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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

ELISABETE DESCANSANDO NA LUZ



Na sua alma onde Deus começa
e o amor, sendo pleno, é mais que um vício

aceitando a ternura e o desperdício
minha alma na sua alma se completa.

E somos, sendo dois, uma só casa
sabendo às vezes e, às vezes, sem saber

que é só nossa a aventura de morrer
unindo e desunindo as nossas brasas.

Há mapas nessa casa, mapas, ilhas
e à margem de impossíveis horizontes

um verão que inventando maravilhas
em nossa carne canta sem ser fonte.

Por isso a noite em nós nunca é escura
e a nossa nudez é a nossa roupa:

se em seu corpo soletro coisas puras
é porque sei de cor a sua boca.

Casa de mim, constelação de espantos,
mar que soluça em busca do infinito,

nas suas águas, quanto mais morro, canto
e quanto mais canto mais me ressuscito. 

Jaci Bezerra. Linha d'água. Recife: CEPE, 2007, p.36

terça-feira, 8 de setembro de 2015

I. Dois cavalos


O herói tombou: e logo na medula
seus cavalos sentiam a desdita,
enquanto a mão - tão douta, tão exata -
os deixava, dois barcos, à deriva.

Ao grito estrídulo de escudo e espada,
os animais choraram sem destreza;
sem consolo, brutos, indomáveis,
renegaram, pisando, o rés-do-chão.

No que Zeus (tão cativo da beleza)
sentiu pequeno o coração, maciço, e
"Meus cavalos, por que chorar, por que",
falou, "se lei mortal vos não oprime?"

Mas os cavalos, meio por prazer,
cheios de sombra e pó nas ferraduras,
insistiram no sangue, pele e músculos
da beleza mortal, delícia e logro.

II. Le Réfus

Passam como sombra, alguns; a outros chega
o dia da grande escolha, irrepetível,
do "Sim" ou do "Não", sem recurso nem volta.

A maioria diz "Sim", a fronte erguida
entre louros e pâmpanos, sem remorsos,
e correm a meta prescrita na lei.

Mas quem diz "Não" - ih - está sempre em litígio;
tem réu e juízes no foro, o mais íntimo;
definha entre os autos, sem luz nem sentença.

Érico Nogueira. Poesia bovina. São Paulo: É Realizações, 2014, p.39, 40


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Dois poemas inéditos de Claudio Sousa Pereira. Da série Poemas gregos.

I. DE ISMENE A ANTÍGONA

Minh'alma não tem a plena justeza
de encarar a cruzada
de mergulhar na ferida
de lutar por justiça.
Minh'alma tem apenas a total certeza
de soluçar pela perda
de contemplar o fogo
do coração em tua lida.

III. CREONTE, EM SI

Vale mais cumprir os desígnios da ordem
ou ver o risco oculto revelar-se?
O que adianta agora cumprir a palavra
se o imponderável mostra a tua chama?
O que adianta agora o rigor do poder
se vejo sangue e ausência
pela desgraça duplicada?
A velhice em mim não ensinou
a prudência.


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

— Nadie más insoportable que el que no sospecha, de cuando en cuando, que pueda no tener razón.

— Nada más frecuente que despreciar a muchos que debieran más bien despertar nuestra envidia.

Nicolás Gómez DávilaEscolios a un texto implícito.