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terça-feira, 8 de setembro de 2015

I. Dois cavalos


O herói tombou: e logo na medula
seus cavalos sentiam a desdita,
enquanto a mão - tão douta, tão exata -
os deixava, dois barcos, à deriva.

Ao grito estrídulo de escudo e espada,
os animais choraram sem destreza;
sem consolo, brutos, indomáveis,
renegaram, pisando, o rés-do-chão.

No que Zeus (tão cativo da beleza)
sentiu pequeno o coração, maciço, e
"Meus cavalos, por que chorar, por que",
falou, "se lei mortal vos não oprime?"

Mas os cavalos, meio por prazer,
cheios de sombra e pó nas ferraduras,
insistiram no sangue, pele e músculos
da beleza mortal, delícia e logro.

II. Le Réfus

Passam como sombra, alguns; a outros chega
o dia da grande escolha, irrepetível,
do "Sim" ou do "Não", sem recurso nem volta.

A maioria diz "Sim", a fronte erguida
entre louros e pâmpanos, sem remorsos,
e correm a meta prescrita na lei.

Mas quem diz "Não" - ih - está sempre em litígio;
tem réu e juízes no foro, o mais íntimo;
definha entre os autos, sem luz nem sentença.

Érico Nogueira. Poesia bovina. São Paulo: É Realizações, 2014, p.39, 40


quarta-feira, 27 de março de 2013

Dois poemas de Érico Nogueira 

1.

Entre as ruínas, ai, de arco e busto,
eu busco ouvir além do meio físico:
ouvir o que se entrega a um alto custo
a quem, como eu, é carne e pouco espírito.

Se me surgisse em riste ou em decúbito
a via donde vim e vou com gosto,
meu coração tão flácido, de súbito,
levantaria sangue para o vôo.

Ou seja: o espírito, que tenho pouco,
e vou perdendo quanto mais existo,
onde estará, se Roma é este poço
de secreções e beijos de granito?

4.

Instrui — a mente não —, instrui o instinto
na língua, se sutil, mais carregada:
em que modulações do tom mais limpo,
cílios da pálpebra mais comportada,
trejeitos da cabeça mais centrada,
têm intenções, têm múltiplo sentido:

conforme esteja quem conforme a lua
amplia ou diminui o que te mostra,
ajeita a tua mão à sua luva
e ataca, ou pela frente, ou pelas costas.
A ocasião se colhe como a uva
que a chuva não encharca, e o sol não tosta.

Érico Nogueira, Dois, É Realizações, 2010, p.23,26.