sábado, 4 de abril de 2015

Dois amigos me ajudaram a resolver uma questão de escrita que, no meu caso, caminha no mesmo andamento com a vida. Eu sei, é pobre, mas é minha. Depois disso, aceitei poemas que eu havia escrito e não aceitava, e voltei a escrever sobre memória. Sim, memória. Para a amiga dediquei o poema abaixo e, no embalo, vão mais dois. Ao amigo já dediquei poemas e toda uma seção de um livro inédito. É minha maneira de agradecer a generosidade e a gentileza dos dois. Gratíssimo, Luciane Amato e Wladimir Saldanha.


LUZ LEMBRADA
Para Luciane Amato


Há um Éden na relva da memória,
relva do instante toda serenada;
a cor do sol abre-se em cheiro e orla
as margens da alegria e suas águas.

Abre-se como quem voa e acorda
cidades, flores, serras, o que estava
e não estava em vão na trajetória
imóvel – do que vendo não se cala.

Há um Éden na relva da memória,
onde serpentes súbitas se alam,
perigos de quem vive nas desoras
do coração e delas não escapa.

A matéria de amor que nos transborda,   
sem testemunhas dessa luz lembrada.



O QUE FOI SEMPRE


A memória é um sonho acordado,  
luz firmando na luz sua matéria.  
Retalhos, pó, resquícios do mais vasto
e do ínfimo pulsam numa estela

inscrita como um carma entre os meus braços
– palpita o seu frescor de apagamento,
floresce sobre a cama num retrato, e
no retrato respira o que vai sendo.

Não pode ser desfeito o que foi sempre
– senda de estrelas, dor do mais pequeno –,
o céu espelha o tempo no seu ventre, 
e o tempo mais faminto e mais sedento. 



MAR SECRETO


O cheiro diz a coisa – mundo aberto,
num átimo explosivo – mundo erguido
à tona do real já ex-deserto,
à tona de mim mesmo sem aviso.

Acaba de nascer um mundo antigo,
banhar-se duas vezes – mar secreto –,
nas ondas invisíveis me enraízo
e cresço como crescem os afetos.

A memória é um menino esquivo,
seu ser de espanto fulge e desconhece,
essa espantosidade sem alívio
expande no seu corpo que adolesce. 

sexta-feira, 27 de março de 2015

Convidado pelo poeta Carlos Machadohttp://www.algumapoesia.com.br/ - para participar do livro Outras ruminações - 75 poetas e a poesia de Donizete Galvão (http://www.portaleditora.com.br/), escrevi o poema "Almofariz", partindo do poema de Donizete Galvão (1955-2014). Para saber mais sobre o poeta mineiro, visite a bela e amorosa página, que seu amigo, Carlos Machado, preparou. Aqui: http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet302.htm Descanse em paz, Doni.

O poema de Donizete:

MÃO DE PILÃO

entre o ar
          e a dureza
do cedro
no ir
       e vir
metódico
matemático
martelado,
anos e anos
em deslize
pelos dedos
dão à mão
de pilão
uma pele lisa
               madura
               lustrosa
             
               instrumento
               que esfarela
               o grão
               e caleja
               a palma

Mundo mudo. São Paulo: Nankin, 2003.




ALMOFARIZ


Antes das horas gastas na feitura,
antes que as mãos suem seu sal, cansaço,
com o suor caírem silêncios, fúrias
– medite a luz a dilatar seu facho

feito raiz na escuridão aguda
do que será minério, veio árduo,
na terra onde cavamos nossas dúvidas;
perceba: qualquer menos e é fracasso,

um sim a mais expõe nossa penúria,
expõe: antes de ser não ser é fato.
E, na cozinha, minha mãe tritura 
tempo sem par no almofariz de aço.  

Outras ruminações – 75 poetas e a poesia de Donizete Galvão. São Paulo: Dobra Literatura, 2014, p.36


  

quinta-feira, 26 de março de 2015

Os três poemas abaixo, do livro inédito Sob o Cruzeiro do Sul, foram publicados por L. C. Pina de Bragança, na revista Andirá Empreendedora.

ADÉLIA DE CASTRO,
NA IGREJA DA GRAÇA 


“Aprendi a esperar algumas coisas:
amigos, certos livros, boas chuvas,
a luz dentro do tempo nas manhãs,
o seu corpo sonhando no meu colo,
os versos invisíveis mais à mão,
a passagem das horas descabidas
em que as harpias seculares guincham
meu nome de batismo como cúmplice.
Aos pés da espera, sentam-se as idades
e a paciência é fruto de outra espera,
tendo o silêncio como ouvinte único.
E cai o gota a gota dos segundos
no olho do real com mais doçura
e entendo que esperar sustenta o mundo.”  




NA IGREJA DE NOSSA SENHORA
DO MONTE SERRAT
Para Claudio Sousa Pereira 


Molda meu coração, barro insubmisso.
Por mais que se ofereça é sempre fúria,
pois há sombrios poços que diviso
à beira de mim mesmo, nas funduras.

Molda meu coração, ex-pedregulho,
que percorreu parábolas insanas,
atirando-se contra os próprios urros,
abrindo abismos dentro da garganta.

Molda meu coração, argila impura,
com Tuas mãos de luz em vaso d’água,
e aprendo a servir feito quem desfruta
um sopro de esperança que se alarga. 
  



MARLY DE OLIVEIRA EM BUENOS AIRES
Para Person Ramos Araújo 


“O mundo é sempre o mundo sem conserto.
Desejar consertá-lo é destruí-lo;
nada de reinvenções ou novos eixos,
aquele que o persegue é o perseguido.

O mundo é necessário com seus erros
e vale como vale o ser mais ínfimo;
os segundos respiram rarefeitos,
queimam de gratidão os seus resíduos.

O mundo além do mundo, num folheto,
grava todos os gestos no seu índice;
nada desaparece – vento ou seixo.
Veja-o como ele o vê: espanto vivo.”




   

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A VOZ E A BÚSSOLA
A Jaci Bezerra

Falo de um ser longínquo
de que só me chegam partes
-- a chuva, a claridade, os ventos:
o mesmo que faz que as pedras
se reúnam em tabuleiros
e permaneçam no solo
sob um teto de andorinhas.
A ele procuro, às vezes,
abrindo caixas, gavetas
ou derramando o vazio
que escorre do bolso avesso:
nalgum papel anotado
aponta quais os desejos,
o que pretende por troca,
sendo moeda meu corpo.

A ele talvez eu chegue
pela soma
de quanto prendo nas órbitas,
do curso comum das águas:
devolvendo o ar ao ar,
o voo e o nado inclusos
às aves que me procuram
e aos peixes (quantos reclamam):
para chegar até ele,
diariamente exercito
a ponta final das retas:
o alto da minha vértebra
retém ao chão a galáxia
de meu giro já sem curvas.

Falo de um ser longínquo
em órbita sobre si mesmo
-- o que acende e apaga,
em seu curso, meu semblante.

Audálio Alves. Canto da matéria viva. Rio de Janeiro: Editora Cátedra, 1970, p.54-55

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.

Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece-me que estava assi ordenado.

Contentei-me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.

Mas minha estrela, que eu já 'agora entendo,
a Morte cega e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo.

Luís de Camões, Lírica completa II. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1980, p.159.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

IN MEMORIAM
Locvizza, 30 de setembro de 1916

Chamava-se
Moammed Sceab

Descendente
de emires de nômades
suicida
porque não tinha mais
Pátria

Amou a França
e mudou de nome

Foi Marcel
mas não era francês
e já não sabia
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Alcorão
saboreando um café

E não sabia
desatar
o canto
do seu abandono

Acompanhei-o
junto com a dona da pensão
onde vivíamos
em Paris
do número 5 da rue des Carmes
esquálido beco em declive

Descansa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre
em dia
de
decomposta feira

E talvez apenas eu
saiba ainda
que viveu

Giuseppe Ungaretti. A alegria. Trad. Geraldo Holanda Cavalcanti. Record: Rio de Janeiro, 2003, p.41

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

APRENDIZADO


Gritava a alma como grita o porco:
a grande noite não a socorria
e o último eco nascia morto.

Bebia a água e bebia o porto:
navios que atracavam na garganta
e algas recompondo hortos.

Havia a vida e havia o dorso
deitado no silêncio desse dia
e havia ainda o olhar absorto.

Ah!... Havia o corpo...
Havia o corpo, que aprendia
a manejar a vontade e enfim sorria.

Wladimir Saldanha. Culpe o vento. Rio de Janeiro: 7Letras, 2014, p.70