonte.
Meu pai, em seu despacho. — A alta fronte,
a breve mosca, seu bigode lasso —.

Ainda jovem. Lê, escreve, folheia
seus livros e medita. Se levanta;
vai para porta do jardim. Passeia.
Às vezes fala só, às vezes canta.

Seus grandes olhos de fitar inquieto
agora errar parecem sem objeto
aonde possam pousar, no vazio.

Já fogem de seu ontem pra amanhã;
e já fitam no tempo, — pai, vigio —,
piedosamente esta cabeça cã.    

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Saiu na http://www.verbo21.com.br/ :

UM SONETO DE FERREIRA GULLAR
5

Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a na catástrofe da aurora,
e na fonte e no muro onde sua face,

entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitária nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se me temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a, lúcido e demente.
Se por detrás da tarde transparente
seus pés vislumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e ágeis!
Vocabulário e corpo — deuses frágeis —
eu colho a ausência que me queima as mãos.


         O soneto acima está no livro A luta corporal, cuja primeira edição é de 1954 e, segundo Manuel Bandeira, figura entre os mais belos da Língua Portuguesa, incluído por ele em uma antologia de sonetos. Difícil discordar. O tema metalinguístico deste soneto não se prende àquele vazio tautológico, que é, penso, falta de assunto crônico de uma parte da poesia brasileira do século XX e início do XXI.

O poema que reflete sobre a própria poesia — e todas as variações caleidoscópicas nesse sentido — quando ocupa um lugar eminente no fazer literário de um país ou época, não é porque os outros assuntos se esgotaram ou são menores e desimportantes — em arte assunto não se esgota, tampouco há assunto desimportante, muda-se a perspectiva, o modelo etc., não estamos falando de hierarquias, então... —, mas, sim, porque a arte pela arte, isto é, o esteticismo, contaminou mais do que devia a cabeça e o espírito dos artífices. Ou é, como aponta Mario Vieira de Mello em Desenvolvimento e cultura, parte intrínseca da índole tupiniquim e que influencia nossa visão de mundo? Esteticismo é entrar em um pseudolabirinto autocriado. Um narciso feio se afogando sem espelho, as espirais no vácuo, não apenas fechado em si mesmo, mas estéril, como se o texto omitisse o mundo. Coisa que não ocorre com esse soneto.

A promessa da posse da linguagem poética parece não se realizar, mas o sujeito poético é compensado pelo fracasso, apesar da cegueira conjunta; a perseguição bipolar entre lucidez e loucura, aquele triz de captura sempre escapando; essa angústia consolada por nova abordagem linguística, contudo, a essência da linguagem jamais é aprisionada. De modo geral, essa busca do poeta denuncia um problema clássico em filosofia, que é a teoria do conhecimento. Como conhecer o objeto? Como captá-lo em sua essência, já que ele é incapturável por excelência? Em poesia, muitas vezes, essa sensação é de uma plenitude angustiada e frustrante. Para a experiência humana toda plenitude é provisória, ela existe, mas somente acontece num átimo. Faço uma ponte, apenas como ilustração, com um trecho d’O prólogo de Le vrai Le vain, de Bruno Tolentino, que está no livro O mundo como idéia: [...] E às vezes/pareceu-me que esse exercício/pousava seguro no vento/para além de todo artifício,/com modos de cume ou de febre. É, praticamente, a mesma temática do soneto de Ferreira Gullar, os dois poetas se deparam com a impossibilidade de encarcerar o sopro das Musas, pois para o poeta carioca pareceu que a linguagem poética se realizava de modo tão intenso e real como algo possível de ser tocado, como se dissesse: “eis aqui a forma ocupando lugar no espaço e que lhes ofereço materialmente”; apesar de ele não negar a base instável desse pouso (vento), e a sensibilidade traiçoeira dos momentos extremados (cume, febre) no momento em que o evento ocorreu. Tão pleno que prescindiria até mesmo do código linguístico utilizado [...] para além de todo artifício [...]. Esse impasse não é típico somente da poesia, mas é próprio da criação artística.  
        
No verso do soneto de Gullar [...]embora/ela me redimisse[...] o vocábulo redimir, remir também possibilita a conotação de adquirir novamente, daí a leitura de consolo, compensação, que fiz. A caça acossada, a linguagem, redime o eu lírico com novas visitas, mas são visitas cegas. Ver não vendo, ter não tendo. Por mais concreta e materialista que seja a temática da poesia brasileira do século XX e início do XXI, quase sempre imanente, a linguagem poética ou não, é uma construção do espírito humano calcada essencialmente no invisível. O que é o símbolo, signo e seus congêneres senão abstrações encarnadas?

         As metáforas com teor surrealizante - [...] catástrofe da aurora [...]; seus pés vislumbro,/ logo nos desvão/das nuvens fogem [...]; colho a ausência que me queima as mãos - conferem ao poema uma finesse imagética formidável, e, juntamente com a fluidez propiciada pelo enjambement, quebra o que poderia soar como um soneto clássico. Clássico não no sentido dado pelos historiadores e teóricos da literatura, mas no de anacronismo engessado, como alguém sonetar hoje à moda de Camões e crer que ao emular o mestre tornar-se-á atemporal. É necessário um cuidado redobrado ao fazer uso das formas fixas nos tempos atuais, pois se corre o perigo do natimortismo. Fenômeno comum em uma parte das letras brasileiras. Obviedades necessárias: forma não é rigidez, apesar de fixar limites, forma é liberdade. Como único exemplo penso em Abgar Renault e nos seus Sonetos antigos, de 1923, não se deixa afetar pelo natimortismo, mesmo tendo utilizado uma grafia aproximada da época do bardo português.    

         Nos dois quartetos desse soneto decassílabo, mas utilizando também o verso sáfico (mais exatamente no 6ª, 12ª e 14ª) há uma sensualidade feminina — o gênero é claro no primeiro verso: possuí-la — e nos remete à posse amorosa da mulher amada. Assim, podemos lê-lo também como um poema de amor, intelectual, é verdade, porém a dona, a fêmea, a amada é a linguagem. O objeto do desejo é percebido, descrito, até mesmo desfrutado, mas impossível de ser aprisionado.      
         
O poeta trabalha com imagens representando o abstrato: aurora, água, e contrapõe com outras, digamos, mais concretas: fonte, muro. Esse dualismo é coroado exemplarmente no par de imagens do 13º verso [...] Vocabulário e corpo [...] e somente neste penúltimo verso o poeta nomeia claramente seu tema, na belíssima antítese final. Não obstante a imaterialidade da caça do poeta, ele limita-se ao campo da imanência, não verticaliza nada, seu espaço de ação é horizontal, pois transcender é estar fora, passar além.     

O produto dessa colheita é nada, mas é um nada ardente. Negativo? Talvez. A beleza se realiza também por essa via.       

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Contra os gênios da internet

Bruno Garschage http://www.brunogarschagen.com/


O desconhecimento sobre determinados conceitos produz confusão e equívocos estridentes. O mínimo que se espera de uma crítica, é que, primeiro, se apresente a definição com que se está a trabalhar e, a partir daí, se apresente os fundamentos do argumento contrário.

Jogar palavras ao vento só faz espalhar as folhas da relva, o que pode inicialmente impressionar os incautos, mas que não resiste ao teste da necessária calma e prudência analítica.

Conservadorismo e liberalismo não são palavras passíveis de serem destacadas de seus significados específicos e exigem um enquadramento adequado. Sem o conhecimento dos instrumentos teóricos básicos, lamento, não há conversa, muito menos debate, só uma mera opinião equivocada, que pode atiçar os gênios da internet, mas que é tão oca como os homens do célebre poema de T. S. Eliot.

Sei bem que a quantidade de gênios no Brasil foi anabolizada pelas redes sociais. Primeiro, dominaram o Orkut, essa expressão máxima da vulgaridade real num espaço virtual; em seguida, promoveram uma invasão bárbara no Facebook e no Twitter. Não há mais idiotas ou estúpidos no Brasil; só gênios; gênios com pedigree e coleira; gênios com carteirinha de sindicato. Quanto mais ignorantes, maior a expressão da sua genialidade individual.

Não há tema que esses gênios da internet não dominem com suprema insipiência e que manifestam com extrema platitude. Não importa para eles conhecer um assunto, mas ter uma opinião histérica a respeito de. Não raro, sua principal fonte de informação e de conhecimento é a opinião de seus camaradas compartilhadas nas redes sociais. Já vi especialistas, de Marx a Mises, que nunca abriram um livro desses autores, mas que escreviam com uma autoridade juramentada.

A dislexia consciente também é uma característica notável porque não se trata de uma doença, mas de uma escolha estratégica de forma a tumultuar a conversa sem ter razão. Quem se atreve ingenuamente a questionar os gênios da internet utilizando os instrumentos vulgares do debate de ideias é bombardeado com questionamentos reiterados daquilo que o interlocutor nunca escreveu e sequer pensou. O objeto específico daquela discussão inicial é completamente soterrado por considerações completamente descabidas, que jogam o assunto para um lado completamente equivocado e desconhecido de antemão.

A desordem, insisto, é estratégica. Sem os instrumentos teóricos básicos adequados, os gênios da internet sabem que não podem se arriscar numa conversação em que são estrangeiros, pois assim seriam obrigados a expor somente sua agressividade gestapiana sem as frases panfletárias utilizadas desordenadamente.

Raramente sou alvo dos gênios da internet porque aprendi a reconhecê-los com a urgência que a minha saúde e sanidade mental exigem. Acredito, como Eric Voegelin afirmou em suas Reflexões Autobiográficas, que aqueles nunca podem ser interlocutores; no máximo, objetos de estudo. Este texto é um alerta às pessoas de boa-fé: é impossível um "debate de ideias" com a reincarnação da barbárie.

Os gênios da internet não podem ser ignorados, porque são perigosos e astutos; devem ser combatidos com os instrumentos que a civilização nos legou em forma de tradição, nunca com as armas que eles escolhem, porque senão rapidamente somos envolvidos por uma espiral inebriante que entorpece o raciocínio e desgasta o espírito. Num eventual encontro verbal com eles, traga sempre a discussão para o seu terreno, ignorando a perturbação que tentam impingir à conversa.  
É um erro fatal se deixar levar pelo turbilhão de salitre e breu com aparência de discussão. Quando o gênio da internet tentar puxar a discussão para a trincheira dele, ignore essa tentativa e continue no seu caminho, reto e prudente. Siga apresentando a substância de suas ideias e expondo, violentamente se necessário, a inconsistência e o perigo daquilo que o seu interlocutor destila com a saliva escorrendo pelos caninos.

Lembre-se sempre que os gênios da internet são uma minoria estridente com aparência de maioria dominante. Sua necessidade de atenção e a vacuidade daquilo que manifestam como suposto pensamento são o seu calcanhar de Aquiles. Quanto mais alto o grito, maior a estupidez; quanto mais agressivo o comportamento, mais raso o pensamento; quanto mais alto o nível de intolerância, maior o grau de ignorância.

Os instrumentos mais eficazes contra os gênios da internet são essa tradição da civilização a que damos o nome de ironia, sarcasmo, sátira, zombaria. Os gênios da internet são mal-humorados. Mesmo quando afirmam o contrário, ratificam o mau humor. O uso adequado daqueles instrumentos derrubam um por um como pinos de um boliche histórico.

Quando se deparar com um desses gênios da internet, caro leitor, lembre-se sempre: o bom humor é o que nos salva.




quinta-feira, 2 de junho de 2011

O DESCOBRIDOR DESCOBERTO

Inspecionando lombadas numa livraria de Belo Horizonte, durante o último carnaval, redescobri a poesia de Leonardo Fróes. Não me lembro exatamente do primeiro encontro, mas das visitações que fiz a sua obra reunida — Vertigens (Obra reunida 1968-1998) quando trabalhei no sebo Berinjela de Salvador, e de que fui incapaz de captar a excelência do poeta, disso não me esqueço. Sou bovinamente lento, daí que o poeta, se algum dia ler estas mal digitadas, irá me perdoar. Devo dizer também que a redescoberta teve a ajuda do notável poeta, tradutor e ensaísta Dirceu Villa http://odemonioamarelo.blogspot.com/ (a quem admiro cada vez mais) ao entrevistar Leonardo Fróes para o site www.germinaliteratura.com.br Neste site, o leitor poderá encontrar um bom material sobre o poeta. Lá na livraria li alguns poemas do Chinês com sono, e, como dizem os doidos, “bateu”! Um dos lados da minha ignorância finalmente iluminou-se. Recentemente, meu querido poeta Ricardo Domeneck http://ricardo-domeneck.blogspot.com/ escreveu um importante post sobre o poeta carioca. Depois desse mea-culpa algo esfarrapado (lembre-se: ignorância não é inocência) quero deter-me um pouco no poema “O observador observado” do citado livro.
Considero que com esse livro Leonardo Fróes alcança uma simplicidade quase prosaica — exata em termos estilísticos e verdadeira em termos conteudísticos — do seu trabalho poético. Os temas ligados ao silêncio, à contemplação amorosa do mundo e afins se refinam mais.
Disse, já não me lembro quem, que a experiência do inefável é impossível de ser expressada, e que é um equívoco a tentativa. Mas poesia é expressão, desimporta qual tipo, mas expressão. Isso me faz pensar como determinados conteúdos devem ser enunciados sem desaguar em vaguidão, hermetismos herméticos nos quais até mesmo iniciados se atolam e emudecem. Há também o problema, comum em nossas letras, de ser catalogados como autores desimportantes, pois não trabalham com a concretude da vida etc etc. Porém, no poema “O observador observado” não é bem o inefável, o indizível que tenta ser expresso. Nos dois versos finais da primeira estrofe e em toda a segunda há en passant um brevíssimo relatório de caráter moral. Neste poema   

O OBSERVADOR OBSERVADO

            Quando eu me largo, porque achei
            no animal que observo atentamente
            um objeto mais interessante de estudo
            do que eu e minhas mazelas ou
            imoderadas alegrias;

            e largando de lado, no processo,
            todo e qualquer vestígio de quem sou,
            lembranças, compromissos ou datas
            ou dores que ainda ficam doendo;

            quando, hirto, parado, concentrado,
            para não assustá-lo, com o animal me confundo,
            já sem saber a qual dos dois
            pertence a consciência de mim —

            — qualquer coisa maior se estabelece
            nesta ausência de distinção entre nós;
            a glória, a beleza, o alívio,
            coesão impessoal da matéria, a eternidade.             



se não me engano, Fróes relata um diálogo, uma ação mútua, uma relação de reciprocidade, em que os dois atores — homem e animal — são atuandos atuados. Esta última expressão é minha, eu sei, é feia, mas diz tudo o que desejo. As outras eu retirei do filósofo judaico Martin Buber, no seu Eu e Tu, na única tradução brasileira que conheço do professor Newton Aquiles Von Zuben. Esse diálogo sem que o outro se torne objeto, mas reciprocidade viva na presença é um desses conteúdos dificílimos de manifestar em qualquer linguagem, não só porque é real, mas é uma das esferas da vida em que — quando conseguimos — não transformamos o outro em objeto, não o experienciamos no sentido em que lhe dá Buber. Não quero dizer com isso que somos todos monstros dum egocentrismo infernal, e que “pouca farinha meu pirão primeiro” é a mola mestra da condição humana. Entenda-me: esse evento de relação, no qual dois se tornam um, mas não se diluem, é um dos acontecimentos mais substanciosos da vida humana. As três esferas para as quais endereçamos o diálogo citados por Buber são a natureza (fauna e flora), o homem e o Ser. A última estrofe [...] qualquer coisa maior se estabelece/nesta ausência de distinção entre nós;/a glória, a beleza, o alívio,/coesão impessoal da matéria, a eternidade [...] onde se encontra o desfecho desse diálogo, não por acaso o poeta enumera o que pode ter sucedido e a última palavra é eternidade. O poeta sabe que algo de concreto aconteceu, apesar de não palpável. Contradigo-me? Acho que não. Não é místico nem é sobrenatural. É de outra ordem, mas possui elementos do já citado. Não é apenas a contemplação amorosa do mundo, no caso, um animal, ou de graus dessa contemplação: instante de suspensão do tempo; conexão com a força lírica; instante em que o real, as coisas, se tornam mais nítidas etc. Atuado atuando é a presença da atualidade em diálogo, seu componente metafísico é inegável e que relaciono com um poema de Lúcia Delorme http://www.luciadelorme.blogspot.com/ poeta ainda inédita em livro, que diz o seguinte:

EXÓRDIO
                        tu
                         e
               silêncio
dificílimo
        amor
        quem diz tu
                 escuta
molha-se em luz
                 dupla
como se descobrisse ou reatasse
o velho diálogo
                  com
a amendoeira
o amigo
Ser          

            Os dois, acredito, possuem pontos de contato. Lúcia exorta seus dois temas a serem desenvolvidos, e o “tu” é esse diálogo que tentei demonstrar no poema de Fróes. Para um melhor entendimento do que foi dito remeto à leitura do livro de Martin Buber.     
            Desconheço na poesia brasileira quando essa temática foi tão bem realizada ou mesmo tocada. Há, poucos, é verdade, poetas metafísicos brasileiros ou que tocam essa linhagem: Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens pai e filho, Cecília Meireles, Murilo Mendes, Jorge de Lima após a conversão ao catolicismo, Drummond e Abgar Renault em alguns momentos, Mário Faustino, Hilda Hilst, Orides Fontela, Marly de Oliveira mais bem realizada até Invocação de Orpheu, Alberto da Cunha Melo principalmente em Dois caminhos e uma oração, Marco Lucchesi, Bruno Tolentino etc. Poucos? Sim, poucos, e até onde pude perceber, nenhum desses tocam a temática do poema de Leonardo Fróes.     

terça-feira, 31 de maio de 2011

Aos amantes da alta lírica portuguesa:

Ao Padre António Vieira, pregando
do nascimento de N. Senhora
no Convento da Rosa

Silva

Aspirar a louvar o incompreensível,
E fundar o desejo no impossível;
Reduzir a palavras os espantos,
Detrimento será de excessos tantos;
Dizer, do muito, pouco,
Dar o juízo a créditos de louco;
Querer encarecer-vos,
Eleger os caminhos de ofender-vos;
Louvar diminuindo,
Subir louvando e abaixar subindo;
Deixar também, cobarde, de louvar-vos,
Será mui claro indício de ignorar-vos;
Fazer a tanto impulso resistência,
Por o conhecimento em contingência;

Delirar por louvar o mais perfeito,
Achar a perfeição no que é defeito;
Empreender aplaudir tal subtileza,
Livrar todo o valor na mesma empresa.
Errar exagerando,
Ganhar perdendo e acertar errando.
Siga pois o melhor indigna Musa
E deponha os excessos de confusa,
Que, para acreditar-se,
Basta, basta o valor de aventurar-se;
E para vos livrar de detrimento,
Ser vossa a obra e meu o pensamento.
Pois não fica o valor aniquilado,
Sendo meu o louvor, vós o louvado,
Porque somos os dois, no inteligível,
Eu ignorante e vós incompreensível.



Soror Violante do Céu (1602-1693) era uma freira dominicana que na vida secular se chamou Violante Montesino. Professou no Convento de Nossa Senhora do Rosário da Ordem de S. Domingos em 1630. Foi uma das poetisas mais consideradas do seu tempo, sendo conhecida pelos meios culturais da época como Décima Musa e Fénix dos Engenhos Lusitanos. É hoje um dos máximos expoentes da poesia barroca em Portugal. Aos 17 anos celebrizou-se ao compor uma comédia para ser representada durante a visita de Filipe II a Lisboa. Além do volume Rimas publicado em Ruão em 1646 e do Parnaso Lusitano de Divinos e Humanos Versos, publicado em Lisboa em 1733 em dois volumes, tem várias composições poéticas na Fénix Renascida. Retirado daqui: http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/violante.htm 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

UM NOTURNO DE PAUL-JEAN TOULET

9
Nocturne

Ô mer, toi que je sens frémir
    À travers la nuit creuse,
Comme le sein d’une amoureuse
    Qui ne peut pas dormir;

Le vent lourd frappe la falaise...
    Quoi! si le chant moqueur
D’une sirène est dans mon cœur —
    Ô cœur, divin malaise.

Quoi, plus de larmes, ni d’avoir
    Personne qui vous plaigne...
Tout bas, comme d’un flanc qui saigne,
    Il s’est mis à pleuvoir.

Paul-Jean Toulet

9
Noturno

Ó mar, tu que eu sinto fremir
através da noite oca,
feito peito de amante louca
que não pode dormir.

Grave, o vento bate na falésia!
É zombeteira canção
da sereia-coração?  
Ó coração, sublime moléstia.

Sem mais lágrimas, nem ter
ninguém por ti a chorar.
Baixo, feito flanco a sangrar,
ele começa a chover.


O noturno acima se encontra no Les Contrerimes, de Paul-Jean Toulet (1867-1920). Descobri-o através de mestre Otto Maria Carpeaux, nos Ensaios Reunidos, da Topbooks. Carpeaux relata que “Entre a poesia prosaica [...] e a poesia profunda, a que chamam ‘metafísica’, Toulet está pouco à vontade”. Pois o poeta francês produziu uma poesia “simplesmente poética.” Sem ser, contudo, poèsie pure. Les Contrerimes é a reunião póstuma da sua obra, publicada alguns meses depois que o poeta faleceu. A contenção sentimental e o domínio de ritmo e forma são admiráveis, não somente nesse Noturno como em toda a sua poesia. O sortilégio poético gerado pelos dois primeiros versos Ô mer, toi que je sens frémir/À travers la nuit creuse, essa contemplação marinha através da noite vazia, juntamente com Comme le sein d’une amoureuse/ Qui ne peut pas dormir a inquietação de pessoa apaixonada que não consegue dormir, geram uma sensualidade existencial simples, porém, de rara sofisticação. Pode-se enumerar em Noturno o tônus geral dominante no Les Contrerimes: a modulação melancólica de contida angústia, a condensação epigramática, a ironia pela antítese, que toma toda a segunda estrofe, e a refinada descrição paisagística.      
Pelo posicionamento de independência literária mantida ao largo de uma época empanturrada pelos ismos de toda sorte, podemos aproximá-lo a Cecília Meireles, que possuiu uma postura semelhante no Brasil.   
Depois de verter para o português o Noturno acima, o comparei com traduções do inglês e do espanhol e notei que minhas liberdades métricas, rítmicas e rímicas foram mínimas. Na maioria das vezes, o heróico quebrado virou redondilha maior, e, somente na segunda estrofe, eneassílabo. As rimas A e D da primeira estrofe são quase literais, achei melhor assim. Preferi manter falaise como falésia mesmo. Fiz o possível para reconstruir as aliterações, já que Toulet utiliza em abundância esse procedimento estilístico. Les contrerimes foi todo vertido para a língua de Cervantes pelo poeta e tradutor madrileno Jorge Gimeno.     
Parafraseando Mário Faustino, Paul-Jean Toulet é um grande poeta menor. Na Internet é possível encontrar o livro completo aqui: http://www.florilege.free.fr/toulet/ 
  

Sem título Edmundo Brandão

segunda-feira, 18 de abril de 2011

sexta-feira, 25 de março de 2011

Abaixo o belíssimo e sábio poema do meu caro Ricardo Domeneck http://ricardo-domeneck.blogspot.com/


"Elegia para a Rainha dos Epitalâmios" ou "The Day Liz Died"


Elegia para a Rainha dos Epitalâmios
ou The Day Liz Died

E era o primeiro dia do ano
em que eu saía de casa
sem cachecol e capuz.
Não era o nirvana,
mas era um começo.
Tudo o que eu queria
era um café como eu
me sentia, forte e barato,
e meus passos na calçada
tinham aqueles ares
de segurança pública,
pois entre pagar o seguro
de saúde e comprar
a revista de música,
não havia motivos
para hesitações: consistimos
em uma série de prioridades
conflituosas, coexistentes.
Sabia dos mortos no Japão
e na Líbia
mas, com certa lábia,
tinha certeza que me convenceria
de merecer
uma xícara de café num mundo
em que Tânatos
estaria de férias há anos.
Aí soube de Liz Taylor
e do Grim Reaper.
Filmes há décadas ilustram a morte
como o instante em que nossa vida
passa diante dos olhos
– “como num filme” –
diz-se. Instância talvez
de autopromoção da sétima
arte. Mas em teu caso, criatura
de Deus,
quando a existência foi toda
gasta em estúdios e filmes,
será que ficaste presa no limbo
dum eterno retorno nietzscheano,
como se perante um espelho
pusessem uma série de espelhos,
ou como nestes filmes recentes
que abusam do tropo e truque
do filme dentro do filme?
De todos os teus óvulos ejetados
e quilos de maquiagem borrada
por lágrimas restará hoje
em alguma tela de TV
um Best Of de tuas brigas
ou a contagem regressiva
de husbands.
É assim nossa ânsia
de consumir
que não se consuma.
Ela não te era estranha.
E nesta manhã,
quando a Cadela Inimiga
adentrou teu quarto,
não havia nem uma Lassie
que ladrasse,
não havia um corcel alazão
que fugisse a galope,
não havia Richard Burton
nem Marcus Antonius
a proteger-te com músculos
e tropas.
Tantas coisas me ensinaste,
Rainha dos Epitalâmios,
sobre a vida com gônadas
e hormônios,
sobre homens e uísque,
ensina-me agora
como se morre.
Finjo então que, já do meio
do Aqueronte,
deixando trêmulo
o próprio Caronte,
ouço sua voz
dizer: “Ricardo, a morte
não é épico histórico,
nem filme com 65 trocas
de roupas,
não é produzida pela Disney,
nem baseia-se
em peça indicada ao Pulitzer;
a morte é sempre Off-Broadway,
ocorre desde as tragédias gregas
fora de cena,
estreia-se nela sempre como amador
e ela mal emula filme B de terror
em produção televisiva.
Quanto à minha vida,
tudo o que digo
é: I stood warned.”
Soube então como
que por instinto
que a morte
certamente nem tivera
o senso de humor
de metamorfosear-se
em áspide
e esconder-se num cesto
para buscar-te.
Deve ter sido
lacônica e ríspida.
Indignado, com a xícara
a meio caminho da boca,
penso como a morte
não poupara Afrodite
nem sua reencarnação
como Vênus, levara
Cleópatra
e também Nefertiti.
E que Liz Taylor agora
era como elas todas
abstrata, icônica
como uma lápide.
Soube aí que o mundo
não passa de um vale
de reprises sem sequels
e com nossas próprias mãos
carregamos nossas sequelas
ainda que as escondamos
sob diamantes de 68 quilates.

Berlim, 23 de março de 2011.